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As crises do capitalismo, por Mário Soares
Enviado por luisnassif, qui, 05/04/2012 - 12:43
Por Paulo F.
Do Diário de Notícias de Lisboa
As crises do capitalismo
por MÁRIO SOARES 03 Abril 2012
1 A Visão História, do último fim de semana, dedicou todo o seu número "Às crises do capitalismo". É um texto com várias colaborações, muito interessante e instrutivo, que vai desde o começo da Revolução Industrial, que se iniciou em Inglaterra, e que passou depois pela teoria de Karl Marx e do seu amigo Friedrich Engels, que marcou o século dezanove e parte do vinte.
p>Claro que o capitalismo, tal como o definiu Marx, criou vários movimentos que o antagonizaram, como o "socialismo" que Lenine criou na Rússia, no pós-guerra de 1914-18, precisamente em 1917, um regime socialista totalitário, como o definiu, anos depois, a grande filósofa judia alemã, Hannah Arendt. Antes dela, bastante antes, o grande Léon Blum, político francês e fundador do Front Populaire, tinha criado o socialismo democrático do (SFIO), opondo- -se frontalmente ao comunismo soviético.
Em 1936, no começo da Guerra de Espanha, tão inutilmente violenta, o professor da Universidade de Cambridge Lord Keynes publicou o seu célebre livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (que tenho traduzido em francês pela editora Payot). Foi Keynes que levou o presidente Franklin Roosevelt a implantar na América do Norte o célebre "new deal", que levou a América a ultrapassar a crise de 1929 - e a que se lhe seguiu - e a ter podido valer ao Reino Unido, no momento mais crítico da II Grande Guerra, e, finalmente, com o Plano Marshall, a salvar a Europa das devastações da guerra.
Durante o período que vai entre 1945, fim da II Guerra Mundial, e o momento atual houve várias crises do capitalismo, umas mais graves do que outras, e foram sendo progressivamente vencidas. Mas nunca conduziram ao comunismo, como alguns, nesse tempo, supunham. Estamos agora a viver, no meu entender, a mais grave de todas, que surgiu após o colapso do comunismo. Porquê? Porque o capitalismo mudou muito, e o mundo também. A globalização desregulada está a transformar tudo, sem critério. A relação de forças entre os diferentes Estados também, sobretudo os emergentes. O capitalismo está a perder a cabeça, como disse Stiglitz e hoje não tem já as suas bases éticas e protestantes. Deixou de obedecer a valores. O único valor é o dinheiro, e passou à frente de tudo. Os Estados estão subordinados aos mercados, em vez de ser o contrário. A economia deixou de ser real e passou a ser virtual graças aos paraísos fiscais. Os dirigentes políticos, aceitam, sem reserva, as avaliações das agências de rating e temem-nas quando lhes fazem críticas...
A ideologia dominante hoje nos Estados da Zona Euro é o neoliberalista. São os partidos populares, ultraconservadores, sem ideais, para além dos interesses próprios, que dominam a União Europeia. Se há muito desemprego - cada vez mais -, se as pessoas morrem por falta de cuidados de saúde ou mesmo à fome, os dirigentes neoliberais encolhem os ombros e pensam, para eles: "Pois que morram, é a seleção natural..." O que representa um recuo civilizacional tremendo.
Assim vai o mundo, cada vez a piorar. Um mundo que é urgente mudar, senão caminhamos para a destruição de tudo o que conquistamos na Europa, desde os anos cinquenta/sessenta: a paz; o respeito pelo trabalho e pelos trabalhadores; as pensões para os idosos e os doentes, os serviços nacionais de Saúde, a degeneração da democracia, em lugar do seu aprofundamento...
2 Um tratado que os socialistas não podem ratificar No início de março, numa daquelas cimeiras europeias, que não serviram nem servem para nada, a chanceler Merkel e o Presidente Sarkozy, quando já todos os intervenientes davam sinais de cansaço, resolveram apresentar um texto à sua consideração, intitulado "Tratado para a Estabilidade, Coordenação e Governação da União Económica e Monetária". Os líderes europeus presentes aprovaram-no, com as exceções do Reino Unido e da República Checa, como os leitores se devem lembrar. Pouca gente terá lido o texto que deve ser agora ratificado pelos Parlamentos nacionais.
