.Entrevista com a vítima do erro judiciário, de 1998
Enviado por luisnassif, qua, 23/11/2011 - 12:23
Comentário do post "Morre o homem que passou 19 anos preso injustamente"
Por almeid
Entrevista com o Sr Mariano, vítima do erro judiciário.
Do Diário de Pernarmbuco - 11/10/1998
Entrevista / Marco Mariano da Silva
Em 1976, o caminhoneiro Marco Mariano da Silva, conhecido como Montila, 50 anos, foi acusado de assassinar um homem no município do Cabo de Santo Agostinho. Ele permaneceu no Presídio Professor Aníbal Bruno durante quatro anos e, no final de 1980, a polícia descobriu o verdadeiro culpado do assassinato. Marco Mariano amargou esses anos na prisão até que seu caso fosse a julgamento. De volta ao convívio com a sociedade, Montila começou a trabalhar como taxista para sobreviver. Mas a liberdade de Marco Mariano durou pouco.
p>Na madrNa madrugada do dia 14 de fevereiro de 1985, ele estava parado com seu táxi, em frente à destilaria do Cabo, quando foi pego armado com um revólver calibre 38. O caminhoneiro acabou sendo levado para a delegacia de Capturas, onde ficou detido por alguns dias e terminou voltando para o Aníbal Bruno. Desta vez, uma declaração do juiz Aquino de Farias Reis, da comarca do Cabo de Santo Agostinho, complicou ainda mais a sua situação. Na época, o magistrado enviou um ofício comunicando que Marco Mariano da Silva estava em livramento condicional e respondia a inquérito policial.
Em 1987, Marco foi mais uma vez vítima do destino. Os presos do Aníbal seqüestraram o diretor do presídio, Kléber Amorim de Azevedo, e para conter a fúria dos detentos, os policiais jogaram várias bombas de gás. Uma delas atingiu Marco Mariano, que estava dentro da própria cela. Dois anos depois, o caminhoneiro perdeu a visão do olho esquerdo e em 95, ele ficou sem o outro olho. Completamente cego, Marco Mariano já não tinha mais esperanças para deixar o presídio com vida, mas no dia 25 de agosto desse ano, através do mutirão promovido pelo Tribunal de Justiça, ele foi posto em liberdade novamente.
Como não existia nenhum registro no cartório único da distribuição da comarca do Cabo de Santo Agostinho e pela 1ª Vara das Execuções Penais e por ter sido absolvido pelo Tribunal do Juri da primeira acusação, o desembargador Arthur Pio dos Santos concedeu alvará de soltura a Marcos Mariano da Silva. Hoje, apesar de não enxergar, Montila busca na liberdade forças para voltar a ser feliz. A reportagem do DIARIO conversou com o ex-detento, confira os detalhes da entrevista:
DIARIO DE PERNAMBUCO - Como o senhor enfrentou esses 19 anos de prisão?
Marcos Mariano da Silva - Foi muito duro provar que não era culpado. Lá na prisão todo preso se diz inocente. Procurava viver a minha vida, sem me envolver em confusões para me prejudicar ainda mais. Cheguei a pensar que iria morrer no xadrez, mas apesar das crises de depressão, nunca perdi a esperança de poder ficar livre de tudo isso. Tive vontade de me matar. Precisei ser muito forte. O maior prejuízo disso tudo foi ter ficado cego. Preferia ter perdido uma perna a ter ficado sem minha visão. Hoje, além de ser um homem fichado pela polícia, estou deficiente visual e sou um inválido.
DP - O senhor pretende pedir indenização ao Estado pelos danos físicos e morais ?
MMS - Sim. No próximo dia 30 tenho uma audiência marcada com o Secretário de Justiça, o doutor Roberto Franca. Já recebei a promessa de que irei receber uma casa da Cohab e serei aposentado pelo INSS. O Governo também prometeu que eu seria submetido a exames e depois eles tentariam fazer um transplante de córnea. Espero que as autoridades cumpram com o seu dever, já que a minha parte foi feita. Passei anos trancafiado. Perdi minha juventude, vivi pelo menos a metade da minha vida atrás das grades. Às vezes, penso que não vale a pena mais viver desse jeito.
DP - Como ficou o relacionamento do senhor com a sua família?
MMS - Quando fui preso pela primeira vez, estava casado com Domenice Vicente Arruda, uma jovem gaúcha, que conheci quando trabalhava como caminhoneiro. Domenice foi criada com toda regalia, por isso procurava dar sempre o melhor para ela. Fui casado com ela durante 11 anos. Com um ano e meio de dentenção, Domenice não suportou o sofrimento, e resolveu ir morar com as crianças na casa dos meus pais, em Aracaju. Não a culpo, nem guardo mágoas. Ela agiu de forma correta. Hoje, meus filhos estão bem. A mais velha reside no Rio Grande do Sul. O segundo, na Bahia, e o caçula continua em Aracaju. Com a minha ex-mulher tenho pouco contato. Sei apenas que ela mora em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul.
DP - Como o senhor está sobrevivendo atualmente?
MMS - Em 1990, conheci Lúcia Vicente Rodrigues, minha segunda mulher. Quando saí do presídio, fui para Paudalho, aluguei uma casinha e morei por lá algum tempo até o meu dinheiro se acabar. Fui despejado e hoje estou vivendo de favor na casa da minha sogra, no bairro da Várzea. Como não posso trabalhar, Lúcia é quem me ajuda. Ela trabalha como empregada doméstica e faz faxinas. Espero que minha situação seja regularizada logo, porque não sei se aguentarei viver por muito tempo dessa forma. Só Deus sabe o quanto padeço.
