sexta-feira, 14 de outubro de 2011


Luis Fernando Veríssimo

Um homem sente que acordou, mas não consegue abrir os olhos. Tenta
se mexer mas descobre  está paralisado. Começa a ouvir vozes.
— Coitado...
— Olha a cara. Parece que está dormindo...
Sente cheiro de velas. Será que...?
Outras vozes:
— É. Descansou.
— Ninguém esperava. Tão saudável.
— Coitado...
As vozes parecem conhecidas. Ele começa a entrar em pânico.
Concentra toda a sua força em abrir os olhos. Não consegue.
Tenta mexer uma das mãos. Um dedo! Nada.  Meu Deus. Preciso mostrar que é um engano,
não morri. Vão enterrar um vivo. Ou será que não houve engano? Morri mesmo.
Estou ouvindo tudo, sentindo tudo, mas estou morto.  Isto é horrível, isto é...
— Um homem tão bom...
— Grande caráter...
— Que marido.
— Vida exemplar...
O homem fica mais aliviado. Pode estar num velório. Mas, definitivamente, não é o seu.

Texto extraído do livro "A Mãe do Freud", L&PM Editores - Porto Alegre, 1985, pág. 75.

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