quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Do artista brasileiro Fernando Chamarelli

Por Vaas
O universo pictórico do artista plástico Fernando Chamarelli,  mais conhecido no exterior que no Brasil, tendo participado de mostras individuais e coletivas em importantes galerias de arte urbana nos EUA, Alemanha, Canadá, México e Reino Unido. Em setembro de 2011 teve seu recente trabalho - KAAPORA - exposto na QAZ Galeria de Arte, em São Paulo.







http://misturaurbana.com/

O troféu Roda do Samba para Elis Regina


Por Assis Ribeiro
Elis Regina. Primeiro lugar Festival da Record.
Troféu Roda do Samba.

PSDB: a derrota, Serra vencendo ou não

Autor: 
Em xadrez há uma máxima: quando um jogo começa errado, termina errado. A posição do jogador no meio da partida depende dos erros ou acertos da abertura.
Ocorre o mesmo com os partidos políticos.
Tome-se o caso do PSDB paulista. Desde a morte de Mário Covas afastou-se definitivamente de qualquer projeto legitimador popular. O estilo elitista de FHC e seus acadêmicos, manifestado nos menores gestos, impregnou toda a máquina partidária. Cada vez mais o partido se fechou nos gabinetes, sujeitando-se apenas à influência de aliados próximos. Com José Serra, esse isolamento foi levado ao paroxismo.
O desprezo por tudo que simbolizasse participação, compartilhamento de decisões, levou ao isolamento e, depois, ao definhamento da militância. E, pior, ao fim da veleidade de se lançar novos quadros, permitindo a renovação.
Essa renovação poderia se dar a partir dos municípios, revelando novas práticas dos prefeitos tucanos que, eventualmente, pudessem ser incorporadas pelo partido. Nada foi feito. No governo Serra um secretário se vangloriava de ter instituído um sistema automático para acolher demandas de prefeitos e comunicar liberações, sem que fosse necessária a presença física deles no Palácio. Até prefeito tucano dava urticária em Serra. Aliás, até reunião de secretariado o incomodava, tanto que não se tem notícia de uma reunião sequer de articulação de trabalhos.
Sem renovar ideias, sem lançar novos quadros, sem desenvolver sequer um modelo eficiente de gestão - a mística da boa gestão paulista é meramente um tigre de papel jornal - o PSDB chega à penúltima cidadela - a prefeitura de São Paulo - tendo que se render ao pior aliado que poderia buscar: José Serra.
Sem Serra, seria o ruim: nenhum candidato com chances objetivas de vencer as eleições.
Com Serra, será o pior. Mata-se qualquer possibilidade de reavivamento da militância, de mudar a natureza do partido (tenho para mim que é tarefa inglória: o PSDB entrou em um beco sem volta).
Serra é o chamado objeto universal de ódio. O ódio dos petistas é seu trunfo. Aliás, é o cimento de suas relações com jornais e colunistas: uma aliança fundada apenas no negativismo. Mas também acumula o ódio de Alckmin, do PSD, do DEM, da militância tucana paulista, do PSDB nacional, de Aécio.
Não tem lealdade com o PSDB como não terá com o PSD e com Kassab, se eleito. A não ser que seja do seu estrito interesse.
Geraldo Alckmin terá na prefeitura um inimigo disposto a torpedeá-lo 20 horas por dia - as 4 horas restantes serão dedicadas ao extermínio de jornalistas críticos.
Gilberto Kassab joga todas suas fichas em uma aposta sem futuro. Se Serra perde, Kassab está fora do jogo, sem caixa da prefeitura para turbinar o partido, sem interlocução no governo federal e alvo da ira de todos os correligionários. Joga fora o futuro - uma aliança com Eduardo Campos, provavelmente o mais promissor político brasileiro fora dos quadros do PT - por um compromisso com o passado.
Tudo isso foi digerido em nome de um risco maior: perder a prefeitura de São Paulo para o PT.
E qual a razão do PSDB paulista ter hipotecado seu futuro em favor do curto prazo? Provavelmente a convicção de que esse futuro não mais existe.

