Colunistas Erico Assis
Aula
10 outubro 2011, 2:21 pm
Por Érico Assis
“Não parecer bitolado. Não parecer bitolado. Não parecer bitolado.” Era o mantra que eu me repetia antes de começar as aulas. Foi em vão. Difícil não parecer bitolado quando se é, justamente eu, professor de História dos Quadrinhos. Tive até um dedo na criação da cadeira e de todo o curso de Design Visual, três anos atrás. Era a primeira vez que a disciplina seria ministrada e minha primeira vez dando aulas sobre quadrinhos na universidade.
Resolvi inverter o discurso: como era inevitável parecer bitolado, expliquei desde o primeiro dia que não era função da disciplina bitolar eles, alunos, quanto aos quadrinhos. Mas que a disciplina existia porque os quadrinhos são o exemplo primordial de narrativa visual, que é um dos elementos indispensáveis a uma formação em design, que abasteceria eles de referências e blá blá blá.
Primeira noite: “o que vocês já leram?” Como acontece em qualquer sala de aula deste século, o verbo causava nojo, independente do complemento. Alguns até ficaram em dúvida se o verbo para quadrinhos era mesmo “ler”. Mas enfim: todos lembravam da Turma da Mônica, alguns tinham contato com super-heróis, a menina do fundo tinha jogado fora a coleção do namorado e o rapaz do lado oposto tirou os olhos do notebook para dizer que o pai lia Tex. Do alto de seus 19 anos, em média, todos associavam quadrinhos a algo que ficou no passado.
Foram duas aulas para situá-los quanto à linguagem dos quadrinhos — partindo do exemplo na folha de rosto do Jimmy Corrigan e de uma leitura comentada do Scott McCloud —, definir o que é HQ e fazer um apanhado geral de como chegamos aos quadrinhos que temos hoje. Que incluem a Turma da Mônica Jovem, mas também Umbigo sem fundo, Persépolis, o Pinóquio do Winshluss, os independentes apaixonados, os brasileiros premiados, os webcomics, os que são feitos só para virar filme, o 1/3 da população francesa que lê bande dessinée, os mangás que vendem milhões e por que os argentinos são melhores que nós.
Foi uma disciplina curta: nove encontros, toda quarta-feira. A ementa pedia para situar os alunos quanto às particularidades dos principais mercados mundiais de quadrinhos e o Brasil. Tivemos uma aula para falar das tiras nos EUA, outra só para comics, outra sobre mercado franco-belga, outra sobre o Japão e uma última sobre tupiniquins. Sobrou o tempo certo para orientar e apresentar o projeto final: fazer uma HQ sobre um quadrinista nacional à escolha do aluno, de preferência a partir de uma entrevista, e relacionar sua obra ao desenvolvimento histórico das HQs e influências.
Usei dois métodos de avaliação. Primeiro, sessões de leitura: a segunda metade de todas as aulas era reservada para eles lerem e folharem quadrinhos relacionados ao tema discutido na primeira metade. Estranho, mas me auto-justifiquei que, se fosse aula de cinema, estaríamos assistindo filmes. Eu levava minha própria coleção, dentro de uma mala (toda quarta-feira alguém me perguntava para onde eu ia viajar, eu dizia que a mala estava cheia de livros e a pessoa ficava atônita). Alguns liam, outros fingiam, outros iam embora. Só não emprestava para levar para casa, mantendo uma desconfiança racional dos bárbaros.
O outro método foi de avaliação da leitura: citando como referência o Quadrinhos em Quadrinhos do Audaci Junior, pedia que eles fizessem resenhas em quadrinhos. Valia bonequinho de palito, mas tinha que ser narrativa de HQ. Servia inclusive de ensaio para a disciplina que teriam logo depois da minha, uma oficina de produção de HQ. Teve resultados legais, como a menina que resenhou Minha vida do Crumb no estilo do Crumb, mas teve outros meio dúbios, como o cara que entregou duas resenhas com a página idêntica, mudando só o texto. Reconheci a sagacidade, porém, de ele justificar com o Dinosaur Comics.
Na penúltima aula, fizemos um balanço. Todos se disseram com a cabeça mais aberta para a variedade das HQs. Perguntei o que haviam lido naqueles dois meses, e o que ainda gostariam de ler. Fiquei surpreso com os que queriam mais Will Eisner. Outros se diziam maravilhados com Little Nemo. Tinha uma ala que queria mais Crumb, outra que queria Rafael Grampá e Danilo Beyruth. Tinha o garoto emo que quer comprar todas as coleções dos Peanuts e a aluna que faz ilustrações de livros infantis e achou Macanudo uma revelação.
Mas o que me impressionou foi o depoimento da menina com roupas de menino que, depois de dois meses de mudez e saídas no meio da aula, engatou um discurso sobre Fun Home (“e nem sabia que ela era lésbica quando eu peguei”, justificou) e como via seus próprios questionamentos sobre a religião e o universo em O gato do rabino. E que, apesar de ler bastante, só via HQs como coisa de criança até então. Pareceu um discurso engasgado há tempos, que só estava esperando alguém perguntar. Claro que é difícil avaliar a sinceridade de alguém que precisa de nota, mas aquilo me soou sincero. E que os quadrinhos — e as aulas — fizeram alguma diferença.
* * * * *
Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário