domingo, 23 de outubro de 2011

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Luiz Schwarcz

Depois da feira

20 outubro 2011, 11:15 am

Por Luiz Schwarcz





(Foto por Peter Hirth/Frankfurt Book Fair)



Termino a feira de Frankfurt sempre exausto. Mas aprendi a também gostar desses dias de correria, para os quais tenho destinado apenas palavras negativas.

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A intensa vida social do lobby dos hotéis Frankfurter Hof e Hessischer Hof são muitas vezes o exemplo do que não gosto na feira. Lá os editores se amontoam antes do evento começar, na terça-feira, e depois nos fins da tarde e nas noites entre quarta e sábado.



Jimmy’s, o cigar bar do Hessischer Hof, é o novo point de encontro dos que se cansaram do lobby do Frankfurter Hof, e fervilha até altas horas.



É muito comum editores e agentes ficarem bebendo e conversando até 4h da manhã, mesmo tendo seu primeiro encontro na feira marcado para as 9h30. No ano passado, após vinte e sete anos vindo a Frankfurt, ao perguntar a uma amiga como alguns colegas aguentavam esse pique, ouvi surpreso que era comum o uso de energizantes ou drogas por parte dos mais festeiros. Como não frequento esse lado da feira, e em geral perto da meia-noite estou me preparando para dormir, a minha surpresa foi total, e a risada de quem me contava — o que para ela era mais que óbvio — foi facilmente ouvida nos corredores da feira.



Com tudo isso, porém, tenho que dizer que o encontro com verdadeiros amigos, como Jonathan Galassi, Carol Janeway, Ravi Mirchandavi e Carlo Feltrinelli, entre outros, mesmo em meio a essa balbúrdia social, me deixa feliz.



Afinal, é bom ver o trabalho da editora sendo reconhecido, e realizar que, em meio a uma vida social extremamente retraída, construí grandes amizades nesses quase trinta anos de feiras e viagens como editor.



Um ponto negativo deste ano aconteceu justamente quando uma agente queridíssima, Eva Kolranik, generosamente me elogiava, falando da posição que a Companhia das Letras ocupa, em sua opinião, no mercado editorial brasileiro. Sua interlocutora era uma editora americana com quem tive pouco contato, por conta da falta de interesses editoriais em comum e de uma agenda muito cheia. Ao ouvir os elogios da agente amiga, a editora retrucou, “Ah sim, eu conheço o trabalho e a reputação dele. Deve ser por isso que é tão esnobe também”. Ao que eu imediatamente respondi, “O que se pode dizer ao ouvir um comentário dessa natureza?”, e em seguida saí aborrecido do centro de agentes.



Ainda bem que, logo em seguida, encontrei um outro editor, com quem divido autores, livros e histórias, e abracei-o matando as saudades. Contei-lhe sobre a obra de Drummond na Companhia, e ouvi dele sobre um jovem autor que ele havia descoberto. Bem ao estilo europeu, segurando o seu braço, percorri os pavilhões até a saída. A feira deste ano já estava encerrada para mim.



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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.



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6 Comentários O mercado da arte

13 outubro 2011, 10:49 am

Por Luiz Schwarcz





The fish market, quadro de Joachim Beuckelaer.



Nestes dias andei pensando sobre a relação do autor e do editor. Acho que talvez ela seja tão profunda porque o mercado de livros não é apenas um mercado, como dizem ou pensam alguns colegas. Se o livro não fosse produto de trabalho tão pessoal e subjetivo, se não fosse tão solitária a vida do autor, se não estivesse o editor na posição de protetor e defensor da imaginação do autor, tudo seria diferente. Se não fôssemos, nós editores, os voluntários do primeiro diálogo, profissionais com os quais o autor deve poder contar sempre, a vida seria mais aborrecida. Se não fosse o escritor um criador de mundos, ávido por conhecer outros, por exibir o universo que criou, as coisas não seriam como são. Se o trabalho da escrita não fosse tão intenso, e não criasse um batalhão de minúcias a serem checadas, se o editor não fosse alguém disposto a ouvir o que o texto diz, o mercado sempre viria em primeiro lugar.