Entretanto, foi rejeitado - o que pela primeira vez aconteceu - pela Confederação Europeia dos Sindicatos. O que é muito significativo. Na verdade, o texto do dito tratado prejudica a alternância política da União e contradiz textos estruturantes da construção europeia. Inviabiliza, por exemplo, a Europa social e os Estados sociais de cada um dos Estados membros. Não passou pelo Parlamento Europeu, como devia. Falta tão-só que seja ratificado pelos Parlamentos nacionais, o que poderá ocorrer entre 13 e 14 do corrente mês. Uma vergonha!
O deputado socialista João Galamba, que segue à lupa estas questões, de que é especialista, foi quem chamou a minha atenção para o perigo em que incorrem os Estados nacionais se vierem a ratificar o tratado. Não o devem fazer. Inclusivamente dada a circunstância de pôr em causa a separação dos poderes - teoria vigente desde Montesquieu -, dado que o tratado confunde a soberania orçamental com a judicial.
Há rumores de que o Governo português quer que o nosso Parlamento ratifique, quanto antes, o tratado para continuar a ser "o melhor aluno da senhora Merkel". Espero que reflita e arrepie caminho, para bem dos portugueses mais desfavorecidos - trabalhadores e desempregados -, que são quem mais necessita, como pão para a boca, que não se destrua o Estado social, bem como a classe média, em vias de rápido empobrecimento.
François Hollande e os sociais--democratas alemães já disseram que é indispensável não ratificar o tratado. É óbvio que os partidos socialistas europeus devem seguir o seu exemplo.
3 As freguesias manifestam-se O nosso Governo, legítimo, porque resultou do voto popular, está a isolar-se cada vez mais do povo. Não só por causa da crise e das medidas impopularíssimas que tem vindo a tomar - dos cortes que quase só atingem os trabalhadores mais pobres, os desempregados, os precários e boa parte da classe média -, mas porque não dialoga com os portugueses, não explica as medidas que toma, avança e recua em silêncio sobre medidas tomadas, e as pessoas não compreendem, por mais que o desejem, qual é a estratégia do Governo para vencer a crise. A austeridade, por si só, não leva com certeza a nenhum lugar.
Os portugueses começam a ter a sensação de que quem manda é a troika e que Portugal é um verdadeiro protetorado comandado, não pelo Governo legítimo mas pelo exterior. Não há patriotismo que resista a uma tal situação.
No sábado passado, a "leizinha", como lhe chamou António José Seguro, quando foi anunciada pelo ministro Relvas, sem ouvir, como seria natural, os principais interessados, teve uma reação unânime das freguesias portuguesas. De norte a sul, desfilaram, em sinal de protesto, pelo centro de Lisboa. Foi uma manifestação pacífica, folclórica e alegre, em favor da entidade histórica - cada uma com o seu património cultural - das tão enraizadas freguesias que cobrem Portugal e dão coesão ao povo português.
Como é que o Governo não compreendeu a impopularidade da lei que anunciou, depois de ter recuado, por razões políticas que estavam à vista, da ideia peregrina de unir os municípios, para que as Finanças reunissem mais fundos? É caso para dizer que a obsessão dos cortes ordenados pela troika faz esquecer ao Governo a necessidade de defender a nossa identidade nacional e a coesão entre os portugueses. Num momento de crise - em que o desemprego e a criminalidade crescem -, é particularmente importante evitar o mal-estar e o pessimismo profundo que invadem os portugueses: assim não vamos longe, infelizmente.
4 Skapinakis, presentee passado (1950 e 2012)Tive a honra de assistir à abertura da grande exposição retrospetiva de Nikias Skapinakis, português dos sete costados, nascido em Portugal e filho de grego e mãe portuguesa, que teve lugar no CCB, na área ocupada pelo Museu Berardo.
Conheci e tornei-me amigo de Skapinakis e fui frequentador do seu atelier (que chegou a ser também um centro de conspiração antissalazarista) no princípio dos anos cinquenta, quando começava, com grande vigor, a sua vida de pintor. Mas hesitava entre ser pintor e conspirador antifascista. Foi isso, de resto, que o levou à prisão do Aljube, tão minha conhecida, numa cela em que se via o Tejo, por entre as grades. Nikias fez vários desenhos e guaches, com o Tejo ao fundo. Quando saiu em liberdade, ofereceu-me um desses desenhos, a tinta da China, onde escreveu: "Para o Mário Soares, mau tempo no canal - com a esperança na melhoria meteorológica e um abraço do Nikias." Depois enveredou, definitivamente, pela pintura, tornando--se com o tempo um excecional pintor. As salas enormes do Museu Berardo estão cheias de quadros e grandes murais que cobrem todo esse tempo. Com uma magia da cor e das formas, verdadeiramente surpreendente de beleza. Mas tem também os retratos: como o de Almada Negreiros, uma obra-prima, ou de três amigos comuns (desaparecidos), João Cochofel, Joel Serrão e Augusto Abelaira, e os de Natália Correia, que lembro bem.
A exposição é enorme e vale muito a pena visitá-la, com vagar, o que eu, infelizmente, não pude fazer. Mas irei vê-la de novo. Tem um excelente catálogo, lindíssimo, como uma introdução de Nikias, um texto excelente da professora Raquel Henriques da Silva e outro de António Rodrigues sobre "a pintura mirabolante". Vale a pena ver esta magnífica exposição, comprar o catálogo e lê-lo, porque inclui o passado e o presente da obra de Nikias, ou seja: sessenta e dois anos de pintura, desenho e grandes murais. A não perder.
5 Dois falecimentos que me comoveramNa mesma semana tive as comoventes notícias do falecimento, para mim inesperado, de dois excelentes escritores, ambos muito amigos e admirados por mim: António Tabucchi, luso-italiano, reputado académico e autor consagrado internacionalmente de grandes romances, que não tolerava Berlusconi e o mal que fez à sua Itália; e também Millôr Fernandes, humorista brasileiro, desenhista, dramaturgo, escritor e amigo de Portugal, que conheci pela mão do nosso comum amigo Aparecido de Oliveira.
Ambos leram e admiraram Fernando Pessoa, sobretudo, Tabucchi, que, casado com uma ilustre académica portuguesa, Maria José Lancastre, foi quem deu a conhecer Pessoa a seu marido, que depois se tornou um dos grandes divulgadores de Pessoa no mundo. Millôr Fernandes, jornalista e humorista brasileiro, foi igualmente um admirador de Pessoa.
O desaparecimento de ambos, na mesma semana, comoveu-me muito, dada a admiração e amizade que tinha por eles. Mas permanecerão na minha memória e na dos seus múltiplos leitores.
Do Diário de Notícias de Lisboa
As crises do capitalismo
por MÁRIO SOARES 03 Abril 2012
1 A Visão História, do último fim de semana, dedicou todo o seu número "Às crises do capitalismo". É um texto com várias colaborações, muito interessante e instrutivo, que vai desde o começo da Revolução Industrial, que se iniciou em Inglaterra, e que passou depois pela teoria de Karl Marx e do seu amigo Friedrich Engels, que marcou o século dezanove e parte do vinte.
p>Claro que o capitalismo, tal como o definiu Marx, criou vários movimentos que o antagonizaram, como o "socialismo" que Lenine criou na Rússia, no pós-guerra de 1914-18, precisamente em 1917, um regime socialista totalitário, como o definiu, anos depois, a grande filósofa judia alemã, Hannah Arendt. Antes dela, bastante antes, o grande Léon Blum, político francês e fundador do Front Populaire, tinha criado o socialismo democrático do (SFIO), opondo- -se frontalmente ao comunismo soviético.
Em 1936, no começo da Guerra de Espanha, tão inutilmente violenta, o professor da Universidade de Cambridge Lord Keynes publicou o seu célebre livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (que tenho traduzido em francês pela editora Payot). Foi Keynes que levou o presidente Franklin Roosevelt a implantar na América do Norte o célebre "new deal", que levou a América a ultrapassar a crise de 1929 - e a que se lhe seguiu - e a ter podido valer ao Reino Unido, no momento mais crítico da II Grande Guerra, e, finalmente, com o Plano Marshall, a salvar a Europa das devastações da guerra.
