sábado, 17 de dezembro de 2011

Enviado por Míriam Leitão e Alvaro Gribel - 16.12.2011

15h00m

COLUNA NO GLOBO

Calor do Nordeste

Os hotéis da Praia de Boa Viagem, em Recife, neste fim de semana, estavam lotados. Um deles, no qual fiquei, teve que mudar o local do café da manhã para caberem os 600 hóspedes. E era um fim de semana normal. O Nordeste continua com sinais de forte crescimento. De 1995 a 2009, foi a região que mais cresceu sua participação no PIB: de 12% para 13,5%.



Os dados divulgados na quarta-feira pelo IBGE mostram como o Brasil é concentrado: cinco cidades têm 24% do PIB. Só a cidade de São Paulo é quase um Nordeste inteiro. Renda, crescimento e PIB concentrados, o Brasil sempre teve. O fenômeno interessante dos últimos anos foi o crescimento mais forte de regiões como o Centro-Oeste ou o Nordeste. A crise tirou um pouco do gás, produziu alguns números negativos, mas quem vai lá sente que o clima ainda é de crescimento.



Ele é generalizado. Acontece em vários segmentos, às vezes por um investimento específico, às vezes pelo desempenho dos setores. O setor de serviços nordestino passou a representar 14,1% dos serviços brasileiros. Era 12,4% em 1995. O comércio foi de 13,2% para 15,5%, a indústria saiu de 10% para 12,2%. Na produção e distribuição de serviços públicos — água, gás, esgoto, limpeza urbana — a participação do Nordeste saltou de 12,4% para 19,3% do total do país. Na agropecuária, caiu de 22,9% para 18,2%, enquanto o Centro-Oeste aumentou de 11,4% para 19,5%.



Quando se conversa com empresas, principalmente do setor de consumo, o entusiasmo fica claro. As Lojas Americanas estão executando o plano de abrir 90 lojas de 2010 a 2013. Quando elas estiverem todas implantadas, a região vai significar 22% do faturamento da empresa. Antes, era 13%. A B2W, que reúne Americanas, Submarino e Shoptime, inaugurou em novembro um centro de distribuição em Recife. A Oi acaba de criar três unidades regionais com mais autonomia, quer inaugurar 23 lojas próprias até 2012 e ampliar em 30% a rede de parceiros na região.



Em 2007, a Nestlé inaugurou fábrica em Feira de Santana, na Bahia. Um ano depois, ela recebeu novos investimentos para triplicar a produção original. Em 2010, outra fábrica foi inaugurada em Garanhuns, Pernambuco. A Nestlé conta que fazem sucesso no Nordeste os Produtos Popularmente Posicionados (PPP): com preços baixos e embalagens menores. A crise econômica fez com que essa estratégia de vendas fosse levada a outras partes do mundo. Segundo a empresa, esses produtos já são 13% do faturamento mundial da Nestlé e a meta é chegar a 20%.



Outro setor que tem crescido muito é o de construção civil. Cresceu muito no Brasil todo, mas o Nordeste era 15,8% do setor no país e agora é 17,5%, de 1995 a 2009. O presidente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), Cláudio Conz, diz que o crescimento no Centro-Oeste, puxado pelo agronegócio, é diferente do que acontece no Nordeste:



— No Centro-Oeste há um crescimento concentrado. Um grande fazendeiro tem uma renda enorme anual. No Nordeste é mais disseminado, cresce o setor de serviços, as pousadas, os hotéis, o turismo. O dinheiro circula mais.



Para o pesquisador Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, a educação é o principal fator para o crescimento da região, mais até do que as políticas de transferência de renda. Ele explica que a renda per capita no Nordeste cresceu 41,8% de 2001 a 2009. No Sudeste, a alta foi de 15,75%. O aumento da escolaridade corresponde a 31,8 pontos do crescimento da renda, e os programas sociais, 5,4 pontos.



— A elevação do nível educacional é o fator principal desse desempenho. Ele sempre foi muito baixo, então com uma pequena melhora já houve um prêmio grande nos salários. Há um efeito líquido dos programas sociais, mas principalmente a qualificação do trabalhador é que elevou a renda. O principal da educação foi feito nos anos 1990 para se colher os frutos nos anos 2000. As mudanças na educação não acontecem de um dia para o outro, tem um tempo grande de defasagem — disse Neri.



O gerente de Contas Regionais do IBGE, Frederico Cunha, concorda. Ele também acha que a educação é o principal fator de indução. Cunha também cita as agências públicas de fomento, que foram reformuladas e aumentaram os investimentos, e a guerra fiscal, que levou empresas para a região, atraídas pelos incentivos:



— As políticas de transferência de renda foram importantes porque garantiram uma proteção social e exigiram a presença dos filhos nas escolas. O aumento da escolaridade, no entanto, puxou o rendimento salarial. A guerra fiscal no final dos anos 1990 levou para o Nordeste várias indústrias e isso beneficiou a região também.



Apesar dos dados divulgados esta semana mostrando a concentração do PIB em poucas cidades, o panorama mais geral continua sendo a tendência de disseminação do crescimento. É que o Brasil é tão concentrado que tornar o país um pouco menos desigual leva tempo e exige persistência nas políticas. Se em relação à guerra fiscal há muita controvérsia, sobre a elevação da educação não há dúvida. Ela é fundamental para sedimentar um novo ciclo de desenvolvimento no país, seja em que região for.



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