14 outubro 2011, 11:02 am
philip roth Por Tony Bellotto
Vítimas da epidemia de poliomielite.
Se você é como eu, e não gosta de saber nada sobre um livro de Philip Roth antes de lê-lo — nem sequer um parágrafo da orelha, uma frase da resenha ou o comentário informal de um conhecido —, e se você ainda não leu, mas pretende ler, Nêmesis, o mais recente romance do autor norte-americano, melhor largar minha crônica exatamente aqui: até já, depois de ler Nêmesis você volta (o romance, ou seria uma novela?, é curto).
Para aqueles que não se importam com isso, ou que já leram o romance — ou que nem pretendiam ler mas talvez tenham ficado curiosos —, quero discorrer um pouco sobre aspectos da técnica narrativa empregada por Philip Roth, mas garanto que não vou revelar muito da trama nem estragar o prazer de quem ainda vai ler o livro.
Logo na primeira página, quando o narrador começa a descrever os primeiros casos de poliomielite em Newark no verão de 1944, e que prenunciam uma epidemia devastadora, nos deparamos com a seguinte frase, a segunda do primeiro parágrafo: “Ali onde morávamos, numa área do sudoeste chamada Weequahic e ocupada por judeus, nada soubemos sobre isso nem sobre os outros doze casos espalhados por quase toda Newark e mais distantes da nossa vizinhança”. A frase configura uma narrativa clássica em primeira pessoa, o que nos faz imaginar que o livro está sendo narrado por um personagem inserido na trama, de quem logo teremos informações mais detalhadas, como nome, idade, profissão, sexo etc. O que ocorre entretanto é que a partir daí o narrador passa a contar a história de Bucky Cantor — o atlético fiscal de pátio e professor de educação física do colégio do bairro — com tal distanciamento, impessoalidade e precisão que, poucas páginas depois, nos esquecemos que se trata de uma narrativa em primeira pessoa e somos levados a crer que a história é narrada na terceira pessoa, por um tradicional narrador onipresente e distanciado da ação.
Quando chegamos à página 80 do livro é com um verdadeiro (e perturbador) susto que lemos a abertura do parágrafo no alto da página: “A manhã seguinte foi a pior até então. Mais três meninos diagnosticados com pólio — Leo Feinswog, Paul Lippman e eu, Arnie Mesnikoff”. Arnie Mesnikoff é um personagem de quem nada sabemos até ali, e continuamos sem saber depois, já que a narrativa prossegue sem referências a esse estranho “eu” que contraiu pólio quando criança e é quem nos narra tudo!
A partir daí continuamos lendo a história de Bucky Cantor, mas sabendo que Arnie Mesnikoff, seja ele quem for — um menino com poliomielite em 1944 —, nos espreita de algum lugar invisível no fundo do livro. O efeito é aterrador. Somente na página 166, na abertura do capítulo final, o terceiro, a narrativa em primeira pessoa é plenamente retomada (“Nunca mais vimos o senhor Cantor no bairro.”) e podemos finalmente conhecer quem é o intrigante Arnie Mesnikoff e como consegue nos contar com tanta precisão uma história que não é a sua.
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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs.
Esqueçam o cachorro. O livro é o melhor amigo do homem. Costumo levar livros comigo para tudo quanto é canto. O segredo é encontrar o livro certo para cada ocasião. Nesse sentido os livros são como roupas, há que existir uma adequação entre o livro e a situação em que será usado. Em consultórios médicos, recomenda-se uma leitura ligeira – tanto no sentido de conteúdo como no de tamanho mesmo -, e a definição engloba desde um Nero Wolfe básico ou uma das histórias do rabino David Small, até livros de poesia, como O ex-estranho, do Paulo Leminski, ou os poemas eróticos de John Donne.
Para almoços e jantares, aconselho livros de bolso, independente do título ou do autor. São de fácil manuseio e cabem em qualquer lugar, o que evita olhares irônicos e sussurros de “quem é o maluco?” quando você entra sozinho no restaurante carregando o Ulisses, de James Joyce, e puxa a cadeira para ele sentar (O Ulisses, não o James Joyce). Como livros de bolso são livros relativamente baratos, se um deles for esquecido no balcão de um sushi-bar ao lado de uma cumbuquinha vazia de saquê, não acarretará maiores prejuízos.
