quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Enviado por Ana Cláudia Guimarães - 8.7.2011

22h57m

JOSÉ CAMARGO

O duro exercício da impotência

Depois de um tempo ausente, estou de volta com um artigo do médico José Camargo, diretor da Santa Casa de Porto Alegre, maior centro de transplante de pulmão da América Latina. Além de craque, o José Camargo é uma das melhores figuras humanas que já conheci na vida. Dá só uma olhada no artigo que ele escreveu sobre o início de sua carreira, nos EUA. Como diria outro craque, Vinícius de Moraes: "Se todos fossem iguais a você...."



"O duro exercício da impotência!



No início dos anos 80, a famosa Clínica Mayo capitaneava um projeto de

diagnóstico precoce de câncer de pulmão nos EUA.



Com um protocolo de raios-X de tórax e exame de escarro anuais na população

fumante, muitos casos de tumores pequenos foram identificados e os pacientes

eram recepcionados na Clínica com indisfarçável euforia.



Mr. Collins, de 73 anos, um viúvo, plantador de milho em Minnesota, foi

internado com um tumor de 2 cm no pulmão direito, sem sintomas.



Os números favoráveis foram apresentados na véspera da cirurgia e ele dormiu

confiante. Quando o visitei naquela noite ele me abraçou, agradecido. E retribui

acariciando sua careca e com isso atenuando um pouco a enorme saudade do meu

pai, que as duas cabeças eram muito parecidas.



No dia seguinte, tórax aberto, começaram as surpresas: um nódulo foi palpado na

superfície diafragmática do fígado e uma punção mostrou que se tratava de uma

metástase. Com desencanto geral o tórax foi fechado.



Fiquei imaginando como contariam a ele a completa mudança de horizontes, e fui

surpreendido com a naturalidade e frieza com que meu professor, em pé na lateral

do leito, relatou-lhe os achados terríveis e quando perguntado se ele havia retirado

o nódulo do pulmão, respondeu simplesmente que não fazia o menor sentido

remover um simples nódulo de quem já tinha doença disseminada.



Quando o meu professor anunciou que naquela tarde o pessoal da oncologia viria

para verificar o que ainda era possível fazer por ele, Mr. Collins encontrou forças

para um “Obrigado, Doutor”.



Com o batalhão de choque batendo em retirada, fiquei para trás e compungido

de dor e pena, fui interceptado pelo velho que, com as bochechas tremendo

em desespero, me pediu:” Doutor, como eu lhe contei, meu filho único, que é

engenheiro, está envolvido num projeto milionário na Tailândia e se ele tiver que

voltar antes de dezembro, por minha causa, eu liquido com a carreira dele. Por

favor, doutor, faça alguma coisa, mas não me deixe morrer antes do fim do ano!”



Nos registros da clínica, o caso do Mr. Collins certamente não passou de uma falha

do protocolo, porque ele tinha sido tratado como se um indivíduo e o seu câncer,

fossem entidades diferentes.



Sentado ali, de mãos dadas com o Mr. Collins como dois seres apátridas e carentes,

querendo tanto ajudar e não sabendo como, fui apresentado à essa senhora

poderosa e cruel: a impotência.



Tentado a desafiá-la, naquela noite decidi que tipo de médico eu não queria ser! "



(*) Cirurgião de Tórax e Professor universitário







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