Os Laços de Família
A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e recontava as duas malas tentando convencer-se de que ambas estavam no carro. A filha, com seus olhos escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.
Precisão
O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.
Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som
de minha máquina é macio.
Dá-me a Tua Mão
Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
Clarice Lispector
Teu Segredo
Flores envenenadas na jarra. Roxas azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas e mais perigosas. É assim então o teu segredo. Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.
Clarice Lispector
Meu Deus, me dê a coragem
Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar.
Clarice Lispector
A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e recontava as duas malas tentando convencer-se de que ambas estavam no carro. A filha, com seus olhos escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.
— Não esqueci de nada? perguntava
pela terceira vez a mãe.
— Não, não, não
esqueceu de nada, respondia a filha divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena
meio cômica entre sua mãe e seu marido, na hora
da despedida. Durante as duas semanas da visita da velha,
os dois mal se haviam suportado; os bons-dias e as boas-tardes
soavam a cada momento com uma delicadeza cautelosa que a fazia
querer rir. Mas eis que na hora da despedida, antes de entrarem
no táxi, a mãe se transformara em sogra exemplar
e o marido se tornara o bom genro. "Perdoe alguma palavra
mal dita", dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma
alegria, vira Antônio não saber o que fazer das
malas nas mãos, a gaguejar - perturbado em ser o bom
genro. "Se eu rio, eles pensam que estou louca",
pensara Catarina franzindo as sobrancelhas. "Quem casa
um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um",
acrescentara a mãe, e Antônio aproveitara sua
gripe para tossir. Catarina, de pé, observava com malícia
o marido, cuja segurança se desvanecera para dar lugar
a um homem moreno e miúdo, forçado a ser filho
daquela mulherzinha grisalha... Foi então que a vontade
de rir tornou-se mais forte. Felizmente nunca precisava rir
de fato quando tinha vontade de rir: seus olhos tomavam uma
expressão esperta e contida, tornavam-se mais estrábicos
- e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um
pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra: desde
pequena rira pelos olhos, desde sempre fora estrábica.
— Continuo a dizer que o menino está
magro, disse a mãe resistindo aos solavancos do carro.
E apesar de Antônio não estar presente, ela usava
o mesmo tom de desafio e acusação que empregava
diante dele. Tanto que uma noite Antônio se agitara:
não é por culpa minha, Severina! Ele chamava
a sogra de Severina, pois antes do casamento projetava serem
sogra e genro modernos. Logo à primeira visita da mãe
ao casal, a palavra Severina tornara-se difícil na
boca do marido, e agora, então, o fato de chamá-la
pelo nome não impedira que... - Catarina olhava-os
e ria.
— O menino sempre foi magro, mamãe,
respondeu-lhe. O táxi avançava monótono.
— Magro e nervoso, acrescentou a senhora
com decisão.
— Magro e nervoso, assentiu Catarina
paciente. Era um menino nervoso, distraído. Durante
a visita da avó tornara-se ainda mais distante, dormira
mal, perturbado pelos carinhos excessivos e pelos beliscões
de amor da velha. Antônio, que nunca se preocupara especialmente
com a sensibilidade do filho, passara a dar indiretas à
sogra, "a proteger uma criança” ...
— Não esqueci de nada..., recomeçou
a mãe, quando uma freada súbita do carro lançou-as
uma contra a outra e fez despencarem as malas. — Ah!
ah! - exclamou a mãe como a um desastre irremediável,
ah! dizia balançando a cabeça em surpresa, de
repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe
olhava a filha, e também a Catarina acontecera um desastre?
seus olhos piscaram surpreendidos, ela ajeitava depressa as
malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente possível
remediar a catástrofe. Porque de fato sucedera alguma
coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada
contra Severina, numa intimidade de corpo há muito
esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe.
Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou
beijado. Do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando
a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais,
os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe
nem notava. Mas depois do choque no táxi e depois de
se ajeitarem, não tinham o que falar - por que não
chegavam logo à Estação?
— Não esqueci de nada, perguntou
a mãe com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la
nem responder-lhe.
— Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as
do chão.
— Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe
perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas
foram dispostas no trem, depois de trocados os beijos: a cabeça
da mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe
estava envelhecida e tinha os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam
sem ter o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa
e examinou-se no seu chapéu novo, comprado no mesmo
chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um ar excessivamente
severo onde não faltava alguma admiração
por si mesma. A filha observava divertida. Ninguém
mais pode te amar senão eu, pensou a mulher rindo pelos
olhos; e o peso da responsabilidade deu-lhe à boca
um gosto de sangue. Como se "mãe e filha"
fosse vida e repugnância. Não, não se
podia dizer que amava sua mãe. Sua mãe lhe doía,
era isso. A velha guardara o espelho na bolsa, e fitava-a
sorrindo. O rosto usado e ainda bem esperto parecia esforçar-se
por dar aos outros alguma impressão, da qual o chapéu
faria parte. A campainha da Estação tocou de
súbito, houve um movimento geral de ansiedade, várias
pessoas correram pensando que o trem já partia: mamãe!
disse a mulher. Catarina! disse a velha. Ambas se olhavam
espantadas, a mala na cabeça de um carregador interrompeu-lhes
a visão e um rapaz correndo segurou de passagem o braço
de Catarina, deslocando-lhe a gola do vestido. Quando puderam
ver-se de novo, Catarina estava sob a iminência de lhe
perguntar se não esquecera de nada...
— ...não esqueci de nada? perguntou
a mãe.
— Também a Catarina parecia que
haviam esquecido de alguma coisa, e ambas se olhavam atônitas
- porque se realmente haviam esquecido, agora era tarde demais.
Uma mulher arrastava uma criança, a criança
chorava, novamente a campainha da Estação soou...
Mamãe, disse a mulher. Que coisa tinham esquecido de
dizer uma a outra? e agora era tarde demais. Parecia-lhe que
deveriam um dia ter dito assim: sou tua mãe, Catarina.
E ela deveria ter respondido: e eu sou tua filha.
— Não vá pegar corrente
de ar! gritou Catarina.
— Ora menina, sou lá criança,
disse a mãe sem deixar porém de se preocupar
com a própria aparência. A mão sardenta,
um pouco trêmula, arranjava com delicadeza a aba do
chapéu e Catarina teve subitamente vontade de lhe perguntar
se fora feliz com seu pai:
— Dê lembranças a titia!
gritou.
— Sim, sim!
— Mamãe, disse Catarina porque
um longo apito se ouvira e no meio da fumaça as rodas
já se moviam.
— Catarina! disse a velha de boca aberta
e olhos espantados, e ao primeiro solavanco a filha viu-a
levar as mãos ao chapéu: este caíra-lhe
até o nariz, deixando aparecer apenas a nova dentadura.
O trem já andava e Catarina acenava. O rosto da mãe
desapareceu um instante e reapareceu já sem o chapéu,
o coque dos cabelos desmanchado caindo em mechas brancas sobre
os ombros como as de uma donzela - o rosto estava inclinado
sem sorrir, talvez mesmo sem enxergar mais a filha distante.
No meio da fumaça Catarina começou
a caminhar de volta, as sobrancelhas franzidas, e nos olhos
a malícia dos estrábicos. Sem a companhia da
mãe, recuperara o modo firme de caminhar: sozinha era
mais fácil. Alguns homens a olhavam, ela era doce,
um pouco pesada de corpo. Caminhava serena, moderna nos trajes,
os cabelos curtos pintados de acaju. E de tal modo haviam-se
disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu a felicidade
- tudo estava tão vivo e tenro ao redor, a rua suja,
os velhos bondes, cascas de laranja - a força fluia
e refluia no seu coração com pesada riqueza.
Estava muito bonita neste momento, tão elegante; integrada
na sua época e na cidade onde nascera como se a tivesse
escolhido. Nos olhos vesgos qualquer pessoa adivinharia o
gosto que essa mulher tinha pelas coisas do mundo. Espiava
as pessoas com insistência, procurando fixar naquelas
figuras mutáveis seu prazer ainda úmido de lágrimas
pela mãe. Desviou-se dos carros, conseguiu aproximar-se
do ônibus burlando a fila, espiando com ironia; nada
impediria que essa pequena mulher que andava rolando os quadris
subisse mais um degrau misterioso nos seus dias.
O elevador zumbia no calor da praia. Abriu
a porta do apartamento enquanto se libertava do chapeuzinho
com a outra mão; parecia disposta a usufruir da largueza
do mundo inteiro, caminho aberto pela sua mãe que lhe
ardia no peito. Antônio mal levantou os olhos do livro.
A tarde de sábado sempre fora "sua", e, logo
depois da partida de Severina, ele a retomava com prazer,
junto à escrivaninha.
— "Ela" foi?
— Foi sim, respondeu Catarina empurrando
a porta do quarto de seu filho. Ah, sim, lá estava
o menino, pensou com alívio súbito. Seu filho.