A comparação dos preços da gasolina no Brasil e nos EUA

Por walber f. santos
Comparar o preço da gasolina do Brasil com a gasolina dos EUA . Como? Quais os critérios para se chegar a um denominador comum? Que credibilidade tem esta consultoria Airinc?
A Matéria colada abaixo deve ser lida com reserva uma vez que a economia americana tem fatores de alavancagem diferentes da economia brasileira. Por outro lado, o sistema de formação de preços dos combustiveis no EUA é totalmente diferente da metodologia brasileira adotada para este fim.
Para quem lê parece que se está comprando grandezas com o mesmo denominador comum, mas não é assim. Pois até as dimensionais dos elementos de formação de custos são diferenciadas e complexas para serem uniformizadas dentro do processo. Portanto, a  matéria do Estadão não discute o processo de produção diferenciados nos dois paises. A mão de obra  e a legislação trabalhista em ambos paíse tem ponderações diferenciadas. Há a questão tambem da importação do produto in natura chamado petroleo.
p>Logo,  a primeira vista parece que a gasolina aqui é muito caro em relação a NY. Mas faltou comparar as planilhas de fluxos de importação de serviços e materiais que tem reflexos no custo da gasolina brasileira. A gasolina é brasileira, mas o percentual de serviços e materiais para separa-las do petroleo bruto são terceirizados e importados.  O cálculo destes custos exigem uma planilha de variaveis complexas, cujos elementos tem sua natureza matemática contabil economica e política.
É claro que a questão dos impostos internos tem um peso relevante na composição do custo final. Contudo,  o fato de a Petrobrás ter conquistado produção de gasolina nacional em alta escala, não quer dizer que conseguiu conquistar um "break-even-point" ideal para o povo brasileiro, onde o preço final ao consumidor refletisse a vontade dos usuários nacionais, isto é pagar pela gasolina o mesmo preço que se paga nos países arabes. Digá-se de passagem que em alguns países arabes os moradores lavam suas calçadas com gasolina.
A realidade é que estas comparações de preços finais de energia e combustiveis  entre países de economias totalmente distanciadas uma das outras não procedem. Esta é minha opinião, que deve ser refutada por aqueles que não concordam.A bem da verdade, meu filho é químico da Petrobrás e trabalha no Cenpes, que fica na Ilha do Fundão,e converso sobre este o assunto com ele.
"Gasolina em SP custa 70% mais que em NY, diz estudo
Segundo a consultoria Airinc, a carga tributária no país representa 57% do litro do combustível
15 de abril de 2011 | 17h 55

Kelly Lima, da Agência Estado
RIO - A taxação da gasolina no Brasil cria distorções com relação ao seu preço e faz com que o combustível, apesar de sair da refinaria da Petrobrás 25% mais barato do que de uma refinaria americana, chega ao consumidor muito mais caro do que qualquer posto de combustível das Américas.
A carga tributária no país representa 57% do valor do litro do combustível, uma das mais altas do mundo, perdendo apenas para os países europeus, onde a política de desestímulo ao uso de carros puxa para 70% o tributo sobre a gasolina.
De acordo com estudo realizado pela Airinc, consultoria norte-americana especializada em preços globais, o preço da gasolina na capital paulista é de US$ 1,73, valor 70% maior do que em Nova York, ou 105% maior do que na Rússia, um dos grandes países emergentes que integram o grupo Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).
A pesquisa feita considera cotação da moeda norte-americana em R$ 1,67. Sendo assim, o preço médio do litro do combustível derivado do petróleo na Capital paulista foi de R$ 2,89.
No ranking das Américas, preparado pela consultoria, o Brasil possui o maior preço entre seus vizinhos, todos com taxações menores, a exceção da Venezuela, onde os fortes subsídios de Hugo Chávez, fazem com que o país, onde o litro da gasolina custa US$ 0,01 seja o mais barato do mundo.
Neste ranking mundial, países com reservas gigantescas, como a Arábia e a Líbia, estão entre os que apresentam o preço mais baixo do mundo, respectivamente com US$ 0,110e US$ 0,14. Na outra ponta, os mais caros do mundo são a Turquia, com o litro da gasolina custando US$ 2,54 e a Eritéia, país africano que vive em conflito com sua vizinha Etiópia, e cobra pelo litro US$ 2,53.


