A trajetória da revista Senhor
Enviado por luisnassif, ter, 21/08/2012 - 13:42
Por Marco Antonio L.
Do Valor
Por Matías M. Molina
Primeira edição, março de 1959: uma revista para homens, mas também para as mulheres conhecerem melhor os homens
Depois que "Senhor", a revista mais ambiciosa e sofisticada de sua época, deixou de circular em 1964, tornou-se um lugar comum dizer que fora lançada antes de seu tempo e que o Brasil não estava preparado para uma publicação tão avançada. É possível, porém, que nem naquela época nem posteriormente uma revista mensal com o requinte e o cuidado gráfico - além da excelência do conteúdo - da "Senhor" fosse economicamente viável no longo prazo. Seu lançamento se deveu à iniciativa de um mecenas, mas sua subsistência no longo prazo dependia de outros mecenas que a subsidiassem de maneira desinteressada. E esses mecenas não apareceram.
É certo que outras revistas mensais foram lançadas posteriormente e tiveram êxito. Mas não tiveram a mesma ambição. "Realidade" foi uma delas. Vendia centenas de milhares de exemplares por mês - muito além do que sonhara a Editora Abril, que a lançou. Mas se tratava de uma revista com foco diferente. Enquanto "Senhor" era uma publicação atemporal, com ênfase na literatura e pouca preocupação com os acontecimentos imediatos, "Realidade" dava ênfase a reportagens sobre temas do momento.
A "Piauí" segue mais de perto o modelo da "Senhor", na qual parece ter se inspirado parcialmente, sobretudo no cuidado com o texto, no humor e leveza que permeiam suas páginas e na criatividade das capas. Mas são publicações bem diferentes. "Piauí" não apenas optou por uma apresentação gráfica muito mais sóbria, até o ponto da austeridade, com um papel que parece emprestado por um jornal, como editorialmente priorizou as reportagens de assuntos atuais, embora não falte ficção de bom nível. Outra diferença é o elevado número de anúncios, em comparação com a "Senhor". O êxito da "Piauí" sugere que uma revista mensal de qualidade para uma minoria, desde que muito austera, pode ser viável - com a ajuda discreta de um mecenas.
Houve também uma tentativa, ainda em 1964, de lançar uma publicação sofisticada para o mesmo público da "Senhor", a revista "Finesse", mas durou pouco tempo. No ano seguinte, Paulo Francis renovou a revista do Diner's como uma "míni-Senhor", também de vida efêmera. Uma nova publicação foi lançada na década de 1980, pela Editora Três, com o nome de "Senhor". Era semanal e tinha a britânica "The Economist" como modelo, sem nada que lembrasse a "Senhor" original, além do nome.
A primeira "Senhor" circulou durante cinco anos, de 1959 a 1964. Seu fechamento foi lamentado por grande número de leitores fiéis e tornou-se objeto de veneração para as gerações seguintes, resultado, talvez, de uma tradição oral, pois dificilmente tiveram algum contato com a revista. As raras coleções alcançam nos leilões "preços inacreditáveis", segundo um antigo colaborador.
Uma seleção do conteúdo da revista, "O Melhor da Senhor", foi lançada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. É uma edição bem editada, bem cuidada e bem impressa. A concepção e coordenação são de Maria Amélia Mello e a organização, de Ruy Castro. O exemplar é acompanhado de uma publicação explicativa, "Uma Senhora Revista", que mostra como era e foi feita a "Senhor". É provável que os 2 mil exemplares impressos sejam insuficientes para atender a demanda.
Maria Amélia Mello escreve que, à procura dos 59 exemplares da revista, peregrinou em vão pelos sebos durante anos a fio. Com uma persistência de décadas e a ajuda de amigos, conseguiu completar uma coleção, que, segundo ela, pouca gente tem e que não se encontra em nenhuma instituição.
A ideia da "Senhor" surgiu no fim de 1958. Nahum Sirotsky, que perdera o emprego de editor-chefe da "Manchete", pensava em lançar, junto com Alberto Dines, uma revista semanal na linha da americana "US News & World Report". Conversou com Simão Waissman, da Editora Delta Larousse, que pretendia publicar "a mais interessante revista brasileira de todos os tempos". Queria prestígio. Precisava impressionar os franceses da Larousse. Sirotsky, com a ajuda dos pintores Carlos Scliar e Glauco Rodrigues, apresentou a Waissman o projeto de uma revista mensal.
Era uma publicação pouco definida. O projeto se inspirava na "Esquire", "The New Yorker", "Fortune", "Playboy" e até na francesa "Realités". Feita para o homem urbano, queria também fisgar a mulher. Cuidaria de cultura, política, economia, entretenimento, serviços, comportamento social. Dava ênfase à literatura, publicando uma novela completa e um ou dois contos, e à arte, com obras e ilustrações originais. Prometia ensaios fotográficos de belas mulheres sensuais, quase sempre vestidas, e um tom coloquial, intimista, sério mas bem-humorado. Uma revista sem ideologia, que respeitasse a de seus colaboradores - de Carlos Lacerda e Roberto Campos a Francisco Julião -, escolhidos pelo talento, e que dava mais importância aos ensaios que às reportagens. E de uma excepcional qualidade gráfica. O projeto refletia o otimismo do momento, o acelerado crescimento da economia, a euforia da industrialização, da construção de Brasília, dos "50 anos em 5" prometidos pelo presidente Juscelino Kubitschek. Foi aprovado.
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