Para as viagens, principalmente as viagens longas, os grandes calhamaços são imprescindíveis. Um voo internacional é a oportunidade de encarar aquele 2666 do Bolaño que você vem adiando, ou o Submundo, do Don DeLillo, ou aquele Meus Lugares Escuros, do Ellroy, estacionado há anos na garagem vertical de seu criado-mudo. A vantagem é que você economiza o dinheiro do sonífero. Mas estas são situações corriqueiras, quando você para em frente à estante com o dedo no queixo sem conseguir se decidir por qual livro usar à noite.
Tudo muda de figura quando você está apaixonado por um livro específico. Pois nessa situação, você só terá olhos para ele, seja na sala de espera do urologista, na fila do ônibus ou na arquibancada do Pacaembu.
É o caso de Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, com o qual vivo um intenso caso de amor atualmente. Nossa relação começou há um mês mais ou menos, em meados de agosto, numa noite estranha aqui relatada numa crônica anterior, não por acaso intitulada Os detetives selvagens. Como toda a história de amor, minha relação com esse livro começou amena, como dois pugilistas que se observam no primeiro round e agora, passado um mês, estamos engalfinhados como dois lutadores de Ultimate Fighting, desses que sangram juntos e fazem confundir o telespectador, que não sabe se assiste a uma luta ou a um coito.
Comemoro há alguns dias a primeira mancha de shoyu no meu exemplar de Os detetives…, exatamente na página 421. Quando me apaixono por um livro, gosto de esmiuçá-lo e testá-lo em todas as situações possíveis: no banheiro (não só na óbvia privada, mas também na banheira e às vezes até no chuveiro), no camarim, no café da manhã, na praia e na aula de Pilates. E gosto também de descobrir seus defeitos e falhas de edição, sem os quais um amor não é completo.
Na página 417 da segunda reimpressão da edição da Companhia das Letras, encontro um erro na décima primeira linha, “…como seu eu aceitasse ser sua mulher…” . Há uma outra curiosidade – na verdade uma contradição -, e essa não saberemos jamais se proposital ou não, quando o personagem Jaume Planells narra, ao fim da página 491, “Às cinco e meia avistei Quima fumando um cigarro na esquina da praça Urquinaona com Pau Claris…”, e na página 496, transcorridas poucas horas após seu encontro com Quima, afirma “…tirei um cigarro do maço, não tinha fogo, procurei em todos os bolsos, então me levantei e me aproximei de Quima só para descobrir que ela tinha parado de fumar fazia tempo, um ano ou um século”. Pode se argumentar, claro, que era o próprio Jaume quem fumava quando avistou Quima na esquina da praça Urquinaona com Pau Claris, mas nesse caso um escritor minucioso como Bolaño com certeza redigiria algo como: “Às cinco e meia, enquanto fumava um cigarro, avistei Quima na esquina da praça Urquinaona com Pau Claris…”.
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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010
19 Comentários Inimigos
2 setembro 2011, 11:40 am
Por Tony Bellotto
1- Hemingway dizia que o telefone é o pior inimigo do escritor. E no tempo dele ninguém poderia imaginar que os telefones celulares seriam inventados. Se o telefone em si é o inimigo, os celulares são a sua frota aérea. Já tentei não ter um telefone fixo no meu escritório, mas era atacado a toda hora por telefones móveis e celulares que entravam voando pela janela.
2- Rubem Fonseca disse que toda a solidão não é suficiente para um escritor. Se a presença humana é o inimigo, filhos pequenos são seus mísseis certeiros. Quando os meus eram pequenos, me fechava no escritório disposto a me entregar a libidinagens com a Literatura, aquela impaciente senhora ninfomaníaca. Ouvia as vozinhas inocentes me chamando do corredor: “papai!”, e a culpa destruía minha concentração. Mais tarde, depois que dormiam, minha energia literária — e minha capacidade de manter o olho aberto ou o pau literário ereto — estava reduzida a zero.
