Nas curtas férias que tirei do blog e da editora me dediquei apenas à música. Fiz um esforço para me desligar do mundo editorial e das obrigações cotidianas. Foram sete dias de descanso, cinco deles no Festival de Salzburg, onde nunca havia estado, apesar do meu amor pela música clássica. Há alguns anos tenho viajado em função de concertos e óperas. Escolho as cidades de acordo com a programação musical. Sinto falta, às vezes, de viajar sem agenda alguma, mas ultimamente a música não me larga, ou eu não consigo deixá-la. Sem ela me sinto demasiado só, perdido até. Como não sou profissional, nem domino a linguagem musical, minha relação é puramente afetiva, ou intuitiva.Em uma das mais lindas canções de todos os tempos, Mahler fez suas as palavras do poeta Friedrich Rückert, apresentando-se como alguém que se extraviou do mundo e se afastou dos rumores da vida. Ele diz:
“Eu vivo só, no meu paraíso,
no meu amor, na minha canção.”
Meu caso não é o mesmo. Sendo apenas um amador, não vivo, obviamente, com a mesma profundidade a relação que Mahler/Rückert enunciaram. Mas preciso da companhia musical para um diálogo interior, que me acompanha desde muito jovem. Lembro-me bem do meu primeiro long-play, comprado pelo meu pai, num costumeiro passeio que fazíamos, aos sábados de manhã, pelo Bom Retiro. Lá ele encontrava seus amigos húngaros; jogava conversa fora, me fazendo simplesmente boiar sobre, ou afundar sob, aquela língua meio mongólica, tão estranha, da qual eu não compreendia palavra alguma. Sempre passávamos por uma papelaria na qual estavam expostos, com destaque, os produtos da gráfica da minha família, e onde nos fundos havia uma pequena seção de discos. Certa manhã, enquanto meu pai se divertia conversando com o dono do pequeno estabelecimento, eu vi Please please me, o primeiro disco dos Beatles, na frente da estante. Apenas atraído pelo visual da capa, sem saber do que se tratava, levei o disco até meu pai, que imediatamente me presenteou, feliz. Afinal, ele ganhava assim um salvo conduto de alguns minutos de conversa, enquanto eu namorava meu primeiro long-play. Não sei bem se, aos sete anos, já ouvira falar do novo grupo inglês, mas a partir daquela dia não pude mais largar a música. Passei a ganhar discos quase semanalmente da minha avó, a grande responsável pelos mimos ao neto único. Virei frequentador assíduo das lojas que vendiam discos importados, o Museu do Disco no Centro, a Billboard na Rua Augusta. Assinei revistas estrangeiras para acompanhar as novidades do Rock. Preenchia meu tempo livre com os discos recém-comprados, e com os que sonhava comprar.
E assim fui do rock para o jazz, do jazz para a MPB e, finalmente, da MPB para a música clássica.
Minha erudição roqueira talvez tenha sido muito superior ao meu conhecimento literário de hoje. Por isso, ser o editor de Alex Ross é uma realização tão grande para mim. A mistura de erudição musical com simplicidade, o fluxo de referências literárias e políticas que migram para a música e vice-versa, compõem o modelo de intelectual que — só hoje entendo — eu sempre quis ser e nunca consegui. No fundo, acredito que queria mesmo era ter sido Alex Ross! Escrever com o mesmo brilho e simplicidade sobre Schubert e Radiohead.
Não tendo me aprofundado na música, perdi minha chance de adotar a carreira de verdadeiro intelectual, que tentei, em vão, seguir, inscrevendo-me no mestrado de sociologia da USP em 1978. Mas as ciências sociais não eram mesmo a minha praia, e é fácil entender por quê.
De qualquer forma, usufruo da minha quilometragem musical, do afeto tão importante tanto pelos riffs das guitarras dos Rolling Stones, quanto pelos lieder de Mahler. Com eles preencho alguns silêncios que me são tão peculiares.
Assim fui dar em Salzburg, neste verão europeu, para onde talvez nunca tenha ido antes, incomodado pela fama de que os frequentadores do festival ainda usavam black-tie! Como nunca me dispus a alugar smokings, ou comprar um deles, havia estado em Lucerne e em Verbier, mas não no mais tradicional dos festivais de música. Desta vez, resolvi improvisar com um terno preto e uma gravata vertical mais fina, também preta, e encarar uma programação musical irresistível. No final, vi que são poucos os que mantêm a tradição; que o formalismo ainda está presente apenas nas premières de ópera, mesmo assim, sem obrigatoriedade. Confesso que achei bonita a cidade nos dias em que havia alguma estreia. Gostei de ver os homens trajados de gala e as mulheres levantando seus longos vestidos, para não sujá-los a caminho do Mozart Hall. A cena era linda, as roupas na sua maioria meio cafonas, mas olhei para elas com bons olhos, e admirei as pessoas andando no fim da tarde ensolarada à beira do rio Salzach, “vestidas para ouvir”.