É claro que tanto autor como editor querem vender, ter sucesso de estima e material. Nada de errado nisto, pelo contrário. O estranho muitas vezes é ver autores de vanguarda ressentidos pela falta de apelo popular, de resultados comercias. Ou, por outro lado, editores que colocam o mercado na frente de tudo, e esquecem que, para alcançar suas metas, devem em primeiro lugar respeitar os autores.



Esta semana, um autor me contou que ouviu de um editor jovem que pretende constituir seu catálogo rapidamente, que “isto aqui é um mercado como qualquer outro”.



Sou o primeiro a defender a profissionalização do mercado de livros, logo é claro que aceito e defendo as regras de mercado. Procuro, porém, entender as normas específicas do mundo dos livros, as especificidades do trabalho do editor, e as regras que unem, ou desunem estes dois seres estranhos. Há abnegação no trabalho de ambos, especialmente por parte do autor. O editor e sua equipe apenas respondem ao gesto de isolamento e criação autoral, da melhor maneira possível.



Meu jovem colega tem razão, este é mais um mercado, porém com regras éticas próprias e com especificidades relativas ao trabalho literário que não podem ser esquecidas.



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Falo deste tema delicado daqui do aeroporto, à espera do avião que me levará a Nova York, para onde vou a caminho de Frankfurt. Farei uma pré-feira nos Estados Unidos, mas aproveitarei as noites para assistir a dois concertos focados em repertório russo, tendo Tchaikovsky como baluarte central. Vou também à Ópera dos três vinténs de Bertold Brecht.



Durante os dias os livros, e de noite a arte? Não, nada disso, ao visitar agentes terei em mente o que está por trás dos livros que pretendo contratar, e ao ouvir a música sofrida do mestre russo ou o sarcasmo do teatrólogo alemão vou pensar no quanto penaram enquanto profissionais, o que o mercado fez da arte desses senhores — que por sorte sobrevive até hoje, para nosso deleite e alegria.



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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.



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9 Comentários “Estou relendo Proust”

29 setembro 2011, 10:52 am

Por Luiz Schwarcz





Depois de muitos anos tendo minha filha Júlia trabalhando a meu lado na editora, responsável com a Lili pela Companhia das Letrinhas, estou tendo a alegria de vir ao escritório de manhã acompanhado pelo meu filho Pedro, que ajudou a criar, junto com o Matinas e a Janine, os nossos clubes de leitura, e que agora estamos tentando espalhar por todos os cantos do país.



Pedro, que estudou para ser ator, é um entusiasta da literatura, e leva os clubes muito a sério, quer ler tudo o que está sendo discutido nos 25 grupos que temos, e muitas vezes vira as noites com livros ao seu lado. Além disto, junto com a Vanessa Ferrari, cuida dos clubes que começamos a criar em organizações sociais, e, por sinal, eles escreverão a seguir neste blog sobre a nova experiência.



A cada boa leitura que faz para um dos clubes, Pedro se entusiasma tanto que é muito comum ele passar de um livro favorito para outro em questão de dias, ou semanas. Há autores, como Thomas Bernhard, que ele ainda não teve tempo de ler, mas, só pelo que ouviu dizer, mal espera o dia de fazê-lo. Faz pouco tempo, quando íamos juntos para a editora, ele me perguntou: “Pai, você não acha que somos capazes de gostar de alguns autores sem sequer haver lido uma linha do que escreveram?”. Como exemplo citou o grande escritor austríaco de O náufrago. Logo concordei absolutamente, e me orgulhei do gosto que compartilhamos, quase telepaticamente. Li muito menos livros de Bernhard do que gostaria, mas isso é assunto para outro blog, ou outra seção de reclamações contra a vida pouco glamorosa de editor.



Pensando nessa conversa com o Pedro, tentei imaginar se meus livros favoritos continuariam favoritos; ou melhor, se resistiriam a uma releitura depois de tanto tempo.



O que eu pensaria hoje, por exemplo, de Jogo da amarelinha, de Cortázar, que li quando tinha dezesseis ou dezessete anos? Durante muito tempo citei esse livro como O LIVRO da minha vida. Hoje, com centenas de livros ou milhares de páginas lidas, boa parte profissionalmente, lembro-me pouco do enredo de muitos livros que fizeram a minha cabeça.



