segunda-feira, 10 de outubro de 2011

TORPEDOS PARA UM SESSENTÃO - Paulo Eduardo de Vasconcellos - 28.09.2004 Não é qualquer sessentão que recebe torpedos como este: "Tenho 14 anos e te amo profundamente. Sei que é bem difícil você ler isso, mas não se assuste. É tanta paixão, amor, admiração, que faz até mal às entranhas." As palavras copiosas são de Raiza Lopes. Estão no livro de visitas da exposição "Chico Buarque - o Tempo e o Artista", em cartaz na Biblioteca Nacional, no Rio. A obra, aliás, já está no segundo volume. O primeiro foi todo preenchido em suas 200 páginas por recadinhos capazes de despertar aquela gargalhada caudalosa do destinatário. Chico Buarque, 60 anos, olhos e sorriso de eterno garoto que toda mãe sonhou ter como genro, é símbolo sexual - de netinhas a vovozinhas. Raiza não está sozinha. "Chico, gostaria de te encontrar só para 'ver a cor dos seus olhos'", escreveu assim mesmo, entre aspas, como que a insinuar a possibilidade de querer ver outras coisas, Maria do Carmo, 68 aninhos de pura malícia. "Ai, queria ser tua Carolina, Beatriz, Rita, Lígia, até Januária aceitava, só para não te ter apenas nos meus sonhos. Me liga", intima A.S., que mantém o recato apenas nas iniciais. Telefone e email estão lá. Chico vai ter que fazer alguma coisa ao receber os livros. Que as mulheres andam reclamando da falta de homem no mercado não é de hoje. Que tenham escolhido um avô e pai de família para se oferecer com tanto despudor já é outra história. Magoa o resto da classe. Mas como já dizia Jorge Maravilha, cheio de razão, mais vale uma filha - ou uma mãe ou uma avó - na mão do que dois pais sobrevoando. Não existe pecado. As mulheres, que passaram a vida a ouvir o sabiá, caíram na cantada: não existe pecado do lado de baixo do Equador. Suspeita-se que tenha sido a primeira lição que transmitem às filhas. "Chico, queria ser a sua timidez para estar sempre junto de você." Trata-se de apenas mais uma das tantas dedicatórias insinuantes, todas com o jamegão caprichado, datado em 30 de julho, por Marly Sant'Anna. Sonsa. Chico só é tímido na mitologia, mas ela parece louca para virar Joana Francesa. Disputa a faixa de Miss Persistência com Michelle Botelho. Comecinho de agosto ela foi ver a mostra. Deu uma volta e abriu o verbo. Mais uma volta e outra dedicatória. Na terceira quase foi barrada pelo segurança. "Chame o ladrão, chame o ladrão", ameaçava, como no pesadelo de Julinho da Adelaide. O homem de preto não entendeu. Foi aí que ela pegou a caneta e deu por terminado o trabalho. "Sou eu de novo: sabe aquela sensação estranha de que não se disse tudo? Pois é... faltou o óbvio: eu te amo!" Saiu de fininho. Só o segurança não viu. Desde a inauguração de "Chico Buarque --- o Tempo e o Artista", em 26 de julho, já passaram pela Biblioteca Nacional cerca de 15 mil pessoas. Dá umas trezentas por dia. Duzentas e quarenta, por aí, são mulheres. Matemática, de olhômetro com sensibilidade feminina, de uma das moças da recepção. "Tem gente que sai daqui chorando." Ali mesmo tem mulher que se debulha em lágrimas até ficar com dó de si. Camarim de "Bastidores", com Cauby Peixoto cortando os pulsos, perde. "Chorei, chorei, chorei de tanta emoção", encerra a mensagem de Vilma Silva, de 49 anos. Algumas vão mais longe. "O seu sorriso me pára", declara Maria Lopes Mayrink. Outras ainda mais. "Seus olhos são duas pérolas que me fascinam", derrete-se Liz Duarte. "Melhor que isso, só encontrá-lo pelas ruas", declara-se Janete Flor de Maio Fonseca, com intenções de quem pode até ser de maio, mas não de flor que se cheire. Mulheres de Atenas. Nem todas chegam ao êxtase como Cátia Borges. "Chico, como é bom ser mulher e saber que você existe." Eliane Abdallag é mais uma dessas mulheres de Atenas: "Queria que meus filhos fossem seus também." E