Notas sobre o debate da TV Bandeirantes para a PMSP
Enviado por Wagner Iglecias, sex, 03/08/2012 - 02:06
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A TV Bandeirantes, como faz há anos, deu nesta 5a. feira o pontapé inicial no ciclo de debates entre os candidatos à prefeitura das mais importantes cidades do país. No caso de São Paulo, apesar da louvável iniciativa, tivemos um debate morno. O formato, inevitável, prevê a participação de todos candidatos e reserva pouco tempo para perguntas, réplicas e tréplicas entre eles. Além disso faltou a oportunidade de que os jornalistas pudessem replicar as respostas dadas pelos candidatos às perguntas que dirigiram a eles. Ao longo do encontro muitos temas relativos à cidade foram tocados, mas dado o formato adotado, quase todos de maneira um tanto rápida. Polêmicas e provocações ocorreram aqui e ali, mas em nenhum momento a temperatura aumentou de forma que os candidatos pudessem se expor para além de uma margem de segurança previamente traçada por seus equipes.
Dentre os considerados pequenos candidatos Carlos Gianazzi foi o que mais se destacou. Como já era esperado de um candidato do PSOL, fez cobranças duras sobre a relação entre ética e política a Fernando Haddad, do PT. Já no início do encontro citou o Mensalão e lembrou da aliança petista com Paulo Maluf. Mais ao final do debate citou a Privataria Tucana e acusou Serra de “massacrar o funcionalismo público de São Paulo”. Quase um franco-atirador, desperdiçou no entanto a chance de debater com Haddad e com Gabriel Chalita (PMDB) a temática da educação, que é tão cara aos três.
Soninha (PPS), com seu jeito “gente como a gente”, criticou o sistema de saúde pública da cidade e elogiou a proposta petista de integração das bicicletas ao sistema de bilhete único. Mais tarde acabou fazendo um bate-bola com Russomano (PRB) para criticar Maluf, desafeto de ambos, e, por extensão, atingir Haddad. Paulinho da Força (PDT) teve uma participação protocolar e Levy Fidelix (PRTB), conseguiu ser perguntado tanto por Serra (PSDB) quanto por Haddad sobre a questão do transporte público. Surfou em cima da notoriedade inesperada que obteve ali e ainda saiu pagando uma bronca geral, ao criticar os concorrentes por supostamente não pensarem de onde virão os recursos para bancar as tantas obras prometidas por eles nas mais variadas áreas. Fidelix foi o “figuraça” do encontro e deve ter ido dormir feliz por aquela que provavelmente foi sua melhor performance nos tantos debates de que já participou em todos estes anos.
Por sua vez Gabriel Chalita que é, dentre todos os candidatos, o que melhor domina a arte da comunicação televisiva, saiu-se bem. Em meio à eterna rinha entre PSDB e PT, tão típica da política paulista e paulistana, bateu várias vezes na tecla de que pode ser um prefeito aliado tanto do governador Alckmin, de quem foi secretário e é próximo, quanto da presidente Dilma, por conta da aliança de seu partido com o PT e a presença de Michel Temer, presidente de seu partido, na vice-presidência da república. Numa eleição onde tucanos e petistas não deixam muito claro se, em caso de vitória, pretendem fazer amplas parcerias com os governos federal e estadual, respectivamente, Chalita leva vantagem junto aquele eleitor mais pragmático, que pouco se interessa por ideologias ou brigas partidárias e quer mais é saber como a prefeitura poderá resolver os problemas mais cotidianos da cidade. E, para que não se diga que Chalita fica sempre muito limitado ao papel de bom moço, ou de genro que toda sogra gostaria de ter, ressalte-se que ele foi pra cima de Serra ao final do encontro, criticando de forma dura a questão da educação na cidade nos últimos oito anos.
Já Russomano aparentava cansaço desde a chegada aos estúdios da Bandeirantes. Visivelmente nervoso já na primeira resposta, saiu-se com a internet como a grande solução para a questão da saúde no município. Ao longo do debate foi melhorando, mas não teve o desempenho esperado para o experiente apresentador de televisão que é e para um candidato que angaria no momento 26% das intenções de voto, segundo a mais recente pesquisa do Instituto Datafolha. Precisará melhorar bastante sua atuação nos próximos encontros, dado que contará com muito menos tempo que os principais adversários no horário eleitoral e terá nos debates uma oportunidade de extrema importância para conquistar o eleitor.
Fernando Haddad, do PT, saiu-se bem para quem participava do primeiro debate eleitoral de sua carreira política. Se não foi o orador empolgante que alguns esperavam, também não comprometeu. Lembrou o telespectador sobre sua experiência no setor público e citou os apoios de Dilma e Lula. Mas fugiu da incômoda questão levantada por Gianazzi sobre o apoio de Maluf, “um procurado pela Interpol”, como lembrou o deputado psolista. Remeteu a questão à arena dos partidos, e de fato nem poderia ser muito diferente, posto que é um apoio que arranha, ainda mais, a imagem que o PT cultivou durante anos de ética na política. E também não alongou-se muito no outro tema espinhoso dirigido a ele por seu ex-colega de partido, e mais tarde por um dos jornalistas, que é o Mensalão. Parece claro que Haddad passará a campanha pagando por um “pecado” que não é seu, tendo de lidar com um tema com o qual não tem nenhuma relação e arcando com o preço de algo que se imputa a correligionários seus. A estratégia da agenda propositiva, como começou a demonstrar neste debate, lhe será de utilidade estratégica para não ficar enredado nestes dois temas que certamente ainda lhe serão muito cobrados.
José Serra, por fim, foi o grande vencedor do debate. Não que tenha sido o participante de melhor desempenho, mas lembremos que há alguns anos líderes em pesquisas nem se davam ao trabalho de comparecer a estes encontros. E se iam, tiravam proveito de discussões monótonas ou versavam sobre questões modorrentas, tocando a bola de lado e esperando o tempo passar. Para Serra um debate pouco acalorado, como este de ontem, é o melhor dos mundos. Nem mesmo quando foi acusado por Gianazzi de massacrar os funcionários públicos durante sua gestão ou quando teve seu nome associado, também pelo candidato do PSOL, à Privataria Tucana, pediu direito de resposta, como seria de se esperar. Conta com a passagem para o 2º turno e de fato não tem porque se desgastar até lá. O candidato tucano, no entanto, protagonizou dois momentos marcantes no encontro desta 5a. feira. O primeiro foi quando disse textualmente que Alexandre Schneider, homem de sua confiança e seu candidato a vice, foi Secretário da Cultura, quando se sabe que Schneider foi durante mais de cinco anos Secretário da Educação do município. Deslize ou confusão proposital para não ser ainda mais alvejado pelas críticas de Gabriel Chalita à gestão da educação municipal em São Paulo? E o segundo momento, daqueles que ficam na memória de quem gosta de debates eleitorais, Serra protagonizou com o candidato do minúsculo PRTB, quando lhe disse o seguinte: “Levy Fidelix, você tem ideias arejadas para o transporte”. Levy não se fez de rogado e tirou onda em cima. Quem diria que um dia veríamos o ex-ministro do Planejamento, o tão proclamado melhor ministro da Saúde da História deste país, ex-prefeito, ex-governador e duas vezes candidato a presidente da república fazendo um bate-bola com o homem do aerotrem, considerado por tantos um personagem político folclórico? Talvez o fato de ambos serem sempre candidatos, e já terem se encontrado em tantas campanhas, tenha despertado esta surpreendente identificação. Como diria aquele famoso locutor esportivo, “que fase!”.
Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor do Curso de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.
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