terça-feira, 6 de março de 2012

Katia Drummond


CONSAGRAÇÃO

Sinto uma fragrância de alfazema pelo ar…
Sei que ele ronda nosso templo… E que não tarda.

... Trato de acender as velas e os incensos.
Abro as janelas, como quem devassa sonhos.
Peço silêncio aos pássaros. Calma ao vento.
Ao longe, entre o ramalhar das árvores,
pressinto, em quietude, o seu chegar!

Preparo o corpo para o calor do seu abraço.
O rosto, para a ternura do seu beijo.
O colo, para o deleite da sua alma.

Como quem não quer nada,
agradeço aos elementais, na surdina…
Faço-me concha, para aconchegá-lo.
Em formosuras, faço-me ninho.

E, depois, sorrindo em lágrimas,
venero-o, em maternal amor.

Vejo-o partir, como partem as andorinhas.
Os girassóis, ao findar as primaveras…
Mas… Apenas por saber que ele voltará,
sinto-me, ou finjo-me sentir, asserenada.

Afinal, somos, da mesma natureza, engendrados.
No mesmo universo, mãe e filho, proclamados.
Dessemelhantes, gerados da mesma espécie.
Consagrados, ungidos com a mesma luz!

Sinto uma fragrância de alfazema no ar...

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