Na Venezuela, preço do litro é de US$ 0,01, menor valor do mundo; entre os Brics, Brasil é o mais caro
Nas Américas, atrás do Brasil estão o Chile US$ 1,57, Cuba (US$ 1,35) e Canadá (US$ 1,31). No Brics, o Brasil também lidera o ranking: China cobra US$ 1,11; Índia US$ 1,26 e a recém-incluída África do Sul, US$ 1,27.
"Os impostos sobre a gasolina no Brasil sempre estiveram lá em cima", lembra o diretor jurídico do Sindicato Nacional das Distribuidoras de Combustíveis.
Além do PIS/Confins, que representam cerca de 20% do total dos tributos que incidem sobre a gasolina, há ainda o ICMS, determinado pelas secretarias de Fazenda de cada estado, e ainda a Contribuição por Intervenção de Domínio Econômico (Cide), criada em 2001 como colchão para amortecer eventuais aumentos que o combustível tivesse ao acompanhar o mercado internacional.
De lá para cá, o governo utilizou o mecanismo por três vezes. A primeira, em 2008 para anular o impacto no preço ao consumidor - e consequentemente na inflação - de alta repassada pela Petrobrás. A segunda no ano seguinte para retomar sua arrecadação, quando a Petrobrás reduziu o preço do combustível, também acompanhando o preço no mercado internacional. A terceira no ano passado, quando houve começou a escalada de preços no valor do etanol - que é acrescido à gasolina na proporção de 25% do litro.
Por conta da alta no preço do barril do petróleo que vem sendo verificada desde janeiro, e a pressão do governo para que a Petrobrás não repasse esta oscilação para seus preços - o que teria forte impacto na inflação - já existem estudos para que a Cide seja mexida novamente.
Porém, o diretor do Sindicom lembra que tem ficado nas mãos dos estados federativos as maiores oscilações registradas frequentemente. Isso porque a cada alta do preço do etanol, as secretarias de Fazenda alteram a base de cálculo do ICMS, o que puxa o preço na bomba ainda mais para cima.
Há ainda alguns estados, como Rio Grande do Norte e Minas Gerais que aumentaram o porcentual de cobrança de ICMS sobre a gasolina este ano, de 25% para 27%.
De acordo com o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, esta distorção atinge o consumidor, mas não remunera adequadamente a Petrobrás. A companhia tem os preços do diesel e da gasolina, que representam 60% de suas vendas, defasados em 11% e 23% em relação ao mercado americano de referência. Ou seja, o valor da gasolina sai da refinaria no Brasil custando R$ 1,00, portanto, 23% menor do que o valor da gasolina na refinaria americana. "Em média, os Estados Unidos embutem em torno de 20% de impostos no preço", destaca o consultor. Segundo estimativas do CBIE, por não repassar a alta do barril para seus preços no mercado interno, a Petrobrás já deixou de receber cerca de US$ 1 bilhão desde janeiro.
A Fecombustíveis (Federação Nacional de Revendedores de Combustíveis) estima que se a defasagem da gasolina fosse repassada na íntegra para o consumidor, o preço chegaria 7% mais caro na bomba. parceiros comerciais do Brasil."
http://economia.estadao.com.br/noticias/economia,gasolina-em-sp-custa-70-mais-que-em-ny-diz-estudo,63104,0.htm

