O novo desenvolvimento e o papel do Estado - 6

Coluna Econômica
Uma das dificuldades maiores de um certo pensamento econômico midiático é a incapacidade de enxergar o todo e correlacionar fatores, mesmo quando as ligações são óbvias.
É sintomático desse tipo de pensamento binário a contraposição entre redução de juros e demais fatores de competitividade - como investimentos em infraestrutura, reformas estruturais, inovação, tecnologia etc. Agem na base do ou-ou, como se não houvesse um todo, do qual todos esses fatores fossem parte integrante.
Contribuíram em muito para esse simplismo os trabalhos de Fábio Giambiagi e Armando Castellar, entre outros.
Durante anos e anos, conduzidos pelas simplificações de Giambiagi, a mídia especializada repetiu o bordão de que, ao invés de discutir juros e câmbio, a política econômica deveria se concentrar apenas nos fatores diretos de competitividade, as tais reformas.
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Tome-se a questão da produtividade nos investimentos. O que significa isso: "produtividade no investimento? Significa poder investir mais com menos recursos.
Na hora de montar seus planos de negócio, as empresas estimam o fluxo de resultados do investimento e trazem a valor presente de acordo com determinada taxa de retorno - que guarda relação direta com a taxa de juros básica da economia.
Suponha um investimento em infraestrutura por 25 anos. Se a taxa de juros básica cair de 12,5% para 8,5% ao ano, a produtividade do investimento aumenta em 35%. Ou seja, o mesmo projeto, com a mesma expectativa de resultados, conseguirá levantar 35% a mais de financiamento pagando o mesmo valor.
Se houver desoneração de impostos, a produtividade será maior ainda.
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Mais que isso.
A taxa básica de juros estabelece um corte nos investimentos. Só são viabilizados investimentos que suplantem esse indicador (mais uma taxa de risco, proporcional à volatilidade do negócio). Ao derrubar a taxa básica, novos projetos são incluídos na carteira de investimentos.
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Até agora, falou-se do investimento da ótica da empresa. Quando se vai para o investidor - especialmente os grandes fundos de pensão -o quadro é mais amplo ainda.
Os fundos têm uma exigência de taxa atuarial de no mínimo 6% ao ano para dar conta de suas obrigações - isto é, da capitalização das contribuições garantir o pagamento futuro dos benefícios.
À medida em que a taxa básica vai caindo, a renda fixa deixa de proporcionar essa garantia. Parte da carteira dos fundos terá que ser direcionada para investimentos de capital. Juntam-se, então, as duas pontas: a viabilização de novos investimentos e a disponibilidade de recursos de longo prazo.
Nos próximos anos, apenas a não renovação da carteira de títulos públicos (pela redução da relação dívida/PIB) disponiblizará R$ 50 bi dos fundos para outros setores. Sem contar o crescimento vegetativo da carteira de contribuições.
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Não se fica nisso.
A redução de juros libera recursos orçamentários para serem aplicados em inovação, desoneração tributária, educação. Além de pressionar menos o câmbio, melhorando a relação de preços entre produção interna e importação.