segunda-feira, 10 de outubro de 2011

JOÃO DONATO: DE VOLTA PARA O FUTURO por Tárik de Souza - PARTE I




Nascido em 17 de agosto de 1934, num dos antigos territórios da federação brasileira, o Acre, encravado na Amazônia, conquistado à Bolívia no século XIX após árduas batalhas bélicas e diplomáticas, João Donato de Oliveira Neto estava destinado a um percurso incomum, como o de suas origens. Filho de um piloto de avião e capitão da Polícia Militar foi criado numa família de pendores artísticos amadores. Mas as coisas começaram a mudar quando a Polícia Militar do Acre foi extinta e os Oliveira mudaram-se para o Rio. A irmã mais velha, Eneyda, estudava piano, o caçula, Lysias Ênio, interessava-se por poesia e bem mais tarde viria a letrar algumas composições do filho do meio, João Donato. Este, começou batendo panela e tocando flautinha de lata até ganhar um acordeon num Natal. Quando emigrou para o Rio, então capital do país, já dominava o instrumento, mas o pai o queria aviador, e o matriculou no tradicional Colégio Lafayette, na Tijuca.



À FRENTE DE SEU TEMPO



Acontece que João Donato sempre esteve à frente de seu tempo. O primeiro a perceber isso, ainda que por vias tortas, foi o grande compositor Ary Barroso, que o barrou em seu programa de calouros. "Nada de garoto prodígio aqui", cortou o renomado autor do hino "Aquarela do Brasil", descartando, com sua folclórica ranhetice, o concorrente ainda de calças curtas. Mas a seiva musical corria forte nas veias do acreano. Em pleno reinado do baião nordestino, o rapazola de apenas 15 anos, já empunhava a sanfona no programa "Manhas na roça", do paraibano Zé do Norte, futuro autor da trilha sonora do filme "O cangaceiro", de Lima Barreto, sucesso internacional. Nos intervalos dos programas, na rádio Guanabara, tocava seu 120 baixos informalmente no regional do flautista Altamiro Carrilho. O titular do cavaquinho do grupo, Duílio Cosenza chamou sua atenção pelos acordes "que assustavam todo mundo", como lembrou em entrevista ao songbook de sua obra, produzido por Almir Chediak. O humorista Chico Anysio, que também trabalhava na rádio, apelidou Duílio de "Stan Kenton do cavaquinho". O maestro americano, de Wichita, Kansas, que viveu entre 1912 e 1979, intitulava seu estilo "progressive jazz" e seria uma das inspirações de Donato ao logo da vida musical, junto com o impressionista francês Claude Debussy (1862-1918), seu guru harmônico. No final dos anos 40, o precoce acreano também batia ponto nos encontros de dois fã-clubes rivais, o Frank Sinatra-Dick Farney e o Lúcio Alves-Dick Haymes, cantores intimistas a quem reverenciava, enquanto propunha mudanças no curso da música vigente, ao lado de outros freqüentadores como Nora Nei, Johnny Alf e Luis Bonfá. Sua primeira experiência em conjunto vocal, foi no Namorados (ex-da Lua), no posto do ídolo Lúcio Alves. Depois aliou-se a dois integrantes de Os Cariocas, Severino Filho e Badeco, num quarteto vocal escalado para acompanhar Vanja Orico (estrela de "O cangaceiro") no Copacabana Palace, junto com um certo João Gilberto, que conheceu em outro grupo vocal, Os Garotos da Lua. O primeiro disco com seu nome, "Chá dançante", foi gravado, aos 22 anos, sob direção musical de um iniciante Tom Jobim. O mesmo que, um ano antes, tocara piano num histórico disco solo de Luís Bonfá, onde Donato, ainda ao acordeon, inaugurava a nova bossa com sua enviesada "Minha saudade", composição mais tarde letrada por João Gilberto.

OÃO DONATO: DE VOLTA PARA O FUTURO por Tárik de Souza - PARTE I




Nascido em 17 de agosto de 1934, num dos antigos territórios da federação brasileira, o Acre, encravado na Amazônia, conquistado à Bolívia no século XIX após árduas batalhas bélicas e diplomáticas, João Donato de Oliveira Neto estava destinado a um percurso incomum, como o de suas origens. Filho de um piloto de avião e capitão da Polícia Militar foi criado numa família de pendores artísticos amadores. Mas as coisas começaram a mudar quando a Polícia Militar do Acre foi extinta e os Oliveira mudaram-se para o Rio. A irmã mais velha, Eneyda, estudava piano, o caçula, Lysias Ênio, interessava-se por poesia e bem mais tarde viria a letrar algumas composições do filho do meio, João Donato. Este, começou batendo panela e tocando flautinha de lata até ganhar um acordeon num Natal. Quando emigrou para o Rio, então capital do país, já dominava o instrumento, mas o pai o queria aviador, e o matriculou no tradicional Colégio Lafayette, na Tijuca.



À FRENTE DE SEU TEMPO



Acontece que João Donato sempre esteve à frente de seu tempo. O primeiro a perceber isso, ainda que por vias tortas, foi o grande compositor Ary Barroso, que o barrou em seu programa de calouros. "Nada de garoto prodígio aqui", cortou o renomado autor do hino "Aquarela do Brasil", descartando, com sua folclórica ranhetice, o concorrente ainda de calças curtas. Mas a seiva musical corria forte nas veias do acreano. Em pleno reinado do baião nordestino, o rapazola de apenas 15 anos, já empunhava a sanfona no programa "Manhas na roça", do paraibano Zé do Norte, futuro autor da trilha sonora do filme "O cangaceiro", de Lima Barreto, sucesso internacional. Nos intervalos dos programas, na rádio Guanabara, tocava seu 120 baixos informalmente no regional do flautista Altamiro Carrilho. O titular do cavaquinho do grupo, Duílio Cosenza chamou sua atenção pelos acordes "que assustavam todo mundo", como lembrou em entrevista ao songbook de sua obra, produzido por Almir Chediak. O humorista Chico Anysio, que também trabalhava na rádio, apelidou Duílio de "Stan Kenton do cavaquinho". O maestro americano, de Wichita, Kansas, que viveu entre 1912 e 1979, intitulava seu estilo "progressive jazz" e seria uma das inspirações de Donato ao logo da vida musical, junto com o impressionista francês Claude Debussy (1862-1918), seu guru harmônico. No final dos anos 40, o precoce acreano também batia ponto nos encontros de dois fã-clubes rivais, o Frank Sinatra-Dick Farney e o Lúcio Alves-Dick Haymes, cantores intimistas a quem reverenciava, enquanto propunha mudanças no curso da música vigente, ao lado de outros freqüentadores como Nora Nei, Johnny Alf e Luis Bonfá. Sua primeira experiência em conjunto vocal, foi no Namorados (ex-da Lua), no posto do ídolo Lúcio Alves. Depois aliou-se a dois integrantes de Os Cariocas, Severino Filho e Badeco, num quarteto vocal escalado para acompanhar Vanja Orico (estrela de "O cangaceiro") no Copacabana Palace, junto com um certo João Gilberto, que conheceu em outro grupo vocal, Os Garotos da Lua. O primeiro disco com seu nome, "Chá dançante", foi gravado, aos 22 anos, sob direção musical de um iniciante Tom Jobim. O mesmo que, um ano antes, tocara piano num histórico disco solo de Luís Bonfá, onde Donato, ainda ao acordeon, inaugurava a nova bossa com sua enviesada "Minha saudade", composição mais tarde letrada por Jobim."

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