Admiro-me também daqueles que, quando indagados pelos jornalistas sobre o que estão lendo, respondem citando, a granel, livros que estão relendo. Não sei se já notaram, mas a partir destes depoimentos deveria haver mais “releitores” do que leitores de primeira viagem.



Quisera eu poder “reler” meus antigos livros de cabeceira; livros de uma lista que tenho que citar a cada nova perfil da editora, como se de fato existissem em nossas vidas, os tais livros que nunca se movem, não arredam pé da cabeceira de nossas camas; livros que nunca vão para as estantes ou são simplesmente esquecidos.



Pois eu declaro que só me lembro de haver relido na íntegra três livros: Dom Casmurro, Memórias póstumas de Brás Cubas e Madame Bovary. Não que eu não quisesse reler, e com frequência. Cortázar, Lima Barreto e Dostoiévski encabeçariam minha lista de autores cuja releitura mais desejaria poder fazer no atual momento.



De qualquer forma, enquanto não tenho tempo para as releituras, sigo feliz lendo novos originais, e se possível nas próximas férias vou reler (sic) livros que nunca li, como Ulysses, Guerra e paz, Herzog, Extinção, A Cartuxa de Parma…



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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.



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24 Comentários Alegria em dobro

22 setembro 2011, 10:05 am

jorge amado, josé saramago Por Luiz Schwarcz





Jorge Amado e José Saramago na Bahia. (Fotos por Zelia Gattai, Acervo de Casa de Jorge Amado)



Blog tem destas coisas. Eu terminei de postar o texto anterior e me lembrei que esqueci de alguns detalhes. O mais importante deles é o traje do José que aparece na foto em questão. Saramago foi despreparado para uma celebração baiana, em pleno mês de fevereiro. O calor era tremendo e o nosso futuro Nobel só tinha calças compridas na mala, acompanhadas de camisas sociais. Quando chegamos de Brasília, onde José recebera das mãos de Fernando Henrique Cardoso o Prêmio Camões, e descarregamos nossas malas no pequeno hotel, que ficava no Morro da Paciência, atual casa de Gal Costa, vi Saramago se preparar para a tal feijoada, com belos sapatos, camisa e calça sociais, e tudo pelo social, dali para cima.



Demos boas risadas, Lili e eu, ao vê-lo, suando em bicas, já antes da festa começar. Fui para o quarto, catei meu calção e uma camiseta branca e ofereci ao nosso escritor. E também um par de havaianas, as primeiras a calçar um Nobel, talvez. Na casa de Caetano chegavam os futuros anfitriões, escolhidos por Jorge Amado, para os próximos almoços, além de personagens da vida cultural/pop baiana, como Gilberto Gil, muito calado na festa (andava muito interessado em conversar sobre ciência, seu xodó na época), Carlinhos Brown e muitos outros. Se não me engano Arnaldo Antunes esteve lá também.



Calazans Neto, o grande gravurista baiano, membro honorário do clã de artistas que produzia maravilhosas xilos, muitas delas inspiradas na obra amadiana, estava presente, e encabeçava a lista de anfitriões das casas que visitaríamos nos dias que se seguiram. Sua cozinheira era também uma artista, e nunca vou me esquecer da cara de José lambendo os beiços com os quitutes baianos da casa de Calazans. Carybé, outro dos artistas do tal clã, foi presença constante em todas as festividades. Sua simpatia era contagiante. Afro-argentino-baiano, também filho de Oxossi, inspirava em Jorge piadas carinhosas, e vice-versa. Era comovente a amizade dos dois, escritor e artista, que iluminaram-se mutuamente durante tantos anos.