3- Saramago afirmou uma vez que o Nobel tinha quase aniquilado sua concentração para escrever. Se os prêmios são o inimigo (e isso eu não posso saber, pois nunca ganhei um mísero prêmio literário), as feiras e festas literárias são seus agentes duplos. Você vai a uma feira dessas achando que vai falar de literatura, e quando chega lá acaba enchendo a cara com um monte de escritores e falando de tudo — futebol e mulher incluídos —, menos de literatura.
4- Patrícia Melo me confidenciou que escreve ouvindo música. Eu preciso de silêncio absoluto. Se o barulho é o inimigo, ruídos antes imperceptíveis são seus espiões infiltrados. Toda vez que fecho as janelas do meu escritório para escrever, descubro que os ponteiros do relógio, o ar condicionado desligado, a lâmpada acesa, a lagartixa na parede e meu próprio coração fazem um barulho do cacete.
5- Gabriel García Márquez ensina que é preciso jogar fora as páginas de que mais nos orgulhamos, aquelas que achamos muito bem escritas. Se a autocomplacência é o inimigo, o autoconhecimento é a bomba atômica: não encontro em meus textos uma página tão bem escrita que mereça ser jogada fora.
6- Marçal Aquino me disse que escreve à mão. Se os processadores de texto são o inimigo, meu computador é Átila, o huno. Basta eu estar minimamente inspirado — apto a enfileirar uma frase após a outra, independente de qualquer sentido — que meu computador inventa de dar pau.
7- Vinicius de Moraes disse que o uísque é o cachorro engarrafado. Se a sobriedade — e a tensão do dia-a-dia — é o inimigo, espero que vocês NUNCA leiam as bobagens que escrevo quando estou biritado.
8- Benno von Archimboldi afirma que escrever é a arte de cortar palavras (talvez tenha sido Gertrude Stein. Ou Tolstói. Flaubert. Não, foi Dashiell Hammett!). Se a verborragia é o inimigo, que merda esse On the road está fazendo na minha cabeceira?
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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.
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17 Comentários Os detetives selvagens
19 agosto 2011, 3:36 pm
Por Tony Bellotto
(Foto por Marcel Oosterwijk)
Coincidentemente, naquele mesmo dia eu tive uma reunião na Companhia das Letras e me comprometi a ressuscitar meu detetive, Remo Bellini, para uma história em quadrinhos. A reunião foi de manhã, e a tarde foi igualmente preenchida por reuniões com os Titãs — cenários e projeto de luz para o show do Rock in Rio, estratégias para divulgação de shows importantes no segundo semestre etc. À noite, um show em Mogi das Cruzes — um evento de lançamento de um grande projeto imobiliário, vejam vocês no que deu o rock brasileiro… — e às 22h20 eu já estava na estrada, rumo ao Rio, back home.
O motorista que me conduzia, Zé Rodrigues, paulistano arretado, é um exímio piloto noturno. Deitadão no banco de trás, arrisquei as primeiras páginas de Os detetives selvagens e alguns delírios e flashes mentais que me conduziram rapidamente ao poço do sono sem fundo. Por volta de 4h da manhã, nos aproximando do Rio, despertei e comecei a prestar atenção no caminho, já que o Zé, por melhor piloto que seja, conhece quase nada da dita cidade maravilhosa, a capital mundial da beleza e do caos. Optei pela Linha Vermelha, embora o bom senso me alarmasse com algumas imagens de tiroteios noturnos e assaltos cinematográficos, daqueles em que os assaltantes se fantasiam de policiais numa blitz. Foram momentos tensos, não havia carros passando pela Linha Vermelha àquela hora, mas tudo bem, fomos em frente.
Já próximos da cidade, depois de passar pela entrada para o Galeão, uma surpresa: a Linha Vermelha estava interrompida por um caminhão da prefeitura e alguns cones. Nenhum sinal, nenhuma placa, nenhum aviso. E ninguém para explicar nada. Só isso, a pista interrompida. Viramos à direita — única saída possível — num acesso para a Linha Amarela. Se a Linha Vermelha já me causou algum pânico, o que dizer da Amarela, que só conheço de noticiários tenebrosos sobre tiroteios dignos de uma Chicago de Al Capone? Começou ali meu momento de detetive de minha própria cidade. Era preciso chegar a Ipanema, mas como fazê-lo?