Se eleito, Serra deixará PSDB, diz Kassab

Por Adamastor
Do Blog de Josias de Souza
Kassab diz que Serra deixará PSDB se for eleito 
Em seus diálogos privados, Gilberto Kassab informa que, se for eleito para a prefeitura de São Paulo, o tucano José Serra vai romper com o PSDB e abandonar os quadros da legenda.
Na versão difundida por Kassab nos subterrâneos, Serra pretende articular a formação de um novo partido. A base dessa legenda seria o PSD. Ao partido presidido por Kassab seriam incorporadas outras agremiações.
p>Nesses diálogos travados a portas fechadas, Kassab repete algo que disse sob holofotes. Segundo ele, Serra não cogita disputar a Presidência da República em 2014. Planeja dedicar-se à prefeitura.
Em conversa com o blog, um dos ouvidos que escutaram Kassab juntou as duas pontas da argumentação e concluiu: não faz nexo. Indaga-se: por que Serra iria à nova legenda se não pretendesse ressuscitar o projeto presidencial que o PSDB lhe sonega?
A interlocutores petistas, Kassab adiciona outro dado. Afirma que, em São Paulo, sua aliança é com Serra, não com o PSDB. Diz não ter compromisso, por exemplo, com a reeleição do governador tucano Geraldo Alckmin.
Reitera que, no plano federal, nada muda. O seu PSD continuará atuando no Congresso como força auxiliar do governo Dilma Rousseff. Lamenta que tenha desandado a negociação que o levaria a apoiar Fernando Haddad na capital paulista.
Kassab atribui ao próprio PT o malogro da articulação. Recorda que, antes do Carnaval, aconselhara ao petismo que apressasse o fechamento do acordo. Rememora detalhes das conversas que manteve com Lula e Dilma Rousseff.
Dissera a ambos que, se Serra entrasse no jogo, não teria como se esquivar de apoiá-lo. Achava que, selado o acordo do PSD com o PT em torno da candidatura de Haddad, o amigo tucano não seria candidato hoje. A demora do petismo, diz ele, trouxe Serra à disputa.