No dia que Dadá foi escalada por Jorge e Zélia para cozinhar para todo o grupo — e fez deliciosas moquecas cheias de frutas e peixes —, fomos ao ateliê de Carybé e, num determinado momento, resolvemos presentear José e Pilar com uma aquarela. Surpreendemo-nos ao notar que José e Pilar haviam feito o mesmo, comprando outra como presente para nós. A esposa de Carybé perguntou gentilmente se permitiríamos que as tais aquarelas fossem exibidas numa exposição que se daria em Sevilha ou Córdoba, com o que concordamos imediatamente, ainda mais devido às origens andaluzes de Pilar. As pinturas nos seriam enviadas logo após. Nunca as recebemos, e José perguntou por elas para mim, sempre que esteve no Brasil.



O almoço no Tempero de Dadá, então no Pelourinho, foi tão tipicamente baiano que até o escritor local se irritou com a demora. Depois de horas a comida chegou deliciosa, mas antes disso Jorge Amado já havia dito a Dadá:



— Menina, eu sou baiano, mas a demora está demais até para mim. Até para os padrões do Caymmi essa espera está longa demais.



Foi curiosa a conversa de José e Jorge sobre o Prêmio Nobel, até então nunca concedido a um escritor de língua portuguesa, enquanto esperavam uma das refeições, nos banquetes daquela semana. Jorge se declarou eleitor de Saramago, se fosse da Academia Sueca. Saramago retrucou dizendo que fazia questão de ser o primeiro convidado à festa quando o prêmio fosse concedido ao amigo brasileiro. Falou que receberia Jorge Amado em Lanzarote para uma semana de festividades, com comida Ibérica de primeira qualidade. Acho que disse que seria difícil superar Jorge Amado como anfitrião, o que atesto e assino embaixo. Mesmo assim, divirto-me imaginando os festejos ainda mais fartos, do Prêmio concedido à Saramago, na Bahia com Jorge vivo – o que, todos sabemos, infelizmente não aconteceu. E o troco, alguns anos depois, Amado Nobel, e nós nos empanturrando com bacalhaus, paellas, cabritos, acordas…



A alegria em dobro, ou muito mais.







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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.



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10 Comentários O primeiro autógrafo a gente nunca esquece

15 setembro 2011, 10:07 am

Por Luiz Schwarcz





José Saramago e Jorge Amado na casa de Caetano Veloso (ao fundo).





Pedi meu primeiro autógrafo quando tinha entre sete e oito anos. Eu ainda cursava o primário, que é como chamávamos o que hoje se conhece por ensino fundamental 1, e o autógrafo não era para mim, e sim para a minha mãe. Na ocasião, meu melhor amigo se chamava Roberto Amado e era sobrinho do escritor que hoje, com grande orgulho, publico. Costumava passar muitas tardes da semana no apartamento do Roberto, na rua Itacolomy, ou numa linda casa no Pacaembu, jogando futebol com ele e seus primos: Pedro, João e Kiko Farkas. No prédio do Roberto costumávamos distribuir trotes: bilhetes escritos rudimentarmente à mão, ou com colagens de letras tiradas das revistas Manchete e Cruzeiro, como se fôssemos ladrões avisando que os apartamentos em questão viriam a ser assaltados.



Essas foram nossas primeiras ficções – Roberto se transformaria em escritor, mas hoje não tenho notícia se continua escrevendo — epístolas, de gênero policial — talvez com a grande “originalidade” (sic) de avisar as vítimas previamente, tirando todo o suspense. Inacreditavelmente, um dos condôminos se assustou, ou apenas reclamou e levamos uma bela bronca da Fanny, mãe do Roberto, e interrompemos nossas promissoras carreiras literárias.



Pois um belo dia, minha mãe soube que Jorge Amado estaria em São Paulo e me pediu que levasse um livro da sua predileção para que o grande escritor baiano o autografasse. Lembro bem desse dia, minha mãe me falando da importância de Jorge Amado e escolhendo um dos seus livros encadernados em couro marmorizado – todo livro que ela lia e gostava era encapado em lindas encadernações, que eu gostava de tocar e cheirar. Saí de casa com as devidas e repetidas recomendações: “cuidado, meu filho, isso é muito importante para mim”. Lembro também da figura do escritor, de camisa florida e peito meio aberto, num terraço de inverno, assinando o livro para minha mãe e dando um tapinha no meu cocuruto. Pode ser que construí essa imagem a partir das fotos de Jorge Amado que vi ao longo de muitos anos, misturadas à minha imaginação. Mas não importa, aprendi com a antropóloga que habita o meu coração que memórias também se constroem individual e socialmente e, se eu construí essa, sorte a minha, uai! (Infelizmente minha mãe perdeu o tal livro, ou emprestou-o a alguém que nunca o devolveu. Queria ter lido o autógrafo em público, no meu discurso, na festa de comemoração da publicação da obra de Jorge Amado pela Companhia das Letras).