Durante o período que vai entre 1945, fim da II Guerra Mundial, e o momento atual houve várias crises do capitalismo, umas mais graves do que outras, e foram sendo progressivamente vencidas. Mas nunca conduziram ao comunismo, como alguns, nesse tempo, supunham. Estamos agora a viver, no meu entender, a mais grave de todas, que surgiu após o colapso do comunismo. Porquê? Porque o capitalismo mudou muito, e o mundo também. A globalização desregulada está a transformar tudo, sem critério. A relação de forças entre os diferentes Estados também, sobretudo os emergentes. O capitalismo está a perder a cabeça, como disse Stiglitz e hoje não tem já as suas bases éticas e protestantes. Deixou de obedecer a valores. O único valor é o dinheiro, e passou à frente de tudo. Os Estados estão subordinados aos mercados, em vez de ser o contrário. A economia deixou de ser real e passou a ser virtual graças aos paraísos fiscais. Os dirigentes políticos, aceitam, sem reserva, as avaliações das agências de rating e temem-nas quando lhes fazem críticas...
A ideologia dominante hoje nos Estados da Zona Euro é o neoliberalista. São os partidos populares, ultraconservadores, sem ideais, para além dos interesses próprios, que dominam a União Europeia. Se há muito desemprego - cada vez mais -, se as pessoas morrem por falta de cuidados de saúde ou mesmo à fome, os dirigentes neoliberais encolhem os ombros e pensam, para eles: "Pois que morram, é a seleção natural..." O que representa um recuo civilizacional tremendo.
Assim vai o mundo, cada vez a piorar. Um mundo que é urgente mudar, senão caminhamos para a destruição de tudo o que conquistamos na Europa, desde os anos cinquenta/sessenta: a paz; o respeito pelo trabalho e pelos trabalhadores; as pensões para os idosos e os doentes, os serviços nacionais de Saúde, a degeneração da democracia, em lugar do seu aprofundamento...
2 Um tratado que os socialistas não podem ratificar No início de março, numa daquelas cimeiras europeias, que não serviram nem servem para nada, a chanceler Merkel e o Presidente Sarkozy, quando já todos os intervenientes davam sinais de cansaço, resolveram apresentar um texto à sua consideração, intitulado "Tratado para a Estabilidade, Coordenação e Governação da União Económica e Monetária". Os líderes europeus presentes aprovaram-no, com as exceções do Reino Unido e da República Checa, como os leitores se devem lembrar. Pouca gente terá lido o texto que deve ser agora ratificado pelos Parlamentos nacionais.
Entretanto, foi rejeitado - o que pela primeira vez aconteceu - pela Confederação Europeia dos Sindicatos. O que é muito significativo. Na verdade, o texto do dito tratado prejudica a alternância política da União e contradiz textos estruturantes da construção europeia. Inviabiliza, por exemplo, a Europa social e os Estados sociais de cada um dos Estados membros. Não passou pelo Parlamento Europeu, como devia. Falta tão-só que seja ratificado pelos Parlamentos nacionais, o que poderá ocorrer entre 13 e 14 do corrente mês. Uma vergonha!
O deputado socialista João Galamba, que segue à lupa estas questões, de que é especialista, foi quem chamou a minha atenção para o perigo em que incorrem os Estados nacionais se vierem a ratificar o tratado. Não o devem fazer. Inclusivamente dada a circunstância de pôr em causa a separação dos poderes - teoria vigente desde Montesquieu -, dado que o tratado confunde a soberania orçamental com a judicial.
Há rumores de que o Governo português quer que o nosso Parlamento ratifique, quanto antes, o tratado para continuar a ser "o melhor aluno da senhora Merkel". Espero que reflita e arrepie caminho, para bem dos portugueses mais desfavorecidos - trabalhadores e desempregados -, que são quem mais necessita, como pão para a boca, que não se destrua o Estado social, bem como a classe média, em vias de rápido empobrecimento.
François Hollande e os sociais--democratas alemães já disseram que é indispensável não ratificar o tratado. É óbvio que os partidos socialistas europeus devem seguir o seu exemplo.
3 As freguesias manifestam-se O nosso Governo, legítimo, porque resultou do voto popular, está a isolar-se cada vez mais do povo. Não só por causa da crise e das medidas impopularíssimas que tem vindo a tomar - dos cortes que quase só atingem os trabalhadores mais pobres, os desempregados, os precários e boa parte da classe média -, mas porque não dialoga com os portugueses, não explica as medidas que toma, avança e recua em silêncio sobre medidas tomadas, e as pessoas não compreendem, por mais que o desejem, qual é a estratégia do Governo para vencer a crise. A austeridade, por si só, não leva com certeza a nenhum lugar.
Os portugueses começam a ter a sensação de que quem manda é a troika e que Portugal é um verdadeiro protetorado comandado, não pelo Governo legítimo mas pelo exterior. Não há patriotismo que resista a uma tal situação.
