A falência da moralidade da direita, por Tarso Genro
Enviado por luisnassif, sex, 08/06/2012 - 13:21
Por zanuja castelo
branco
De Carta Maior
Democracia e falência da moralidade da direita
A melhor forma de ajudar a recuperação da oposição direitista é transformar a CPI num repto moralista, aproveitando a “onda” anti-Demóstenes (a direita quer se livrar dele), apenas invertendo a mão do que vinha acontecendo contra Lula. Com isso deixa de lado a gravidade do que ocorreu: não apenas atos isolados de corrupção, mas uma conspiração criminosa que usava a luta contra a corrupção para promover uma corrupção ainda maior, a destruição no atacado do espaço político democrático. O artigo é de Tarso Genro.
De Carta Maior
Democracia e falência da moralidade da direita
A melhor forma de ajudar a recuperação da oposição direitista é transformar a CPI num repto moralista, aproveitando a “onda” anti-Demóstenes (a direita quer se livrar dele), apenas invertendo a mão do que vinha acontecendo contra Lula. Com isso deixa de lado a gravidade do que ocorreu: não apenas atos isolados de corrupção, mas uma conspiração criminosa que usava a luta contra a corrupção para promover uma corrupção ainda maior, a destruição no atacado do espaço político democrático. O artigo é de Tarso Genro.
Tarso Genro (*)
O episódio envolvendo a conversa do Presidente Lula com o
Ministro Gilmar Mendes só adquiriu notoriedade e importância, em função do
debate político que atravessa marginalmente a sociedade brasileira. Um debate
que se faz através de códigos, de discursos não explícitos, de alusões ligeiras
a temas relevantes, que refletem visões sobre o estado e o modelo de
desenvolvimento em curso e também sobre os efeitos da crise mundial sobre este
modelo. O encontro, na verdade, serviu para rememorar posicionamentos anteriores
sobre estes dois temas – Estado e modelo de desenvolvimento - que vem marcando a
última década. O resto é manipulação política para, mais uma vez, a grande mídia
tentar desgastar Lula, o Presidente que iniciou uma grande virada democrática e
social no Brasil, contra as idéias da direita conservadora e do neoliberalismo,
hegemônicos no período anterior.
A grande mídia tem composto a agenda política do país em torno da
questão da corrupção, como nunca ocorrera. É uma agenda importante e permanente
do país e muito se avançou, até agora, com as ações do governo federal na
Controladoria Geral da União, com a reorganização e a autonomia investigativa da
Polícia Federal e, até mesmo, com algumas denúncias fundadas que saíram na
grande imprensa, que ajudaram o Ministério Público nas suas tarefas de
fiscalização da legalidade. Mas a transformação da corrupção no assunto político
principal da República obedece a outros objetivos: transferir à esquerda que
governa todas as mazelas do país, para esconder o fracasso político dos governos
anteriores, que não só foram ineptos para governar, mas também incompetentes
para atacar a corrupção enraizada no Estado, promovida diretamente por setores
da iniciativa privada mancomunados com agentes públicos.
A oposição conservadora de matiz neoliberal, que promoveu as
privatizações selvagens, que pretendia privatizar a Petrobras, vender ativos
públicos que hoje se configuram como “chaves” para enfrentar a crise - como a
Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil - a mesma oposição que defendia e
defende uma política externa de subserviência aos EUA (e não relações de
cooperação interdependente com soberania) -esta oposição - tinha adquirido
através da campanha midiática, formalmente contra a corrupção, a condição de
paradigma da moralidade.
O processo teve realmente efeito em vastos setores das classes
médias, mas o povo de baixa renda, que ganhou com o emprego, com a renda, com o
Pronaf, com o Prouni, com os aumentos reais do salário mínimo, com as centenas
de obras públicas, com o bolsa-família, não se enganou. O moralismo udenista
voltou-se contra a própria direita e a sua saída agora é recuperar o
mensalão.
Esta falência “múltipla dos órgãos” oposicionista tem
conseqüências negativas e positivas para a democracia. Negativas, porque ajuda a
campanha contra os partidos e a esfera da política, contra os políticos em geral
que, “na sua maioria, estão aí para roubar”, como disse recentemente um
conhecido jornalista. A afirmativa permitiria qualquer um dizer que “todos os
jornalistas estão aí para mentir e manipular informações”, o que em ambos os
casos não é verdade.
A falência oposicionista, neste momento, também tem conseqüências
positivas, pois o debate sobre ética pública, que está em curso, pode abrir
espaços para uma discussão de fundo sobre a questão democrática: debate que
também pode incidir sobre a recuperação das funções públicas do Estado e sobre o
sistema político vigente. Se esquerda que apóia Lula e Dilma acordarem uma
agenda mínima, unitária, sobre a reforma política e, ao mesmo tempo, utilizarem
a CPI para fazerem um trabalho sério e profundo, este episódio da CPI pode se
tornar um grande evento republicano.
Um trabalho republicano exige que as investigações e os debates
na CPI não sejam pautados pela mídia, que eles tenham foco, que não se preocupem
com as colorações partidárias dos envolvidos, porque o esquema Cachoeira não é
um simples evento de criminalização de políticos, mas é um vasto esquema de
dominação de partidos pelo crime organizado. É um esquema de interferência na
agenda política da nação, para falsificá-la e colocá-la a serviço da corrupção e
do atraso neoliberal, inclusive usando para isso - criminosamente, portanto - a
liberdade de imprensa e os órgãos de imprensa que se prestam para isso.
A melhor forma de ajudar a recuperação da oposição direitista é
transformar a CPI num repto moralista, aproveitando a “onda” anti-Demóstenes (a
direita quer se livrar dele), apenas invertendo a mão do que vinha acontecendo
contra Lula. Com isso deixando de lado a gravidade do que ocorreu: não apenas
atos isolados de corrupção, mas uma conspiração criminosa que usava a luta
contra a corrupção para promover uma corrupção ainda maior, a destruição no
atacado do espaço político democrático com falsificação de informações,
destruição de reputações, negócios ilegais com bens públicos, articulação com o
submundo do crime e aparelhamento do estado para fins ilícitos.
Entendo que a esquerda deve pensar que, em todos os partidos, há
pessoas - em maior ou menor número- que gostariam de fazer o Brasil avançar na
luta contra a corrupção. O udenismo reacionário é que divide o espaço político,
entre a oposição “pura” e os “governos corruptos”. Não podemos estabelecer,
agora, em função do caso Demóstenes, uma dialética inversa. Ou seja, os que
estão no governo são “puros” e progressistas e os que estão na oposição são
“falsos moralistas”.
É óbvio que o próprio olhar sobre a corrupção é derivado do lugar
social e político que se olha e, segundo esse lugar, a corrupção será vista com
mais, ou menos, leniência. Mas há uma questão democrática preliminar, que pode
alargar a influência da esquerda e ampliar a base do governo na sociedade: a
corrupção pode ajudar a destruir a democracia e também reduzir, ainda mais, as
funções públicas do Estado. Esta questão democrática é que deveria ser
considerada pela esquerda para dar um destino exemplar à CPI: dar uma nobre
função política à CPI, não transformá-la num mero inquérito policial que, de
resto, é o espaço real de construção da persecução criminal. Apurar
rigorosamente todos os fatos (que servirão para o Ministério Público cumprir as
suas funções) e mostrar que a malha grossa do sistema político, erguido sobre o
financiamento privado das campanhas, é o grande alicerce da corrupção no
Brasil.
(*) Governador do Estado do Rio Grande do Sul.
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