A transparência nos salários

Por Henrique - O Outro
Da Época
Por que não liberar todos os salários?
Paulo Moreira Leite
Sei que a irritação de boa parte dos cidadãos com a má qualidade dos serviços públicos e a impressão geral (e errada) de que todo servidor não passa de um aproveitador estimula as leis que levaram o governo a divulgar os salários e demais rendimentos de funcionários.
É uma medida de caráter político.
Mas a medida tem uma justificativa, em nome da transparência das despesas do estado.
Só fico espantado quando se diz que quem assume um emprego público deve estar preparado para ter seus ganhos revelados, centavo por centavo, nome a nome.
Fica a sugestão de que os cidadãos que trabalham no setor privado não precisam prestar contas à sociedade.
Por que?
Nos Estados Unidos, divulga-se, todos os anos, os bônus e demais remunerações dos grandes executivos. A última relação mostra que o sucessor de Steve Jobs na Apple levou mais de 200 milhões de dólares para casa.
Qual a função dessa informação?
De um lado, é uma informação necessária a acionistas interessados em controlar ganhos e perdas de seus investimentos. Em última análise, eles definem esse tipo de remuneração. Mas não é uma informação que fica reservada, como um dado confidencial. Está em todos os jornais e revistas, na TV, na internet…
Essa informação também ajuda clientes – e funcionários – a ter uma noção e adequada sobre os compromissos reais de dirigentes que, de uma forma ou de outra, tem uma responsabilidade imensa pelo destino de milhões de famílias, dentro e fora da empresa.
Não custa recordar o papel dessa turma na preparação e desfecho da catástrofe do Lehman Brothers em 2008 e na armação da crise européia a partir dos anos seguintes.
Ficou claro que a economia mundial, que levou um tombo estimado em 20 trilhões de dólares, foi vítima de executivos que realizaram transações marotas e condenáveis com a única finalidade de fazer fortunas pessoais da noite para o dia.
É preciso ser muito ingênuo para falar em “fatalidades do mercado” ou “o capitalismo é assim mesmo”. Os derivativos foram invenções de alto risco, que driblavam a lei muitas vezes e quebraram o patrimônio de famílias que jamais foram alertadas devidamente para os riscos que corriam.
Enganaram autoridades, abusaram de direitos que não possuíam.
Levavam milhões de dólares para casa na mesma reunião em que programavam a destruição do patrimônio de seus clientes.
Como demonstra o Premio Nobel Joseph Stiglitz, os bônus absurdos de nossa época — obtidos no setor privado — estão por trás de boa parte da irresponsabilidade dos homens e mulheres que dirigem grandes corporações. Eles transformaram a economia num cassino, onde o público sempre perde e o dono nunca toma prejuízo — como observa o economista, de vez em quando os estabelecimento da máfia são obrigados a pagar a conta de um cliente muito felizardo.
O raciocínio é que a chance de tornar-se bilionário da noite para o dia e salvar a família por muitas e muitas gerações é irresistível para a maioria das pessoas, o que serve de estímulo para decisões aventureiras e irresponsáveis.
Há outro aspecto relevante nessa discussão. Um executivo que arrocha os vencimentos de funcionários e engorda os próprios rendimentos precisa dar uma explicação muito boa para isso ou então está dando uma demonstração definitiva sobre os compromissos reais da empresa que dirige – e os empregados têm todo direito de saber o que acontece.
Essa transparência teria pelo menos a serventia de substituir os contos de fada dos Erreagás por uma pimenta mais verdadeira de um reality show, não é mesmo?
O interesse público nessa informação é evidente. Ajuda a colocar o debate sobre distribuição de renda no mundo real e não naquele universo árido e impenetrável de estatísticas genéricas demais para ter algum significado.