Pulei para o banco da frente e vi uma placa com uma seta indicando Copacabana. Entramos por ali, apesar da rua escura se assemelhar mais ao que se chama popularmente de um beco sem saída. Ao dobrarmos a curva, outra surpresa: uma blitz da polícia! Ninguém na rua, nenhum carro passando, só um batalhão de PMs armados de metrancas portentosas. O policial foi simpático e nos indicou como chegar à avenida Brasil. Ufa, alívio. Conheço o caminho agora. Lá fomos nós. Depois de passar pela estação Lepoldina e tentar alcançar o Túnel Rebouças — que me conduziria à lagoa Rodrigo de Freitas e às paisagens familiares da zona sul —, uma outra surpresa: Túnel Rebouças interditado. Só cones cor de laranja a me avisar disso. Medo e delírio sob um viaduto do Rio Comprido em busca de uma placa, um retorno, alguém passando. Nada.
Depois de muitas voltas, em que quase caímos na ponte Rio-Niterói, voltamos à mesma blitz da Linha Amarela, em que o policial simpático, agora um pouco mais desconfiado, nos indicou de novo como chegar à avenida Brasil. Depois de voltar ao cais, passar pelo aeroporto Santos Dumont, atravessar o aterro do Flamengo, praia de Botafogo, Copacabana e Ipanema, num tour fantasmagórico pela sede da Olimpíada de 2016 pessimamente sinalizada, cheguei em casa, às 4h da manhã. Acordei agora, pra escrever esta crônica.
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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010
5 agosto 2011, 12:02 pm
Por Tony Bellotto
Andreas Kisser e Titãs no Altas Horas
Uma das coisas chatas na literatura é que quando um escritor admira outro, não pode fazer uma jam session com ele. A não ser que os dois sejam músicos também. Digo isso porque vivo refletindo ― isso quando não estão me perguntando ― sobre as diferenças entre os ofícios de escrever e de tocar música.
O Reinaldo Moraes, por exemplo, que é um escritor que eu admiro e venero. Eu adoraria fazer um som com o Reinaldo. Como faço com o Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura e um dos maiores guitarristas de heavy metal do mundo. Volta e meia o Andreas participa de um show nosso, e pode inventar na hora um solo para uma música dos Titãs. Eu não posso simplesmente pegar um exemplar do Pornopopeia, do Reinaldo, e sair rabiscando solos prosísticos aos pés das páginas. Quer dizer, até posso, mas não me parece muito divertido. É verdade que eu e Reinaldo chegamos perto de uma jam quando eu escrevia o meu No buraco. Ele não só deu umas belas soladas no meu livro (não creditadas, afinal era só uma jam, certo?) como corrigiu algumas blue notes minhas que estavam fora do tom. Notas essas que chamamos, os músicos, de zé bemóis.
Os e-mails que troco com o Reinaldo também não deixam de ser tão imaginativos e irresponsáveis quanto os melhores solos que improviso de vez em quando com o Andreas. Mas como repetir, na literatura o prazer que me proporcionou tocar “Sunshine of your love”, do Cream, com o Andreas? Encontrar o Reinaldo num bar para recitarmos em uníssono as Notas de um velho safado, do Bukowski? Pode ser, dependendo do estímulo alcoólico…
Divago sobre essas bobagens porque agosto chega como uma contagem regressiva para o Rock in Rio. Em setembro boa parte do meu tempo será dedicada a ensaios, já que abriremos o festival numa apresentação conjunta com os Paralamas do Sucesso e orquestra. Faremos também, na última noite, uma apresentação com o Xutos & Pontapés, uma banda histórica do rock português. E desde já tenho ensaiado com o Milton Nascimento a abertura do festival, antes que Titãs e Paralamas comecem a tocar, quando acompanharei o mitológico cantor e compositor mineiro numa interpretação de um clássico de uma banda inglesa dos anos 70 (é surpresa, e não posso revelar, por contrato, qual é a música).
Essas coisas a literatura não me proporciona. Em compensação, músico nenhum me diverte tanto quanto o Reinaldo Moraes com seus e-mails.
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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras .
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