Magro e nervoso. Desde que se pusera de pé caminhara
firme; mas quase aos quatro anos falava como se desconhecesse
verbos: constatava as coisas com frieza, não as ligando
entre si. Lá estava ele mexendo na toalha molhada,
exato e distante. A mulher sentia um calor bom e gostaria
de prender o menino para sempre a este momento; puxou-lhe
a toalha das mãos em censura: este menino! Mas o menino
olhava indiferente para o ar, comunicando-se consigo mesmo.
Estava sempre distraído. Ninguém conseguira
ainda chamar-lhe verdadeiramente a atenção.
A mãe sacudia a toalha no ar e impedia com sua forma
a visão do quarto: mamãe, disse o menino. Catarina
voltou-se rápida. Era a primeira vez que ele dizia
"mamãe" nesse tom e sem pedir nada. Fora
mais que uma constatação: mamãe! A mulher
continuou a sacudir a toalha com violência e perguntou-se
a quem poderia contar o que sucedera, mas não encontrou
ninguém que entendesse o que ela não pudesse
explicar. Desamarrotou a toalha com vigor antes de pendurá-la
para secar. Talvez pudesse contar, se mudasse a forma. Contaria
que o filho dissera: mamãe, quem é Deus. Não,
talvez: mamãe, menino quer Deus. Talvez. Só
em símbolos a verdade caberia, só em símbolos
é que a receberiam. Com os olhos sorrindo de sua mentira
necessária, e sobretudo da própria tolice, fugindo
de Severina, a mulher inesperadamente riu de fato para o menino,
não só com os olhos: o corpo todo riu quebrado,
quebrado um invólucro, e uma aspereza aparecendo como
uma rouquidão. Feia, disse então o menino examinando-a.
— Vamos passear! respondeu corando e
pegando-o pela mão.
Passou pela sala, sem parar avisou ao marido:
vamos sair! e bateu a porta do apartamento.
Antônio mal teve tempo de levantar os
olhos do livro - e com surpresa espiava a sala já vazia.
Catarina! chamou, mas já se ouvia o ruído do
elevador descendo. Aonde foram? perguntou-se inquieto, tossindo
e assoando o nariz. Porque sábado era seu, mas ele
queria que sua mulher e seu filho estivessem em casa enquanto
ele tomava o seu sábado. Catarina! chamou aborrecido
embora soubesse que ela não poderia mais ouvi-lo. Levantou-se,
foi à janela e um segundo depois enxergou sua mulher
e seu filho na calçada.
Os dois haviam parado, a mulher talvez decidindo
o caminho a tomar. E de súbito pondo-se em marcha.
Por que andava ela tão forte, segurando
a mão da criança? pela janela via sua mulher
prendendo com força a mão da criança
e caminhando depressa, com os olhos fixos adiante; e, mesmo
sem ver, o homem adivinhava sua boca endurecida. A criança,
não se sabia por que obscura compreensão, também
olhava fixo para a frente, surpreendida e ingênua. Vistas
de cima as duas figuras perdiam a perspectiva familiar, pareciam
achatadas ao solo e mais escuras à luz do mar. Os cabelos
da criança voavam...
O marido repetiu-se a pergunta que, mesmo sob
a sua inocência de frase cotidiana, inquietou-o: aonde
vão? Via preocupado que sua mulher guiava a criança
e temia que neste momento em que ambos estavam fora de seu
alcance ela transmitisse a seu filho... mas o quê? "Catarina",
pensou, "Catarina, esta criança ainda é
inocente!" Em que momento é que a mãe,
apertando uma criança, dava-lhe esta prisão
de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem.
Mais tarde seu filho, já homem, sozinho, estaria de
pé diante desta mesma janela, batendo dedos nesta vidraça;
preso. Obrigado a responder a um morto. Quem saberia jamais
em que momento a mãe transferia ao filho a herança.
E com que sombrio prazer. Agora mãe e filho compreendendo-se
dentro do mistério partilhado. Depois ninguém
saberia de que negras raízes se alimenta a liberdade
de um homem. "Catarina", pensou com cólera,
"a criança é inocente!" Tinham porém
desaparecido pela praia. O mistério partilhado.
"Mas e eu? e eu?" perguntou assustado.
Os dois tinham ido embora sozinhos. E ele ficara. "Com
o seu sábado." E sua gripe. No apartamento arrumado,
onde "tudo corria bem". Quem sabe se sua mulher
estava fugindo com o filho da sala de luz bem regulada, dos
móveis bem escolhidos, das cortinas e dos quadros?
fora isso o que ele lhe dera. Apartamento de um engenheiro.
