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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

.Bucci, serás eternamente responsável pelo que prefacias


Enviado por luisnassif, sex, 18/11/2011 - 14:35

Um dos melhores contos de Julio Cortazar é sobre a morte que ocorre em uma família argentina. Para não traumatizar a avó, finge-se que o fato não ocorreu. OP morto continua sendo tratado como vivo. Cria-se uma enorme fantasia, adaotam-se as conversas familiares a ela. Depois, morrem outros e a fantasia vai se alargando.



Prezado Eugênio Bucci,



há um cadáver na sala da CBN que não pode ser ignorado.



A CBN Manaus se transformou em um antro de pressões espúrias sobre a sociedade civil local. O dono da emissora e diretor de jornalismo ameaça pessoas, vale-se do poder que lhe foi conferido pela CBN nacional para constranger quem o processa, para invadir postos de saúde, pressionar Secretarias de governo a agir contra seus adversário.



Mariza Tavares esteve em Manaus, para lançamento do Manual de Jornalismo da CBN - a quem você dedicou prefácio tão entusiasmado. Indagada sobre as arbitrariedades da CBN Manaus, tirou o corpo. Disse que quem se sentir atingido, que recorra à Justiça. Em nenhum momento analisou os problemas da CBN Manaus à luz do seu próprio Manual.



Você mesmo se encantou com os padrões éticos da emissora, escreveu o prefácio do manual. Portanto, tornou-se eternamente responsável por tudo aquilo que prefacias.



Pergunto: como ignorar o cadáver que jaz na sala da CBN? Não dá para fingir de morto só para ignorar o cadáver.



É um bom tema esse. Tem-se os coronéis regionais, os esbirros autoritários. Em geral, apenas o poder central para garantir direitos individuais das províncias. E um desses poderes é a mídia central, do centro-sul, denunciando o que a mídia local não pode ou não quer fazer.



Mas quando a mídia nacional se alia ao coronel regional, confere-se salvo-conduto a todas suas arbitrariedades. Ele será poupado não apenas pela emissora mãe, mas por todo aparato midiático. Criam-se, então, dois tipos de cidadãos: os que estão protegidos, embaixo do guarda-chuva das grandes redes; e os que estão fora do guarda-chuva.



Já leu o livro "Coronelismo, enxada e voto"? Não lhe parece haver profunda semelhança do que ocorre nas relações CBN-CBN Manaus com o modelo descrito por Vitor Nunes Leal?



Que tal colocar sua pena brilhante para analisar esse tema?



Artigo de Eugenio Bucci, sobre o Manual de Jornalismo da CBN, de Mariza Tavares



Os ensinamentos contidos num manual



Aqui, enfim, chegamos ao valor deste manual. Esse valor não se restringe ao uso interno que ele terá. Ele será indispensável para todos os profissionais envolvidos direta ou indiretamente nas operações da CBN, é certo, mas car­rega também uma série de ensinamentos para o leitor leigo, interessado em jornalismo e em comunicação de forma geral. Esses ensinamentos, que são muitos, podem ser enumerados segundo vários critérios.



O primeiro deles talvez seja esse de que falamos há dois parágrafos: o modo inovador com que essa emissora jornalística lida com o desafio de inte­grar rádio e internet. A rede mundial de computadores não veio para derrubar o rádio, assim como não veio para sepultar a televisão ou o jornal. Em lugar disso, potencializa os alcances desses meios. É fato. Quanto a isso, seria perti­nente sublinhar que a internet não é propriamente um meio de comunicação, embora muitos a vejam como tal. Ela é, antes, uma nova esfera para a viabi­lização das relações humanas, quaisquer que sejam as formas e as vertentes dessas relações. A nova esfera (virtual ou digital) recobre as outras (físicas ou analógicas), franqueando uma ampliação de relações de consumo, relações de fiscalização política, relações de cobranças e pagamentos tributários, relações afetivas – e até mesmo as relações típicas da comunicação social. A internet não liquida, mas incorpora as formas convencionais de comunicação. Ela talvez apresse a aposentadoria do papel, é verdade, mas não acabará, como não aca­bou, com o texto escrito. Ela inclui a TV, cujo negócio, é bom lembrar, vem se ampliando em faturamento e em abrangência no mundo inteiro. Do mesmo modo, ela carrega o rádio.



O dado novo, portanto, é apenas um: fazer rádio, hoje, é fazê-lo também no site e nas redes sociais, com imagem e texto, além do som – e cada vez mais em diálogo com o público. Nessa matéria, a CBN já é sucesso. Também sobre isso, o presente manual é uma referência. Para o presente e para o futuro.



Outra parte dos segredos do êxito da CBN vem do passado, vem da me­lhor tradição da imprensa livre. A ética jornalística dá bem essa medida: com a sabedoria que herda da experiência, o jornalismo se capacita a desbravar o que há de desconhecido nos novos tempos. Este manual fala, em mais de uma passagem, no valor da independência jornalística, um cânone que data de quase dois séculos. A independência, segundo ensina este manual, deve ser observada em todos os campos do jornalismo, inclusive na cobertura de esportes, como o futebol, em que as fronteiras entre imprensa e a indústria da diversão vão se diluindo sem muita cerimônia. A CBN não investe na diluição. Cobra pos­tura crítica do jornalista. Prestigia o interesse público. Do mesmo modo, para reforçar o mesmo valor da independência, condena a prática de jornalistas que fazem campanhas publicitárias ou campanhas partidárias, pois entende que isso concorre para a corrosão da credibilidade. Assim, este manual também vem do passado. Preserva e torna mais viva a genealogia da reportagem independente, a única passível de confiança pública.



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