se o marido lê um negócio desses? O da assanhadinha Maria do Carmo um dia quis agradar a mulher e deu de presente um disco (atenção: de vinil) de Chico Buarque. O resto ela conta, sem qualquer constrangimento, no livro de visitas. "Sem a capa, claro, por causa da sua fotografia." "Homem é tudo igual. Só Chico Buarque é diferente", clareia Maria do Rosário Fantini, 72 anos, que na quinta-feira aproveitou para se refugiar do calor que fazia no centro da cidade no ar condicionado da Biblioteca Nacional. "Ele canta a nossa alma e acende a nossa paixão." Podia ter escolhido qualquer uma das frases para deixar um torpedo, mas preferiu a poesia silenciosa do amor platônico. Homens não entendem dessas coisas. Veja lá se isso é declaração que se deixe: "Chico, quando meu filho nascer vai se chamar Francisco, mas vai torcer para o Botafogo", provoca Diogo Simas. Espere sentado, caro amigo Alvinegro, que se a mulher inventa de fazer a cabeça da criança ela acaba tricolor. Se vier de olhos claros, desconfie. Praga pior, ainda que bem intencionada, só a de Marcos Santos: "Chico Buarque, sonho com você governante deste país. Pense nisso!" Espere sentado. Vai passar. Do menino que anunciou num bilhete para a avó que quando ela morresse ia ouvi-lo do céu cantando no rádio ao escritor que hoje encontra na música apenas um descanso para a paixão pela literatura, está tudo retratado em "Chico Buarque -- o Tempo e o Artista". Há manuscritos dos primeiros versos, os gibis desenhados à mão, as fotos com os parceiros mais queridos, as capas dos discos inesquecíveis. Organizada pelo sobrinho Zeca Buarque, filho de Cristina, irmã de Chico, a exposição não chega a ser uma unanimidade. Só o personagem escapa. "Tem gente que escreve que a exposição não está à altura do artista, mas nada, nenhuma linhazinha contra o artista", admira-se Zeca. Chico sempre foi a exceção à regra lapidada por Nélson Rodrigues para cutucá-lo de que toda a unanimidade é burra. "Sou uma das 'anônimas' do passado. Continuo na platéia, aplaudindo de pé, como na época dos festivais", escreveu Rosana, sem deixar sobrenome nem email. Chico Freud. Os dois livros de visitas serão entregues a Chico Buarque ao fim da exposição. Até 26 de outubro ainda há tempo para quem quiser conhecer ou rever a trajetória de um dos mais brilhantes e coerentes músicos brasileiros. Torpedos são sempre bem-vindos - como diz uma das mais líricas canções do homenageado. O que ele mais gosta desde criança, afinal, é rir. Chico vai encontrar motivos de sobra nos livros de visitas. A lista é imensa e variada. Tem coisas assim: "Chico, você é arte", deduz Regina, uma paulista que visitou a mostra em 29 de julho. "Chico, somos da mesma idade. Que bom!", comemora Uiara Guimarães, de Nilópolis. "Chico, meu avô também é pernambucano", revela Carla, do Amazonas. Tem coisas assado: "Chico, fui privilegiada por te encontrar no calçadão do Leblon e ainda fui beijada por você. Estou aqui para conhecer um pouco mais da sua vida. Hoje posso morrer em paz", entrega-se Waldívia Carvalho de Albuquerque, 67 anos. "Nasci na época certa. Morro alegre sobre o som de suas falas, cantadas e escritos", Exagera Rita de Castro, sem revelar a idade. "Graças à vida, és Chico Buarque de Holanda", declama a gaúcha Sylvia Gomes, que esqueceu um "l" no sobrenome do artista. E tem coisas que até a imaginação de Chico duvida: "Chico, eu te amo", declara-se Pedro Simão Nunes. "Chico, isso é um absurdo. Ele é meu namorado. Estou com ciúmes", reclama seu quinhão Carolina Costa, algumas linhas abaixo. "Chico, hoje fui traída pelo meu amor. Obrigada por me consolar", desabafa Ana Olívia. Se cansar dos livros e da música, já se sabe: Chico pode tratar da legião de fãs do divã. Lobo mau perde.

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