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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências ...
Por Luiz Schwarcz
O songbook de Chico Buarque que tínhamos publicado havia sido um grande sucesso. Por conta do livro e das partidas de futebol ― minhas reuniões de trabalho com o Chico aconteciam sempre às segundas ou quintas, dias das peladas do Polytheama, das quais eu participava ―, acabamos desenvolvendo uma amizade muito gratificante. Pois certo dia, num momento bem à vontade, disse ao Chico que meu grande sonho seria publicar um livro de partituras de músicas de Tom Jobim e letras dele e de seus parceiros.
Na época, Tom Jobim era meu maior ídolo. É claro que eu adorava escritores como Guimarães Rosa, Drummond, Borges, Calvino entre outros, mas Jobim tinha carne e osso, e estava sempre comigo. Em qualquer momento de entusiasmo ou de melancolia eu podia escutar “Desafinado”,”Samba de uma nota só”, “Águas de março”, “Retrato em branco e preto”, ou “Modinha”. E eu ouvia essas e outras músicas sem parar. Os shows de Tom me levavam a fazer afirmações retóricas, do tipo: “É o maior”, “Viva o povo brasileiro”…
Não me lembro bem, mas muito provavelmente voltando de uma partida de futebol no longínquo bairro do Recreio, em que goleamos o adversário, falei ao Chico sobre meu entusiasmo por Chega de saudade e tantas outras composições da Bossa Nova, e perguntei se ele faria as gestões necessárias para que eu encontrasse com Jobim.
“Posso marcar um encontro teu com o Tom e recomendar a Companhia das Letras, mas eu sugiro que você o veja pela manhã, quando ele está mais concentrado. O ponto de encontro é sempre a churrascaria Plataforma. Um almoço cedo, pode ser?”
Assim foi. Almoço no Plataforma marcado, e eu vários dias sem dormir, enquanto me preparava para o encontro com meu grande ídolo.
Chegado o grande dia, ensaiando o que dizer, eu pensava nos cuidados que deveria tomar para não parecer um fã babão e, nervoso, não conseguia ler uma linha durante o voo, onde, em geral, aproveito cada um dos 45 minutos, sem interrupções, como momentos preciosos para ler.
Quando cheguei no Plataforma, às 11h30, Tom Jobim já ocupava sua mesa tradicional. Me apresentei, tentei ser o menos solene possível, e meu ídolo, muito gentil, apontou para o lugar onde eu deveria me sentar, perguntando logo a seguir:
“Você gosta de cordeiro? O cordeiro daqui é sensacional.”
Bem, durante o almoço todo eu tentei misturar uma conversa agradável com meu objetivo primordial, isto é, convencer Tom Jobim a publicar seu songbook conosco, e não na coleção da pequena editora de Almir Chediak, especializada nesse tipo de livro. É claro que eu tentava fazê-lo sem desmerecer o trabalho do concorrente, mas eu mal conseguia enunciar qualquer coisa a esse respeito. Tom não deixava: sempre que eu tentava falar de trabalho, ele me perguntava o que eu estava achando do cordeiro, ou divagava: “Schuarrrtsss, Schuarrrtsss, Shuarrrtsss… teu nome me lembra ash ondasssshhh de Ipanema”, ele falava, e repetia mais uma vez, “Shuarrtsss….”.
A conversa não saía disso: o chope, o cordeiro e meu nome que lembrava as ondas do mar.
Na sequência do almoço, Tom me convidou para ir à sua casa. No caminho, parou na farmácia que sempre frequentava, onde gostava de passear à toa, examinando as gôndolas e prateleiras, como fazemos com as vitrines nos shoppings, ou com os balcões de livrarias.
Na casa, no alto do bairro do Jardim Botânico, passamos mais um par de horas. Tom me mostrou orgulhoso a incrível vista da baía da Guanabara, o piano, a floresta vizinha e os macacos que vinham buscar petiscos. Conversa de trabalho: zero. A essa altura, já havia desistido dela.
Meses depois, o grande compositor deu uma entrevista no programa Roda Viva, me presenteando com o maior momento de glória da minha vida. Perguntado sobre o seu esperado songbook, Tom respondeu: “O Chico queria que eu publicasse com o Schuarrrtis, mas eu vou publicar mesmo é com o Chediak”.
Apesar da missão publicamente fracassada, demorei para me recuperar da emoção, pensando: “Se um dia cheguei a sonhar com a posteridade, hoje a alcancei, meu nome foi citado por Tom Jobim na televisão”.
P.S.: sairei de férias do blog por duas semanas. Até a volta.
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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna...
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