No sábado passado, a "leizinha", como lhe chamou António José Seguro, quando foi anunciada pelo ministro Relvas, sem ouvir, como seria natural, os principais interessados, teve uma reação unânime das freguesias portuguesas. De norte a sul, desfilaram, em sinal de protesto, pelo centro de Lisboa. Foi uma manifestação pacífica, folclórica e alegre, em favor da entidade histórica - cada uma com o seu património cultural - das tão enraizadas freguesias que cobrem Portugal e dão coesão ao povo português.
Como é que o Governo não compreendeu a impopularidade da lei que anunciou, depois de ter recuado, por razões políticas que estavam à vista, da ideia peregrina de unir os municípios, para que as Finanças reunissem mais fundos? É caso para dizer que a obsessão dos cortes ordenados pela troika faz esquecer ao Governo a necessidade de defender a nossa identidade nacional e a coesão entre os portugueses. Num momento de crise - em que o desemprego e a criminalidade crescem -, é particularmente importante evitar o mal-estar e o pessimismo profundo que invadem os portugueses: assim não vamos longe, infelizmente.
4 Skapinakis, presentee passado (1950 e 2012)Tive a honra de assistir à abertura da grande exposição retrospetiva de Nikias Skapinakis, português dos sete costados, nascido em Portugal e filho de grego e mãe portuguesa, que teve lugar no CCB, na área ocupada pelo Museu Berardo.
Conheci e tornei-me amigo de Skapinakis e fui frequentador do seu atelier (que chegou a ser também um centro de conspiração antissalazarista) no princípio dos anos cinquenta, quando começava, com grande vigor, a sua vida de pintor. Mas hesitava entre ser pintor e conspirador antifascista. Foi isso, de resto, que o levou à prisão do Aljube, tão minha conhecida, numa cela em que se via o Tejo, por entre as grades. Nikias fez vários desenhos e guaches, com o Tejo ao fundo. Quando saiu em liberdade, ofereceu-me um desses desenhos, a tinta da China, onde escreveu: "Para o Mário Soares, mau tempo no canal - com a esperança na melhoria meteorológica e um abraço do Nikias." Depois enveredou, definitivamente, pela pintura, tornando--se com o tempo um excecional pintor. As salas enormes do Museu Berardo estão cheias de quadros e grandes murais que cobrem todo esse tempo. Com uma magia da cor e das formas, verdadeiramente surpreendente de beleza. Mas tem também os retratos: como o de Almada Negreiros, uma obra-prima, ou de três amigos comuns (desaparecidos), João Cochofel, Joel Serrão e Augusto Abelaira, e os de Natália Correia, que lembro bem.
A exposição é enorme e vale muito a pena visitá-la, com vagar, o que eu, infelizmente, não pude fazer. Mas irei vê-la de novo. Tem um excelente catálogo, lindíssimo, como uma introdução de Nikias, um texto excelente da professora Raquel Henriques da Silva e outro de António Rodrigues sobre "a pintura mirabolante". Vale a pena ver esta magnífica exposição, comprar o catálogo e lê-lo, porque inclui o passado e o presente da obra de Nikias, ou seja: sessenta e dois anos de pintura, desenho e grandes murais. A não perder.
5 Dois falecimentos que me comoveramNa mesma semana tive as comoventes notícias do falecimento, para mim inesperado, de dois excelentes escritores, ambos muito amigos e admirados por mim: António Tabucchi, luso-italiano, reputado académico e autor consagrado internacionalmente de grandes romances, que não tolerava Berlusconi e o mal que fez à sua Itália; e também Millôr Fernandes, humorista brasileiro, desenhista, dramaturgo, escritor e amigo de Portugal, que conheci pela mão do nosso comum amigo Aparecido de Oliveira.
Ambos leram e admiraram Fernando Pessoa, sobretudo, Tabucchi, que, casado com uma ilustre académica portuguesa, Maria José Lancastre, foi quem deu a conhecer Pessoa a seu marido, que depois se tornou um dos grandes divulgadores de Pessoa no mundo. Millôr Fernandes, jornalista e humorista brasileiro, foi igualmente um admirador de Pessoa.
O desaparecimento de ambos, na mesma semana, comoveu-me muito, dada a admiração e amizade que tinha por eles. Mas permanecerão na minha memória e na dos seus múltiplos leitores.
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