Sobre a corrupção, por Tarso Genro
Enviado por luisnassif, ter, 24/04/2012 - 12:25
Por Webster
Franklin
Sobre a corrupção
A instalação da CPI sobre a possível rede criminosa do contraventor Cachoeira abre uma extraordinária oportunidade de investigar a fundo, não só um caso concreto, mas os métodos, a cultura, a simbiose entre o sistema político, o Estado e as organizações criminosas politizadas. Estas não só interferem na pauta administrativa dos governos, mas também na pauta política dos partidos e podem mancomunar-se com órgãos de imprensa para transitar interessses econômicos e políticos. O artigo é de Tarso Genro.
p class="headline-link">Tarso Genro
Ao contrário do que torcem - e em parte patrocinam
significativos setores da mídia - não está se abrindo uma crise com a instalação
da CPI sobre a possível rede criminosa do contraventor Cachoeira. Abre-se, sim,
uma extraordinária oportunidade de investigar a fundo, não só um caso concreto,
mas os métodos, a cultura, a simbiose (às vezes espontânea e no mais das vezes
deliberada), entre o sistema político, o Estado e as organizações criminosas
politizadas. Estas, como já está provado, não só interferem na pauta
administrativa dos governos, mas também na pauta política dos partidos e podem
mancomunar-se com órgãos de imprensa para transitar, ou interesses de grupos
econômicos -criminosos ou não- ou interesses dos diferentes partidos aos quais
estes órgão são simpáticos.
Para que esta oportunidade seja aproveitada é necessário, porém,
que a CPI tenha a predominância de parlamentares que não tenham medo. Não tenham
medo de que o seu passado seja revelado - um passado complicado fragilizaria o
resultado da CPI -, não tenham medo de ser achincalhados pela imprensa, pois à
medida que contrariarem os interesses que ela defende serão ridicularizados por
algum motivo ou atacados na sua honradez. Não tenham medo, sobretudo, de
encontrar algum resíduo de envolvimento seu, na teia de interesses, manipulada
pelo grupo ora apontado como criminoso.
Uma parte da esquerda, na defensiva em função do cerco a que foi
submetida principalmente no primeiro governo do Presidente Lula, convenceu-se
que as denúncias feitas pela imprensa não passavam de montagens para nos
desgastar. Ora, é razoável supor que muitas denúncias são forjadas (em função de
brigas entre empreiteiras, por exemplo, ou para desmoralizar lideranças que são
importantes para os governos), mas tomar as denúncias como produto de uma
conspiração é errado. É deixar de lado que o estado brasileiro, historicamente
cartorial, bacharelesco, barroco nos seus procedimentos e forjado sob o
patrocínio do nosso liberalismo pouco republicano, tem um sistema
político-eleitoral e partidário, totalmente estimulante aos desvios de conduta e
às condutas que propiciam a corrupção.
O uso que a mídia faz dos eventos de corrupção, para tentar
destruir o PT e a esquerda é, na verdade, um elemento da luta política por
projetos diferentes de estado e de democracia. São diferentes concepções de
republicanismo que estão em jogo, entre um republicanismo elitista e
“globalizado” pelo capital financeiro e um republicanismo plebeu, participativo
e aberto aos movimentos dos “de baixo”. Este, considera urgente a redução das
desigualdades sociais e regionais, mesmo que isso se choque contra as receitas
dos FMI e do Banco Central Europeu: um republicanismo do Consenso de Washington
e um republicanismo do anti-Consenso de Washington, é o que está em jogo.
O fato, porém, da corrupção ser “usada” pela mídia, nas suas
campanhas anti-esquerda, não quer dizer que ela não exista, inclusive no nosso
meio. Então, o que se trata, não é de "amaciar" os fatos, mas de disputar o seu
“uso” - o tratamento político dos fatos - para fortalecer uma das duas
principais concepções de República que caracterizam o grande embate político
nacional na atualidade. O “aceite” deste embate político tem um terreno fértil
na CPI, em instalação, e a esquerda brasileira poderá agora, se tiver uma
estratégia unitária adequada, amalgamar um conjunto de forças em torno dos seus
propósitos republicanos e democráticos.
A atual CPI, ao que tudo indica, vai se debruçar sobre um
sofisticado sistema duplamente criminoso: ele promove diretamente, de um lado, a
apropriação de recursos públicos para fruição de grupos privados criminosos
(através da corrupção) e, de outra parte, promove a deformação ainda maior do
sistema político (através de criação de agendas políticas), para cooptar
pessoas, vincular mandatos ao crime e, também, certamente, financiar campanhas
eleitorais. Se de tudo que está sendo publicado 50% for verdadeiro trata-se de
um patamar de organização superior da corrupção, que já adquire um estatuto
diferenciado. Nele, o crime e a política não apenas interferem-se,
reciprocamente, mas já compõem um todo único, com alto grau de organicidade e
sofisticação.
O pior que pode acontecer é que a condução da CPI não permita
investigações profundas e que seus membros, eventualmente, cortejem mais os
holofotes do que a busca da verdade, ou que ocorram acordos para “flexibilizar”
resultados, por realismo eleitoral. Nesta hipótese, ficarão fortalecidos aqueles
que hoje estão empenhados em desgastar a esfera da política, que significa
relativizar, cada vez mais, a força das instituições do estado e o sentido
republicano da nossa democracia.
Este serviço, aliás, já está sendo feito pela oposição de direita
ao governo Dilma, pois já conseguiram semear a informação que o governo “está
preocupado” com os resultados da CPI. A oposição demo-tucana faz isso com
objetivos muitos claros: para que todos esqueçam as raízes partidárias
profundas, já visíveis, neste escândalo de repercussão mundial, mas que também é
uma boa oportunidade de virada republicana na democracia
brasileira.
(*) Tarso Genro é governador do Estado do Rio Grande do Sul.
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