A Grécia e a cortina de fumaça do resgate bancário

Por Assis Ribeiro
Na Revista Fórum
A Grécia é uma fachada para esconder o maior resgate bancário de sempre
Os “resgates financeiros”, os duros cortes na despesa pública, o ataque à propriedade pública — todos refletem a experiência dos países em desenvolvimento entre 1980 e os anos 1990. O resultado foram duas décadas de desenvolvimento perdidas
Os ministros da zona do Euro que se encontraram em Bruxelas na noite retrasada para decidir o futuro da Grécia deviam ter assistido à oportuna conferência da Universidade de Londres sobre aprender lições com a América Latina.
p>A lição principal é de uma importância premente: as políticas econômicas impingidas à América Latina no início dos anos 1980 foram uma excelente forma de ajudar os bancos dos EUA a recuperar da crise, mas uma maneira terrível de resolver a crise da dívida da América Latina, criando em vez disso duas décadas de mais dívida, pobreza e desigualdade.
Sem qualquer dúvida, foi precisamente este o objetivo dessas políticas — mudar o fardo da crise financeira do sistema financeiro para as nações em desenvolvimento.
O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial emprestaram dinheiro a dezenas de países que de outra forma teriam entrado em inadimplência, por forma a manter os reembolsos da dívida a fluir de volta para os bancos do mundo rico que tinham dado origem à crise através das suas estratégias temerárias.
A seguir, esses países, que não beneficiaram de todo destes fundos “de resgate”, foram compelidos a implementar políticas de ajustamento estrutural que levaram à privatização da indústria, à libertação de dinheiro do controle governamental e à abertura dos mercados à competição selvagem com empresas norte-americanas e europeias convenientemente subsidiadas. A pobreza multiplicou-se, a desigualdade proliferou e a finança foi proclamada rainha.
A mesma lógica jaz mal disfarçada por detrás do “resgate” à Grécia que os ministros das finanças europeus estão hoje a concertar. Não há sequer uma tentativa de fingir que o povo grego vai beneficiar com estes fundos.
É reconhecido que as medidas adicionais de austeridade que a Grécia tem que implementar para receber estes fundos, a que os sindicatos gregos apelidam de “atrozes”, vão causar estagnação e desemprego prejudiciais ao reembolso da dívida. Em 2020 a dívida da Grécia vai ainda representar uns insustentáveis 120% do PIB do país — e isso é se as coisas correrem mesmo muito bem.
O golpe adicional nas pensões de mais 13% e do salário mínimo em 22% e a grande redução da despesa com a concomitante perda de empregos no setor público, apenas pode ter como resultado uma depressão mais longa e profunda. Até as agências de rating já reconheceram a futilidade de forçar os países a uma estagnação contínua.
Portanto, qual é o objetivo do “resgate”? Manter dinheiro a entrar no sistema financeiro europeu. De fato, a provável criação de uma conta escrow ou de caução significará que o povo grego vai ser completamente contornado — o dinheiro vai ser emprestado por instituições europeias, sendo no fundo dinheiro dos contribuintes — e entrar nos cofres dos bancos europeus. É um resgate bancário numa escala gigantesca.
Mas as boas notícias para os bancos não acabam aqui. Ao forçar a Grécia a acelerar o seu programa de privatização de €50 mil milhões, toda a espécie de bens apetecíveis — desde aeroportos, portos e autoestradas até à água e ao saneamento — vão ser postos à venda para ser arrebatados pelos financeiros dos países que estão a impor estas políticas.
Os “resgates financeiros”, os duros cortes na despesa pública, o ataque à propriedade pública — todos refletem a experiência dos países em desenvolvimento entre 1980 e os anos 1990. O resultado foram duas décadas de desenvolvimento perdidas.
Até agora era invulgar países regredirem no que toca aos seus níveis de rendimento. Mas durante os anos noventa 54 países regrediram no que toca ao rendimento per capita e o número da pobreza extrema aumentou em 100 milhões — não por causa de guerra ou desastres naturais mas devido à dívida e ao ajustamento estrutural.
O bem-estar humano foi sacrificado em nome dos ditames do sistema financeiro.O aumento das taxas de homicídio, suicídio e de VIH na Grécia pintam hoje um cenário semelhante.
Há alternativas com as quais a Europa podia aprender.
Depois da Segunda Guerra Mundial foi concedido à Alemanha o perdão de uma enorme parte da dívida e o reembolso da dívida restante foi explicitamente ligado ao crescimento do país.
Mas o povo grego tem de esperar pela benevolência europeia. Embora não haja soluções indolores para a crise da dívida, quando os governos fizeram frente ao poder dos seus credores entrando em incumprimento, fazendo auditorias à dívida ou insistindo nas suas próprias condições de pagamento — desde a Argentina ao Equador e à Islândia — os resultados foram notoriamente melhores.
Além disso, eles fizeram algumas tentativas de recuperar a sua soberania dos caprichos de um sistema financeiro instável.
Essas soluções parecem estar para além da visão ou da coragem dos governos europeus, mas são soluções cada vez mais procuradas pelos povos da Europa.
Não admira que o ministro das finanças alemão tenha avançado com a ideia que um “comissário” seja nomeado para fiscalizar o protetorado europeu da Grécia ou, se isso não funcionar, que a democracia seja suspendida por tempo indeterminado. Este é o resultado lógico de considerar as pessoas antes de mais como um obstáculo ao reembolso dos seus bancos.
Nós propomos uma lógica diferente: quando a dívida não puder ser paga precisamos de parar de punir as pessoas menos responsáveis e começar a pensar em mudar as regras que governam aqueles que são responsáveis.
Original: http://www.cadtm.org/Greece-is-a-smokescreen-to-hide

