Hemingway dizia que o telefone é o pior inimigo do escritor. E no tempo dele ninguém poderia imaginar que os telefones celulares seriam inventados. Se o telefone em si é o inimigo, os celulares são a sua frota aérea. Já tentei não ter um telefone fixo no meu escritório, mas era atacado a toda hora por telefones móveis e celulares que entravam voando pela janela.
2- Rubem Fonseca disse que toda a solidão não é suficiente para um escritor. Se a presença humana é o inimigo, filhos pequenos são seus mísseis certeiros. Quando os meus eram pequenos, me fechava no escritório disposto a me entregar a libidinagens com a Literatura, aquela impaciente senhora ninfomaníaca. Ouvia as vozinhas inocentes me chamando do corredor: “papai!”, e a culpa destruía minha concentração. Mais tarde, depois que dormiam, minha energia literária — e minha capacidade de manter o olho aberto ou o pau literário ereto — estava reduzida a zero.
3- Saramago afirmou uma vez que o Nobel tinha quase aniquilado sua concentração para escrever. Se os prêmios são o inimigo (e isso eu não posso saber, pois nunca ganhei um mísero prêmio literário), as feiras e festas literárias são seus agentes duplos. Você vai a uma feira dessas achando que vai falar de literatura, e quando chega lá acaba enchendo a cara com um monte de escritores e falando de tudo — futebol e mulher incluídos —, menos de literatura.
4- Patrícia Melo me confidenciou que escreve ouvindo música. Eu preciso de silêncio absoluto. Se o barulho é o inimigo, ruídos antes imperceptíveis são seus espiões infiltrados. Toda vez que fecho as janelas do meu escritório para escrever, descubro que os ponteiros do relógio, o ar condicionado desligado, a lâmpada acesa, a lagartixa na parede e meu próprio coração fazem um barulho do cacete.
5- Gabriel García Márquez ensina que é preciso jogar fora as páginas de que mais nos orgulhamos, aquelas que achamos muito bem escritas. Se a autocomplacência é o inimigo, o autoconhecimento é a bomba atômica: não encontro em meus textos uma página tão bem escrita que mereça ser jogada fora.
6- Marçal Aquino me disse que escreve à mão. Se os processadores de texto são o inimigo, meu computador é Átila, o huno. Basta eu estar minimamente inspirado — apto a enfileirar uma frase após a outra, independente de qualquer sentido — que meu computador inventa de dar pau.
7- Vinicius de Moraes disse que o uísque é o cachorro engarrafado. Se a sobriedade — e a tensão do dia-a-dia — é o inimigo, espero que vocês NUNCA leiam as bobagens que escrevo quando estou biritado.
8- Benno von Archimboldi afirma que escrever é a arte de cortar palavras (talvez tenha sido Gertrude Stein. Ou Tolstói. Flaubert. Não, foi Dashiell Hammett!). Se a verborragia é o inimigo, que merda esse On the road está fazendo na minha cabeceira?
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2- Rubem Fonseca disse que toda a solidão não é suficiente para um escritor. Se a presença humana é o inimigo, filhos pequenos são seus mísseis certeiros. Quando os meus eram pequenos, me fechava no escritório disposto a me entregar a libidinagens com a Literatura, aquela impaciente senhora ninfomaníaca. Ouvia as vozinhas inocentes me chamando do corredor: “papai!”, e a culpa destruía minha concentração. Mais tarde, depois que dormiam, minha energia literária — e minha capacidade de manter o olho aberto ou o pau literário ereto — estava reduzida a zero.
3- Saramago afirmou uma vez que o Nobel tinha quase aniquilado sua concentração para escrever. Se os prêmios são o inimigo (e isso eu não posso saber, pois nunca ganhei um mísero prêmio literário), as feiras e festas literárias são seus agentes duplos. Você vai a uma feira dessas achando que vai falar de literatura, e quando chega lá acaba enchendo a cara com um monte de escritores e falando de tudo — futebol e mulher incluídos —, menos de literatura.
4- Patrícia Melo me confidenciou que escreve ouvindo música. Eu preciso de silêncio absoluto. Se o barulho é o inimigo, ruídos antes imperceptíveis são seus espiões infiltrados. Toda vez que fecho as janelas do meu escritório para escrever, descubro que os ponteiros do relógio, o ar condicionado desligado, a lâmpada acesa, a lagartixa na parede e meu próprio coração fazem um barulho do cacete.
5- Gabriel García Márquez ensina que é preciso jogar fora as páginas de que mais nos orgulhamos, aquelas que achamos muito bem escritas. Se a autocomplacência é o inimigo, o autoconhecimento é a bomba atômica: não encontro em meus textos uma página tão bem escrita que mereça ser jogada fora.
6- Marçal Aquino me disse que escreve à mão. Se os processadores de texto são o inimigo, meu computador é Átila, o huno. Basta eu estar minimamente inspirado — apto a enfileirar uma frase após a outra, independente de qualquer sentido — que meu computador inventa de dar pau.
7- Vinicius de Moraes disse que o uísque é o cachorro engarrafado. Se a sobriedade — e a tensão do dia-a-dia — é o inimigo, espero que vocês NUNCA leiam as bobagens que escrevo quando estou biritado.
8- Benno von Archimboldi afirma que escrever é a arte de cortar palavras (talvez tenha sido Gertrude Stein. Ou Tolstói. Flaubert. Não, foi Dashiell Hammett!). Se a verborragia é o inimigo, que merda esse On the road está fazendo na minha cabeceira?
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