quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Enviado por Carolina Nogueira - 17.11.2011

14h02m

Cartas de Paris

Austeridade eleitoreira



De umas semanas para cá, a crise econômica ficou visível em Paris.



Eu já estranhava que duas amigas (uma francesa, outra espanhola), qualificadas profissionalmente, estivessem há tempo demais procurando emprego, mas ainda não achava que fosse necessariamente reflexo da tal crise.



Pois agora o problema saltou aos olhos. É impossível ignorar a quantidade de pequenos comércios fechando as portas no meu bairro e a profusão de placas de "aluga-se". Só na minha rua, a locadora, a papelaria e uma loja esportiva estão passando o ponto.



Nunca ouvi tantos amigos levando em conta a crise econômica para definir seus próximos passos profissionais. Gente que nasceu e cresceu em Paris anda considerando a hipótese de emigrar.



Desde o início do mês, o governo Sarkozy arregaçou as mangas de verdade e parece empenhado em reagir com austeridade. Depois que a agência Standard & Poor's tirou da França, "por engano", o triplo A com que avalia as economias mais sãs do planeta, a minha ficha que começou a cair no passeio pelo bairro parece ter feito trajetória semelhante no Palácio do Elysée.



Até porque a S&P voltou atrás, explicando que a nota mais baixa da França teria sido um erro informático, divulgado para poucos assinantes - mas a ameaça de que isso aconteça é real e já tinha sido feita de maneira explícita pela agência Moody's no mês passado.



Resultado: Sarkozy enviou para seu ministro da Economia recomendações expressas por medidas visíveis e mais austeras do que as do plano de economia lançado durante o verão - em outras palavras, aumento de receitas e corte de gastos.



Aumento de imposto em setores específicos da economia, pressa na reforma da previdência, um orçamento para o ano que vem que segundo o primeiro-ministro François Fillon deve ser o "mais rigoroso desde 1948", prevendo uma economia de 6 a 8 bilhões de euros. Eis a receita.



A perspectiva de crescimento para este ano foi corrigida para menos da metade - dos 1,75% inicialmente previstos, o plano prevê agora um crescimento de 1%, ou até mesmo de meio por cento.



Hoje, o ministro da Economia se fez muito sério e austero para dizer que "nenhum governo da história tomou medidas tão corajosas como as que colocaremos em votação num período pré-eleitoral".



Sei. Como se eles tivessem escolha. E como se a população/eleitorado, que já sente os efeitos da crise na pele, pudesse esperar outra coisa deles.







Carolina Nogueira é jornalista e mora há quatro anos em Paris de onde mantém o blog Le Croissant







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