O songbook de Chico Buarque que tínhamos publicado havia sido um grande sucesso. Por conta do livro e das partidas de futebol ― minhas reuniões de trabalho com o Chico aconteciam sempre às segundas ou quintas, dias das peladas do Polytheama, das quais eu participava ―, acabamos desenvolvendo uma amizade muito gratificante. Pois certo dia, num momento bem à vontade, disse ao Chico que meu grande sonho seria publicar um livro de partituras de músicas de Tom Jobim e letras dele e de seus parceiros.
Na época, Tom Jobim era meu maior ídolo. É claro que eu adorava escritores como Guimarães Rosa, Drummond, Borges, Calvino entre outros, mas Jobim tinha carne e osso, e estava sempre comigo. Em qualquer momento de entusiasmo ou de melancolia eu podia escutar “Desafinado”,”Samba de uma nota só”, “Águas de março”, “Retrato em branco e preto”, ou “Modinha”. E eu ouvia essas e outras músicas sem parar. Os shows de Tom me levavam a fazer afirmações retóricas, do tipo: “É o maior”, “Viva o povo brasileiro”…
Não me lembro bem, mas muito provavelmente voltando de uma partida de futebol no longínquo bairro do Recreio, em que goleamos o adversário, falei ao Chico sobre meu entusiasmo por Chega de saudade e tantas outras composições da Bossa Nova, e perguntei se ele faria as gestões necessárias para que eu encontrasse com Jobim.
“Posso marcar um encontro teu com o Tom e recomendar a Companhia das Letras, mas eu sugiro que você o veja pela manhã, quando ele está mais concentrado. O ponto de encontro é sempre a churrascaria Plataforma. Um almoço cedo, pode ser?”
Assim foi. Almoço no Plataforma marcado, e eu vários dias sem dormir, enquanto me preparava para o encontro com meu grande ídolo.
Chegado o grande dia, ensaiando o que dizer, eu pensava nos cuidados que deveria tomar para não parecer um fã babão e, nervoso, não conseguia ler uma linha durante o voo, onde, em geral, aproveito cada um dos 45 minutos, sem interrupções, como momentos preciosos para ler.
Quando cheguei no Plataforma, às 11h30, Tom Jobim já ocupava sua mesa tradicional. Me apresentei, tentei ser o menos solene possível, e meu ídolo, muito gentil, apontou para o lugar onde eu deveria me sentar, perguntando logo a seguir:
“Você gosta de cordeiro? O cordeiro daqui é sensacional.”
Bem, durante o almoço todo eu tentei misturar uma conversa agradável com meu objetivo primordial, isto é, convencer Tom Jobim a publicar seu songbook conosco, e não na coleção da pequena editora de Almir Chediak, especializada nesse tipo de livro. É claro que eu tentava fazê-lo sem desmerecer o trabalho do concorrente, mas eu mal conseguia enunciar qualquer coisa a esse respeito. Tom não deixava: sempre que eu tentava falar de trabalho, ele me perguntava o que eu estava achando do cordeiro, ou divagava: “Schuarrrtsss, Schuarrrtsss, Shuarrrtsss… teu nome me lembra ash ondasssshhh de Ipanema”, ele falava, e repetia mais uma vez, “Shuarrtsss….”.
A conversa não saía disso: o chope, o cordeiro e meu nome que lembrava as ondas do mar.
Na sequência do almoço, Tom me convidou para ir à sua casa. No caminho, parou na farmácia que sempre frequentava, onde gostava de passear à toa, examinando as gôndolas e prateleiras, como fazemos com as vitrines nos shoppings, ou com os balcões de livrarias.
Na casa, no alto do bairro do Jardim Botânico, passamos mais um par de horas. Tom me mostrou orgulhoso a incrível vista da baía da Guanabara, o piano, a floresta vizinha e os macacos que vinham buscar petiscos. Conversa de trabalho: zero. A essa altura, já havia desistido dela.
Meses depois, o grande compositor deu uma entrevista no programa Roda Viva, me presenteando com o maior momento de glória da minha vida. Perguntado sobre o seu esperado songbook, Tom respondeu: “O Chico queria que eu publicasse com o Schuarrrtis, mas eu vou publicar mesmo é com o Chediak”.