Haiti: o palco de política externa do Brasil

Da BBC Brasil
Embaixador Igor Kipman em Porto Príncipe (Foto: João Fellet)
Para Kipman, Haiti é palco mais importante de política externa do Brasil (Foto: João Fellet)
Às vésperas de deixar o comando das atividades do governo brasileiro no Haiti, o embaixador Igor Kipman diz que sai do cargo num momento em que o Brasil exerce, no país caribenho, papel de ator principal.
�, sem sombra de dúvida, o palco mais importante para a nossa política externa. Do ponto de vista de exposição, de interação com parceiros, é o posto mais importante da carreira", diz Kipman à BBC Brasil, em entrevista concedida na embaixada brasileira em Porto Príncipe.
No período, diz o embaixador, o Brasil intensificou os esforços de cooperação iniciados em 2004, mesmo ano em que o país assumiu a chefia do braço militar da Minustah (Missão da ONU para a Estabilização no Haiti).
Kipman, que assumirá a embaixada na Suíça, afirma ainda que a ênfase dada pelo Brasil ao Haiti nos últimos anos transformou o país num laboratório para experimentos brasileiros nas áreas civil e militar, o que, segundo ele, tem beneficiado ambas as nações.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
BBC Brasil – No período em que o senhor foi embaixador no Haiti, o país ganhou muita importância para a diplomacia brasileira. Como isso se fez sentir em seu trabalho na embaixada?
Kipman - O Brasil mudou sua atitude em relação ao Haiti em 2004, por uma determinação do presidente Lula. Ele decidiu que era momento de o Brasil estender uma mão solidária ao Haiti, o país mais pobre do Ocidente. Desde então, o Brasil tem aqui posição de ator principal.
A embaixada é uma espécie de coordenadora de atividades não só do governo brasileiro: temos uma presença aqui do Estado brasileiro, incluindo sociedade civil, com inúmeras ONGs. De 2008 pra cá, tentei aproximar esforços para evitar duplicidade.
BBC Brasil – O que mudou após o terremoto em 2010?
Kipman - Tínhamos um elenco importantíssimo de 30 projetos de cooperação técnica em saúde, agricultura, justiça, até que houve o terremoto, que há quem diga foi a maior catástrofe natural da era moderna.
Diferentemente do tsunami na Indonésia e do furacão Katrina em Nova Orleans (EUA), aqui o terremoto afetou capital do país, que concentra todos os serviços. Derrubou todos os prédios públicos exceto um ministério, matou cerca de 30% da força de trabalho do governo. O Estado ficou por um período sem capacidade de reação.
"O Haiti é um laboratório para nós, nas áreas militar e civil, de governo e de sociedade civil. Aqui temos aprendido muito na área de cooperação. (...) É amplamente benéfico para Haiti e extremamente interessante para nós. "
Embaixador Igor Kipman
Foi uma situação de emergência em que Brasil, mas não só, atuou de forma extraordinária. O terremoto foi na terça, no domingo começou a funcionar o hospital da Força Aéra, que fez milhares de intervenções, centenas de cirurgias. Entre janeiro e maio, houve mais de 200 voos da FAB com ajuda humanitária.
Passada a fase de emergência, não só retomamos projetos anteriores como passamos a implementar mais alguns. Desde que estou aqui, posso afirmar que sinto crescimento da presença brasileira em todos os níveis, seja político, em ajuda humanitária ou em cooperação técnica.
Para exemplificar esse significado da presença brasileira aqui, basta dizer que, nesses quatro anos em que estou aqui, organizei três visitas de presidente da República. Isso você não verá em outros países.
BBC Brasil - Esse crescimento exponencial da presença brasileira no Haiti não gera riscos de ingerência no país? No Brasil, diz-se que atuação das Forças Armadas aqui recuperou o moral da instituição e inspirou a política de segurança atualmente implantada nas favelas do Rio. O Haiti não pode se tornar uma espécie de laboratório para experimentos brasileiros?
Kipman - O Haiti é um laboratório para nós, nas áreas militar e civil, de governo e de sociedade civil. Aqui temos aprendido muito na área de cooperação. Desde 2004, temos feito experiências com cooperação triangular. Já tivemos projeto Canadá-Brasil-Haiti na área de saúde, já tivemos Espanha-Brasil-Haiti na área de reflorestamento. Isso tudo é aprendizado que fica. É amplamente benéfico para Haiti e extremamente interessante para nós.
