quarta-feira, 2 de novembro de 2011




"...Não pense que a pessoa tem tanta força assim

a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma.

Até cortar os defeitos pode ser perigoso -

nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...

há certos momentos em que o primeiro dever a realizar

é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito.

Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade

e todo interesse pelas coisas.

Você já viu como um touro castrado se transforma em boi.

Assim fiquei eu...

Para me adaptar ao que era inadaptável,

para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões

- cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim.

E com isso cortei também a minha força.



Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você

- respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você -

não copie uma pessoa ideal, copie você mesma

- é esse seu único meio de viver.

Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou

por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer.

Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão.

Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige.

Parece uma vida amoral.

Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.

Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber.

Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma...".



¬ Clarice Lispector ¬





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