E sabia que se a mulher aproveitava da situação
de um marido moço e cheio de futuro - deprezava-a também,
com aqueles olhos sonsos, fugindo com seu filho nervoso e
magro. O homem inquietou-se. Porque não poderia continuar
a lhe dar senão: mais sucesso. E porque sabia que ela
o ajudaria a consegui-lo e odiaria o que conseguissem. Assim
era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava
propriamente, como se tivesse vivido sempre. As relações
entre ambos eram tão tranqüilas. Às vezes
ele procurava humilhá-la, entrava no quarto enquanto
ela mudava de roupa porque sabia que ela detestava ser vista
nua. Por que precisava humilhá-la? no entanto ele bem
sabia que ela só seria de um homem enquanto fosse orgulhosa.
Mas tinha se habituado a torna-la feminina deste modo: humilhava-a
com ternura, e já agora ela sorria - sem rancor? Talvez
de tudo isso tivessem nascido suas relações
pacíficas, e aquelas conversas em voz tranqüila
que faziam a atmosfera do lar para a criança. Ou esta
se irritava às vezes? Às vezes o menino se irritava,
batia os pés, gritava sob pesadelos. De onde nascera
esta criaturinha vibrante, senão do que sua mulher
e ele haviam cortado da vida diária. Viviam tão
tranqüilos que, se se aproximava um momento de alegria,
eles se olhavam rapidamente, quase irônicos, e os olhos
de ambos diziam: não vamos gastá-lo, não
vamos ridiculamente usá-lo. Como se tivessem vívido
desde sempre.
Mas ele a olhara da janela, vira-a andar depressa
de mãos dadas com o filho, e dissera-se: ela está
tomando o momento de alegria - sozinha. Sentira-se frustrado
porque há muito não poderia viver senão
com ela. E ela conseguia tomar seus momentos - sozinha. Por
exemplo, que fizera sua mulher entre o trem e o apartamento?
não que a suspeitasse mas inquietava-se.
A última luz da tarde estava pesada
e abatia-se com gravidade sobre os objetos. As areias estalavam
secas. O dia inteiro estivera sob essa ameaça de irradiação.
Que nesse momento, sem rebentar, embora, se ensurdecia cada
vez mais e zumbia no elevador ininterrupto do edifício.
Quando Catarina voltasse eles jantariam afastando as mariposas.
O menino gritaria no primeiro sono, Catarina interromperia
um momento o jantar... e o elevador não pararia por
um instante sequer?! Não, o elevador não pararia
um instante.
— "Depois do jantar iremos ao cinema",
resolveu o homem. Porque depois do cinema seria enfim noite,
e este dia se quebraria com as ondas nos rochedos do Arpoador.
Clarice
Lispector (do livro "Laços de Família")
Precisão
O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.
Que é que eu posso escrever? Como
recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu
meio de comunicação. Eu só poderia
amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados:
acaso e fatalidade. A palavra é tão forte
que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma
idéia. Cada palavra materializa o espírito.
Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de
pensar o meu sentimento.
Devemos modelar nossas palavras até
se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos.
Sempre achei que o traço de um escultor é
identificável por um extrema simplicidade de linhas.
Todas as palavras que digo - é por esconderem outras
palavras.
Qual é mesmo a palavra secreta? Não
sei é porque a ouso? Não sei porque não
ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez
unicamente uma, que não pode e não deve ser
pronunciada. Parece-me que todo o resto não é
proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente
me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar
essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim
mesma, senão corro o risco de virar alma perdida
por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento
sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é
que me impedem de dizer a verdade.
Simplesmente não há palavras.
O que não sei dizer é mais
importante do que o que eu digo. Acho que o som da música
é imprescindível para o ser humano e que o
uso da palavra falada e escrita são como a música,
duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos,
do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim,
mas é a sorte às vezes.
Sempre quis atingir através da palavra
alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse
e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade
mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada
vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor
acontecerá quando eu de todo não escrever.
Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem
sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo
e pode ser uma aurora.
Simplesmente as palavras do homem.
Dá-me a Tua Mão
Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.
Clarice Lispector
Teu Segredo
Flores envenenadas na jarra. Roxas azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas e mais perigosas. É assim então o teu segredo. Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.
Clarice Lispector
Meu Deus, me dê a coragem
Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar.
Clarice Lispector
Não entendo. Isso
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