terça-feira, 6 de março de 2012

Por isso é natural que eu me interrogasse, lá naquele bastidor onde costumamos e...nfrentar-nos às verdades mais essenciais que conformam nossa identidade, qual terá sido o sustento constante de minha obra, o que pode ter chamado a atenção, de forma tão comprometedora, desse tribunal de árbitros tão severos. Confesso sem falsas modéstias que não foi fácil encontrar a razão, mas quero crer que tenha sido a que eu gostaria. Quero crer, amigos, que esta é, uma vez mais, uma homenagem que é rendida à poesia. À poesia, por cuja virtude o inventário assustador das naus que o velho Homero enumerou em sua Ilíada está visitado por um vento que as empurra a navegar com sua presteza intemporal e alucinada. À poesia, que retém, no delgado andaime dos tercetos de Dante, toda a fábrica densa e colossal da idade Média. À poesia, que com tão milagrosa totalidade resgata a nossa América nas Alturas de Macchu Picchu, de Pablo Neruda, o grande, o maior, onde destilam sua tristeza milenar nossos melhores sonhos sem saída. À poesia, enfim, a essa energia secreta da vida cotidiana, que cozinha seus grãos e contagia o amor e repete as imagens nos espelhos. Em cada linha que escrevo trato sempre, com maior ou menor fortuna, de invocar os espíritos esquivos da poesia, e trato de deixar em cada palavra o testemunho de minha devoção pelas suas virtudes de adivinhação e pela sua permanente vitória contra os surdos poderes da morte.(A Solidão da América Latina – Discurso de Gabriel Garcia Marquez pra o Prêmio Nobel de Literatura/1982) FOTO: Gabriel Garcia Marquez

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