Apesar da missão publicamente fracassada, demorei para me recuperar da emoção, pensando: “Se um dia cheguei a sonhar com a posteridade, hoje a alcancei, meu nome foi citado por Tom Jobim na televisão”.
* * * * *
Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências
Na época, Tom Jobim era meu maior ídolo. É claro que eu adorava escritores como Guimarães Rosa, Drummond, Borges, Calvino entre outros, mas Jobim tinha carne e osso, e estava sempre comigo. Em qualquer momento de entusiasmo ou de melancolia eu podia escutar “Desafinado”,”Samba de uma nota só”, “Águas de março”, “Retrato em branco e preto”, ou “Modinha”. E eu ouvia essas e outras músicas sem parar. Os shows de Tom me levavam a fazer afirmações retóricas, do tipo: “É o maior”, “Viva o povo brasileiro”…
Não me lembro bem, mas muito provavelmente voltando de uma partida de futebol no longínquo bairro do Recreio, em que goleamos o adversário, falei ao Chico sobre meu entusiasmo por Chega de saudade e tantas outras composições da Bossa Nova, e perguntei se ele faria as gestões necessárias para que eu encontrasse com Jobim.
“Posso marcar um encontro teu com o Tom e recomendar a Companhia das Letras, mas eu sugiro que você o veja pela manhã, quando ele está mais concentrado. O ponto de encontro é sempre a churrascaria Plataforma. Um almoço cedo, pode ser?”
Assim foi. Almoço no Plataforma marcado, e eu vários dias sem dormir, enquanto me preparava para o encontro com meu grande ídolo.
Chegado o grande dia, ensaiando o que dizer, eu pensava nos cuidados que deveria tomar para não parecer um fã babão e, nervoso, não conseguia ler uma linha durante o voo, onde, em geral, aproveito cada um dos 45 minutos, sem interrupções, como momentos preciosos para ler.
Quando cheguei no Plataforma, às 11h30, Tom Jobim já ocupava sua mesa tradicional. Me apresentei, tentei ser o menos solene possível, e meu ídolo, muito gentil, apontou para o lugar onde eu deveria me sentar, perguntando logo a seguir:
“Você gosta de cordeiro? O cordeiro daqui é sensacional.”
Bem, durante o almoço todo eu tentei misturar uma conversa agradável com meu objetivo primordial, isto é, convencer Tom Jobim a publicar seu songbook conosco, e não na coleção da pequena editora de Almir Chediak, especializada nesse tipo de livro. É claro que eu tentava fazê-lo sem desmerecer o trabalho do concorrente, mas eu mal conseguia enunciar qualquer coisa a esse respeito. Tom não deixava: sempre que eu tentava falar de trabalho, ele me perguntava o que eu estava achando do cordeiro, ou divagava: “Schuarrrtsss, Schuarrrtsss, Shuarrrtsss… teu nome me lembra ash ondasssshhh de Ipanema”, ele falava, e repetia mais uma vez, “Shuarrtsss….”.
A conversa não saía disso: o chope, o cordeiro e meu nome que lembrava as ondas do mar.
Na sequência do almoço, Tom me convidou para ir à sua casa. No caminho, parou na farmácia que sempre frequentava, onde gostava de passear à toa, examinando as gôndolas e prateleiras, como fazemos com as vitrines nos shoppings, ou com os balcões de livrarias.
Na casa, no alto do bairro do Jardim Botânico, passamos mais um par de horas. Tom me mostrou orgulhoso a incrível vista da baía da Guanabara, o piano, a floresta vizinha e os macacos que vinham buscar petiscos. Conversa de trabalho: zero. A essa altura, já havia desistido dela.
Meses depois, o grande compositor deu uma entrevista no programa Roda Viva, me presenteando com o maior momento de glória da minha vida. Perguntado sobre o seu esperado songbook, Tom respondeu: “O Chico queria que eu publicasse com o Schuarrrtis, mas eu vou publicar mesmo é com o Chediak”.
Apesar da missão publicamente fracassada, demorei para me recuperar da emoção, pensando: “Se um dia cheguei a sonhar com a posteridade, hoje a alcancei, meu nome foi citado por Tom Jobim na televisão”.
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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências

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