Mas não há ingerência porque estamos aqui a convite do governo haitiano e por determinação do Conselho de Segurança da ONU, com mandato absolutamente correto do ponto de vista do direito internacional. Quanto aos militares, não concordo que recuperaram o moral aqui, porque não o tinham perdido.
BBC Brasil – Críticos também mencionam os altos custos da operação para o Brasil e questionam seus benefícios.
Kipman - Vemos crítica em relação ao custo, mas o retorno é intangível. O militar que passa seis meses aqui volta com outra visão de mundo. Vendo aqui realidade muito mais dura que a sua, volta reconciliado com Brasil. Há ganho a nível pessoal, cultural, de educação.
O ganho não é só na área militar. Os técnicos da Embrapa, de saúde, de direitos humanos que vêm trazem aporte, mas levam de volta aprendizado também.
BBC Brasil – No ano passado, o Conselho de Segurança da ONU determinou o início da retirada das tropas estrangeiras (Minustah) no Haiti. Há margem para novas reduções no contingente?
Kipman - Com o terremoto, o Conselho autorizou um aumento para atender à emergência. Hoje estamos retornando quase aos níveis anteriores. Ainda há muito a fazer, mas a emergência passou, e a epidemia de cólera está controlada.
Representa o início de uma retirada gradual? Esperamos que sim. Ninguém tem objetivo de se perenizar no Haiti, fazer disso um laboratório permanente. Mas há objetivo que se superpõe a esse: o de não precisar voltar. Esta já é a sétima missão da ONU no país, porque as demais se retiraram prematuramente, antes de o país assumir o desenvolvimento com suas próprias mãos.
BBC Brasil – Como avalia o processo de ampliação da Polícia Nacional do Haiti?
Kipman - Em 2004, havia força policial no país com cerca de 3 mil homens. Hoje ela tem mais de 10 mil. Ainda precisam de treinamento e equipamento, que estamos proporcionando juntamente com França, Canadá, Estados Unidos.
Meta atual é de 20 mil, mas já houve melhora grande. Em outubro, haverá discussão na ONU de renovação do mandato da Minustah, onde será discutida provavelmente uma nova redução do contingente para 2012, acredito eu, em função da melhoria das condições da Polícia Nacional do Haiti.
Desde 2008, 2009 defendo que temos que discutir internamente no Brasil e com parceiros uma estratégia de saída, que é fundamental.
BBC Brasil - Pelo andar da carruagem, o senhor vislumbra um prazo para a retirada total das tropas?
Kipman - Há vários cenários em discussão. Alguns colocam 2016, outros 2018, há um cenário que fala em 2020. É difícil me arriscar a dizer, mas acho que o mais realista seria 2018. Mas isso é uma previsão quase profética, porque há eleições aqui novamente em 2015, e o novo governo pode dizer: obrigado, vocês nos ajudaram, mas...
BBC Brasil – Mas o presidente Michel Martelly já anunciou a intenção de reconstruir o Exército haitiano para substituir as forças da ONU, inclusive em discurso dentro do batalhão brasileiro.
Kipman - Nenhum povo gosta de ver seu país com forças estrangeiras. O haitiano quer que nós vamos embora? Quer. Mas todos os níveis, do presidente aos moradores de Cité Soleil, entendem que não pode ser uma retirada precipitada e imediata, com risco de ter retrocesso às condições de 2004, quando áreas de Porto Príncipe eram controladas por gangues.
"Ninguém tem objetivo de se perenizar no Haiti, fazer disso um laboratório permanente. Mas há objetivo que se superpõe a esse: o de não precisar voltar. Esta já é a sétima missão da ONU no país, porque as demais se retiraram prematuramente, antes de o país assumir o desenvolvimento com suas próprias mãos. "
Embaixador Igor Kipman
Em 2004, quando escurecia, não havia rigorosamente nenhuma iluminação, e não se via vivalma na rua. As pessoas se recolhiam, era insegurança total. Hoje tem comércio, tem gente. Todos entendem que não é ainda o momento, por isso que defendo retirada gradual à medida que a Polícia Nacional Haitiana e ou a nova força que o presidente mencionou possam se ocupar sozinhas das forças do país.