Enviado por luisnassif, qua, 23/11/2011 - 12:23
Comentário do post "Morre o homem que passou 19 anos preso injustamente"
Por almeid
Entrevista com o Sr Mariano, vítima do erro judiciário.
Do Diário de Pernarmbuco - 11/10/1998
Entrevista / Marco Mariano da Silva
Em 1976, o caminhoneiro Marco Mariano da Silva, conhecido como Montila, 50 anos, foi acusado de assassinar um homem no município do Cabo de Santo Agostinho. Ele permaneceu no Presídio Professor Aníbal Bruno durante quatro anos e, no final de 1980, a polícia descobriu o verdadeiro culpado do assassinato. Marco Mariano amargou esses anos na prisão até que seu caso fosse a julgamento. De volta ao convívio com a sociedade, Montila começou a trabalhar como taxista para sobreviver. Mas a liberdade de Marco Mariano durou pouco.
p>Na madrNa madrugada do dia 14 de fevereiro de 1985, ele estava parado com seu táxi, em frente à destilaria do Cabo, quando foi pego armado com um revólver calibre 38. O caminhoneiro acabou sendo levado para a delegacia de Capturas, onde ficou detido por alguns dias e terminou voltando para o Aníbal Bruno. Desta vez, uma declaração do juiz Aquino de Farias Reis, da comarca do Cabo de Santo Agostinho, complicou ainda mais a sua situação. Na época, o magistrado enviou um ofício comunicando que Marco Mariano da Silva estava em livramento condicional e respondia a inquérito policial.
Em 1987, Marco foi mais uma vez vítima do destino. Os presos do Aníbal seqüestraram o diretor do presídio, Kléber Amorim de Azevedo, e para conter a fúria dos detentos, os policiais jogaram várias bombas de gás. Uma delas atingiu Marco Mariano, que estava dentro da própria cela. Dois anos depois, o caminhoneiro perdeu a visão do olho esquerdo e em 95, ele ficou sem o outro olho. Completamente cego, Marco Mariano já não tinha mais esperanças para deixar o presídio com vida, mas no dia 25 de agosto desse ano, através do mutirão promovido pelo Tribunal de Justiça, ele foi posto em liberdade novamente.
Como não existia nenhum registro no cartório único da distribuição da comarca do Cabo de Santo Agostinho e pela 1ª Vara das Execuções Penais e por ter sido absolvido pelo Tribunal do Juri da primeira acusação, o desembargador Arthur Pio dos Santos concedeu alvará de soltura a Marcos Mariano da Silva. Hoje, apesar de não enxergar, Montila busca na liberdade forças para voltar a ser feliz. A reportagem do DIARIO conversou com o ex-detento, confira os detalhes da entrevista:
DIARIO DE PERNAMBUCO - Como o senhor enfrentou esses 19 anos de prisão?
Marcos Mariano da Silva - Foi muito duro provar que não era culpado. Lá na prisão todo preso se diz inocente. Procurava viver a minha vida, sem me envolver em confusões para me prejudicar ainda mais. Cheguei a pensar que iria morrer no xadrez, mas apesar das crises de depressão, nunca perdi a esperança de poder ficar livre de tudo isso. Tive vontade de me matar. Precisei ser muito forte. O maior prejuízo disso tudo foi ter ficado cego. Preferia ter perdido uma perna a ter ficado sem minha visão. Hoje, além de ser um homem fichado pela polícia, estou deficiente visual e sou um inválido.
DP - O senhor pretende pedir indenização ao Estado pelos danos físicos e morais ?
MMS - Sim. No próximo dia 30 tenho uma audiência marcada com o Secretário de Justiça, o doutor Roberto Franca. Já recebei a promessa de que irei receber uma casa da Cohab e serei aposentado pelo INSS. O Governo também prometeu que eu seria submetido a exames e depois eles tentariam fazer um transplante de córnea. Espero que as autoridades cumpram com o seu dever, já que a minha parte foi feita. Passei anos trancafiado. Perdi minha juventude, vivi pelo menos a metade da minha vida atrás das grades. Às vezes, penso que não vale a pena mais viver desse jeito.
DP - Como ficou o relacionamento do senhor com a sua família?
MMS - Quando fui preso pela primeira vez, estava casado com Domenice Vicente Arruda, uma jovem gaúcha, que conheci quando trabalhava como caminhoneiro. Domenice foi criada com toda regalia, por isso procurava dar sempre o melhor para ela. Fui casado com ela durante 11 anos. Com um ano e meio de dentenção, Domenice não suportou o sofrimento, e resolveu ir morar com as crianças na casa dos meus pais, em Aracaju. Não a culpo, nem guardo mágoas. Ela agiu de forma correta. Hoje, meus filhos estão bem. A mais velha reside no Rio Grande do Sul. O segundo, na Bahia, e o caçula continua em Aracaju. Com a minha ex-mulher tenho pouco contato. Sei apenas que ela mora em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul.
DP - Como o senhor está sobrevivendo atualmente?
MMS - Em 1990, conheci Lúcia Vicente Rodrigues, minha segunda mulher. Quando saí do presídio, fui para Paudalho, aluguei uma casinha e morei por lá algum tempo até o meu dinheiro se acabar. Fui despejado e hoje estou vivendo de favor na casa da minha sogra, no bairro da Várzea. Como não posso trabalhar, Lúcia é quem me ajuda. Ela trabalha como empregada doméstica e faz faxinas. Espero que minha situação seja regularizada logo, porque não sei se aguentarei viver por muito tempo dessa forma. Só Deus sabe o quanto padeço.
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