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quarta-feira, 22 de agosto de 2012


A cultura caipira como patrimônio

Por alfeu
Da Caros Amigos
Simpósio em Campinas discute o gênero e engrossa coro por proteção oficial

Por Amanda Cotrim
Especial para Caros Amigos

A Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas (SP) sedia o simpósio “Cultura Caipira - Identidade, história e patrimônio” dessa segunda (20) e até quarta-feira (22). O evento acontece durante as comemorações dos 70 anos da Faculdade de Ciências Sociais e História da universidade.

A iniciativa para a defesa da cultura regional não é um movimento recente, nem da esfera intelectual. Há quatro anos o sociólogo, advogado e autor do livro “Mazzaropi: Jeca do Brasil”, Glauco Barsalini, enviou uma carta pedindo o reconhecimento da cultura caipira como patrimônio imaterial ao Ministério da Cultura; paralelamente conseguiu reunir um grupo de pessoas comprometidas com a questão e, juntos, encaminharam a proposta de reconhecimento ao Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas (Condepacc). Posteriormente, o grupo descobriu que tal movimento já havia sido realizado em Piracicaba, e que há outro que visa o mesmo propósito em Presidente Prudente, no extremo Oeste paulista.Personalidades

Várias personalidades foram convidadas para o simpósio, entre elas Chitãozinho e Xororó e o presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que vai receber a solicitação para o reconhecimento da cultura caipira como patrimônio imaterial. Também devem estar presentes representantes da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephat) e do Condepacc. A semana seguirá com palestras, debates, oficinas artísticas e música.

Existir para Resistir

Para Barsalini, defender a cultura caipira como patrimônio imaterial é defender que a mesma subsiste, seja nas formas concretas de reprodução de vida de vários remanescentes que estão “espalhados” na região sudeste, centro-oeste e sul do Brasil, seja nas formas subjetivas e simbólicas, que ganham corpo nos códigos e signos artísticos e culturais disseminados nas grandes cidades, seja no plano da estética, pela música, seja pela dança, pela culinária. “Quero dizer, com isso, que mesmo na vida urbana se pode perceber elementos caracteristicamente rurais - caipiras – presentes”. Um exemplo citado por ele é a dupla Chitãozinho e Xororó, que apesar da indústria cultural e de todo o aparato moderno, ainda preserva “sinais” da cultura caipira, como modo de vida: “O Xororó come macarrão com feijão”, justificou.

Para o jornalista, geógrafo, escritor e pesquisador da cultura regional Mouzar Benedito, com o reconhecimento da cultura caipira novos caminhos serão abertos, como o ensinamento no currículo escolar; o reconhecimento da escola- pois a mesma sempre a colocou como inferior-, valorizando a língua que não é culta; verba para estudos sobre o tema, além da valorização, ou seja, para ele, o caipira terá orgulho de ser o que é. Benedito conta que em São Luiz do Paraitinga, a população ficava ofendida quando diziam que a cidade era o reduto da cultura caipira. No entanto, o olhar dos habitantes mudou quando aconteceu o Seminário para discutir com a população sobre a cultura regional, promovido pela Sociedade dos Observadores do Saci. “Um professor rural saiu do Seminário com orgulho de ser caipira”, conta entusiasmado.

Um dos motivos para que a população remanescente da cultura do interior sofra desagregação, segundo Glauco, são as formas de exploração criadas pelo sistema capitalista, como o processo de desenvolvimento econômico e “diante da sanha do capital imobiliário”, alegou. “O reconhecimento da cultura caipira como patrimônio imaterial do Estado de São Paulo e do Brasil certamente contribuirá na salvaguarda dessas populações”. Outro ponto de contribuição, segundo o autor, será na mudança de mentalidade de novas gerações. Para ele, elas passarão a enxerga-lá com outros olhos; um olhar de respeito. “A consciência sobre a nossa própria história e o primeiro passo para a conquista da cidadania”, acredita.

O Passado Presente

O complexo de ser caipira surgiu, segundo Benedito, lá nos primórdios da colonização brasileira. Os jesuítas criaram uma língua escrita e falada – o nheengatu - para facilitar a comunicação com os índios, que em sua maioria falava tupi. A elite branca, desde então, sempre subestimou esse “falar diferente” e gerou a sensação de que a cultura caipira era menor. O caboclo passou a ser visto como indolente, e a contribuição disso, segundo Benedito, foi dada pelo escritor Monteiro Lobato que “estigmatizou o caipira e depois se redimiu”.

Uma das características do nheengatu, lembra o jornalista, é que o “faze”, “fala” não tem o R no final. “Isso é coisa do tupi, que também não tinha o L e nem o LH. Por isso o caipira fala “muié”. Além do nheengatu (língua falada na cidade de São Gabriel da Cachoeira, à margem do Rio Negro, no Amazonas), foi oficializada mais duas línguas do município: Baniwa e Tukano. “Se você é de São Gabriel e for ao banco, alguém tem que te atender em tukano, por exemplo”, explica.

Outra característica do caipira é a religiosidade, que, de acordo com Benedito, é ampla, pois ao mesmo tempo em que ele é católico, incorporou elementos do Tupi. “O saci foi criado para dar adrenalina a própria vida pacata do caipira”, relembra.

Onde Encontramos a Cultura Caipira

Segundo o sociólogo, a cultura caipira é típica da região Sudeste, Paraná e Goiás, e em alguns casos com elementos culturais de outros grupos, como o caiçara do litoral paulista. O autor do livro sobre Mazzaropi defende que sinais da cultura caipira estão presentes no interior e nas periferias das pequenas cidades.

á nas grandes cidades, ele justifica que é o desejo, presente em todas as classes sociais, de consumir “coisas” que expressam de alguma forma o universo caipira, ainda que a forma, e boa parte do conteúdo, esteja distante, como por exemplo o 'sertanejo universitário'. “Talvez o Brasil seja, tanto quanto ou mais que o país do carnaval, o país do interior, o país caipira, sertanejo, caboclo. O carnaval acontece por quatro dias do ano - em alguns estados, manifestações que a ele se assemelham, ocorrem por outros dias do ano também. Mas, não nos esqueçamos de que a festa caipira, a festa junina - e aqui podemos falar também da festa sertaneja junina tipicamente nordestina - dura ao menos dois meses (junho e julho), sem falarmos dos rodeios de peão de boiadeiro que, misturando o country com a cultura do interior brasileiro, são já rotineiras nas pequenas e médias cidades brasileiras”, explica.

No entanto, para o jornalista Mouzar Benedito, o que as pessoas chamam de sertanejo universitário, hoje em dia, ele classifica como “cultura suburbana”: “O caipira perdeu a cultura regional, foi para a cidade, para a periferia e não se encontrou. Ficou sem cultura nenhuma”, justificando que esse novo 'estilo' musical seria essa manifestação do paradoxo. “O Chitãozinho e Xororó já não fazem mais música caipira. O que eles mantém é a viola, então a forma permanece parecida. O que muda é o conteúdo dessas músicas, que deixou de ser caipira”, opina.

A cidade de Campinas, sede do Simpósio, é cenário de diversos eventos da cultura popular - a festa de Santana, com procissão e quermesse no distrito de Sousas; Festa do Boi Falô, lenda surgida e cultuada no distrito de Barão Geraldo; o centro de cultura que pesquisa teatro de mamulengo ou a tradicional lavagem das escadarias da Catedral Metropolitana, entre outras. 

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