Muitos, muitos anos depois do meu breve encontro infantil com Jorge Amado, já maduro e editor, quando Saramago ganhou o Prêmio Camões e veio recebê-lo no Brasil, fomos, Lili e eu, como penetras privilegiados, para Salvador, na semana de recepção que Jorge Amado e Zélia Gattai propiciaram para o futuro Prêmio Nobel da literatura. Por pouco não ficamos, os dois casais, hospedados na famosa casa do escritor, no bairro do Rio Vermelho. Um ataque de cupim nos surrupiou esse enorme privilégio. No entanto, o infortúnio trouxe uma pequena vantagem. Pelas regras da hospitalidade baiana, e ainda mais da amadiana, Jorge e Zélia encomendaram um almoço a cada dia, na casa de seus grandes amigos, ou melhor, na casa dos amigos que tinham as melhores cozinheiras, e cozinheiros, de Salvador. O primeiro almoço foi na casa de Caetano Veloso – seu irmão Rodrigo é grande chefe e preparou uma deliciosa feijoada baiana, muito diferente da que conhecemos no Sul. Além do mais, por coincidência, estávamos no dia da festa da entrega e a varanda da casa do compositor é o melhor ponto da cidade para acompanhar a linda procissão de barcos que zarpam, cheios de presentes à Yemanjá, em direção ao alto mar.



O almoço começou por volta de quatro da tarde e acabou quase às quatro da manhã. Durante grande parte da noite, Saramago e Lili ficaram dividindo o arquivo do que viria a ser o livro de memórias de Caetano, o Verdade Tropical, em várias partes. Caetano era neófito em computadores e livros e registrava suas memórias em um só arquivo.



Foi praticamente neste almoço que conheci Jorge e sua família, e com ele conversei boa parte do tempo, enquanto a Lili e o José fatiavam o texto do anfitrião. Eu havia contado a historinha do autógrafo para José antes de irmos à Bahia, quando ele me perguntou por que eu não editava a obra de Amado na Companhia. Respondi a José que adoraria que isso viesse a acontecer um dia, mas que também não nutria grandes esperanças.



Pois então, bem no meio do almoço, quando Jorge Amado e Zélia apenas começavam a me conhecer rudimentarmente, José performou a primeira e descarada aproximação entre nós, deixando a ambos, especialmente a mim, ruborizados.



“Jorge, você com certeza conhece a editora do Luiz, e ele me confessou que o seu grande sonho seria um dia publicá-lo, mas é tímido, nunca iria dizê-lo diretamente. Pois estou eu aqui a fazê-lo. Você deveria publicar seus livros na Companhia das Letras”.



Acho que Saramago fez uma graça mencionando o autógrafo que pedi em nome da minha mãe, falou que minha vocação se originara desde então, o que só me deixou ainda mais vermelho. Jorge Amado agradeceu, fez gentilmente algum elogio à Companhia das Letras, mas com as sobrancelhas apontadas para cima e suas mãos abertas para os lados deixou, simpaticamente, claro que isso não viria acontecer tão cedo.



O tapinha no cocuruto e aquele gesto com os olhos e com as mãos talvez tenham sido uma espécie de promessas dos deuses, um ato de sincretismo judaico baiano, prenúncio do grande presente que acabei recebendo dos orixás, principalmente de Oxóssi, o orixá de Jorge Amado, doze anos mais tarde. Foi ele, tenho certeza, que um dia me transformou em editor de Tenda dos Milagres e de tantos livros memoráveis. Obrigado, Oxóssi, Todá Rabá! Na semana que vem eu conto o resto.



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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.



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