"...Não pense que a pessoa tem tanta força assim
a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma.
Até cortar os defeitos pode ser perigoso -
nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...
há certos momentos em que o primeiro dever a realizar
é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito.
Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade
e todo interesse pelas coisas.
Você já viu como um touro castrado se transforma em boi.
Assim fiquei eu...
Para me adaptar ao que era inadaptável,
para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões
- cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim.
E com isso cortei também a minha força.
Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você
- respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você -
não copie uma pessoa ideal, copie você mesma
- é esse seu único meio de viver.
Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou
por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer.
Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão.
Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige.
Parece uma vida amoral.
Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.
Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber.
Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma...".
¬ Clarice Lispector ¬
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