BBC Brasil - Não seria interessante trocar o comando da vertente militar da Minustah? É raro um único país, no caso o Brasil, permanecer por tanto tempo à frente de uma missão multilateral.
Kipman - A que se deve a perenização do nosso comando? Ao amplo êxito da Minustah, reconhecido por todos os parceiros. Enquanto a ONU nos pedir que comandemos, comandaremos. Conheci aqui no Haiti todos os force commanders (comandantes da força), e todos foram excepcionais.
BBC Brasil - Como o governo e o povo haitianos reagiram à decisão do governo brasileiro de conceder cem vistos mensais a cidadãos do país?
Kipman - Houve um equívoco, que foi culpa nossa, do governo, de não explicar a medida, porque falaram que estabelecemos cotas. Não foi isso. Qualquer haitiano que venha aqui (à embaixada) para se candidatar a um visto permanente ou de trabalho, temporário, continua com todos os direitos de qualquer cidadão no mundo. Criou-se uma cota de concessão além do normal. Não é uma restrição, é uma ampliação de direito.
O governo haitiano ficou lisonjeado e feliz com essa abertura, porque obviamente o problema de desemprego no país é seríssimo e não será resolvido em 15 dias. O haitiano que aqui não encontra oportunidades de trabalho busca não só o Brasil: há cerca de 75 mil haitianos nas Bahamas, dezenas de milhares em Guadalupe, na Martinica, na Guiana Francesa, milhões nos Estados Unidos, na República Dominicana.
A reação da população foi de procura imensa, para buscar informações sobre o que é necessário para se candidatar ao visto. Não estamos concedendo ainda grande quantidade porque há três exigências: ter passaporte, ser residente no Haiti, comprovado por atestado de residência, e apresentar atestado de bons antecedentes. Aqui isso é relativamente complicado, leva pelo menos um mês para produzir a documentação.
BBC Brasil - Por que cem vistos por mês?
Kipman - Do terremoto para cá, houve ingresso de cerca de 70 e 80 haitianos ilegais pela fronteira norte do Brasil ao mês. Ao conceder cem vistos, damos margem para absorver os que estão sendo submetidos a maus tratos pelos coiotes, para a travessia pela floresta, com risco de saúde e morte.
"Houve um equívoco, que foi culpa nossa, do govenro, de não explicar a medida, porque falaram que estabelecemos cotas. Não foi isso. Qualquer haitiano que venha aqui (à embaixada) para se candidatar a um visto permanente ou de trabalho, temporário, continua com todos os direitos de qualquer cidadão no mundo."
Embaixador Igor Kipman
Abre-se porta para essa cota que entrava ilegalmente entrar de cabeça erguida em Guarulhos, Brasília, Manaus, pelos aeroportos.
BBC Brasil - Esses critérios não vão peneirar os postulantes ao visto, dificultando que os mais pobres o obtenham?
Kipman - Sem dúvida, mas aí não há muito o que fazer. Se ele vai ao Brasil, depende de comprar bilhete aéreo também. Em vez de pagar bilhete até Quito e o coiote, vai economizar o coiote.
BBC Brasil - Mas chegar ao Brasil só com o visto, sem apoio para aprender português e se inserir no mercado de trabalho, não é pouco?
Kipman - Mas há apoio. Ilegais têm apoio de igrejas, de governos locais. O Ministério do Trabalho está organizando elenco de associações, de entidades que se dispuseram a prestar apoio a eles. Isso está sendo feito de forma muito profissional.
BBC Brasil - O senhor vai sentir falta do período aqui?
Kipman - O Haiti é, sem sombra de dúvida, o palco mais importante para a nossa política externa. Do ponto de vista de exposição, de interação com parceiros, é o posto mais importante da carreira. Mas também pelas características do país, as dificuldades, acho que nenhum embaixador deveria ficar aqui mais de três anos. Estou indo para o quarto, então é o momento de partir.
Lá na Suíça será muito diferente e sem dúvida sentirei falta de uma porção de coisas. Por outro lado, poderei caminhar sozinho e livremente pela rua, poderei ir ao cinema toda semana, terei tempo para ler bons livros. A Suíça tem outros tipos de problema, não está sujeita a terremotos nem furacões, mas também tem atividades muito importantes para o governo brasileiro.