quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Andreas Kisser e Titãs no Altas Horas




Uma das coisas chatas na literatura é que quando um escritor admira outro, não pode fazer uma jam session com ele. A não ser que os dois sejam músicos também. Digo isso porque vivo refletindo ― isso quando não estão me perguntando ― sobre as diferenças entre os ofícios de escrever e de tocar música.



O Reinaldo Moraes, por exemplo, que é um escritor que eu admiro e venero. Eu adoraria fazer um som com o Reinaldo. Como faço com o Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura e um dos maiores guitarristas de heavy metal do mundo. Volta e meia o Andreas participa de um show nosso, e pode inventar na hora um solo para uma música dos Titãs. Eu não posso simplesmente pegar um exemplar do Pornopopeia, do Reinaldo, e sair rabiscando solos prosísticos aos pés das páginas. Quer dizer, até posso, mas não me parece muito divertido. É verdade que eu e Reinaldo chegamos perto de uma jam quando eu escrevia o meu No buraco. Ele não só deu umas belas soladas no meu livro (não creditadas, afinal era só uma jam, certo?) como corrigiu algumas blue notes minhas que estavam fora do tom. Notas essas que chamamos, os músicos, de zé bemóis.



Os e-mails que troco com o Reinaldo também não deixam de ser tão imaginativos e irresponsáveis quanto os melhores solos que improviso de vez em quando com o Andreas. Mas como repetir, na literatura o prazer que me proporcionou tocar “Sunshine of your love”, do Cream, com o Andreas? Encontrar o Reinaldo num bar para recitarmos em uníssono as Notas de um velho safado, do Bukowski? Pode ser, dependendo do estímulo alcoólico…



Divago sobre essas bobagens porque agosto chega como uma contagem regressiva para o Rock in Rio. Em setembro boa parte do meu tempo será dedicada a ensaios, já que abriremos o festival numa apresentação conjunta com os Paralamas do Sucesso e orquestra. Faremos também, na última noite, uma apresentação com o Xutos & Pontapés, uma banda histórica do rock português. E desde já tenho ensaiado com o Milton Nascimento a abertura do festival, antes que Titãs e Paralamas comecem a tocar, quando acompanharei o mitológico cantor e compositor mineiro numa interpretação de um clássico de uma banda inglesa dos anos 70 (é surpresa, e não posso revelar, por contrato, qual é a música).



Essas coisas a literatura não me proporciona. Em compensação, músico nenhum me diverte tanto quanto o Reinaldo Moraes com seus e-mails.



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