Nestes dias andei pensando sobre a relação do autor e do editor. Acho que talvez ela seja tão profunda porque o mercado de livros não é apenas um mercado, como dizem ou pensam alguns colegas. Se o livro não fosse produto de trabalho tão pessoal e subjetivo, se não fosse tão solitária a vida do autor, se não estivesse o editor na posição de protetor e defensor da imaginação do autor, tudo seria diferente. Se não fôssemos, nós editores, os voluntários do primeiro diálogo, profissionais com os quais o autor deve poder contar sempre, a vida seria mais aborrecida. Se não fosse o escritor um criador de mundos, ávido por conhecer outros, por exibir o universo que criou, as coisas não seriam como são. Se o trabalho da escrita não fosse tão intenso, e não criasse um batalhão de minúcias a serem checadas, se o editor não fosse alguém disposto a ouvir o que o texto diz, o mercado sempre viria em primeiro lugar.É claro que tanto autor como editor querem vender, ter sucesso de estima e material. Nada de errado nisto, pelo contrário. O estranho muitas vezes é ver autores de vanguarda ressentidos pela falta de apelo popular, de resultados comercias. Ou, por outro lado, editores que colocam o mercado na frente de tudo, e esquecem que, para alcançar suas metas, devem em primeiro lugar respeitar os autores.
Esta semana, um autor me contou que ouviu de um editor jovem que pretende constituir seu catálogo rapidamente, que “isto aqui é um mercado como qualquer outro”.
Sou o primeiro a defender a profissionalização do mercado de livros, logo é claro que aceito e defendo as regras de mercado. Procuro, porém, entender as normas específicas do mundo dos livros, as especificidades do trabalho do editor, e as regras que unem, ou desunem estes dois seres estranhos. Há abnegação no trabalho de ambos, especialmente por parte do autor. O editor e sua equipe apenas respondem ao gesto de isolamento e criação autoral, da melhor maneira possível.
Meu jovem colega tem razão, este é mais um mercado, porém com regras éticas próprias e com especificidades relativas ao trabalho literário que não podem ser esquecidas.
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Falo deste tema delicado daqui do aeroporto, à espera do avião que me levará a Nova York, para onde vou a caminho de Frankfurt. Farei uma pré-feira nos Estados Unidos, mas aproveitarei as noites para assistir a dois concertos focados em repertório russo, tendo Tchaikovsky como baluarte central. Vou também à Ópera dos três vinténs de Bertold Brecht.
Durante os dias os livros, e de noite a arte? Não, nada disso, ao visitar agentes terei em mente o que está por trás dos livros que pretendo contratar, e ao ouvir a música sofrida do mestre russo ou o sarcasmo do teatrólogo alemão vou pensar no quanto penaram enquanto profissionais, o que o mercado fez da arte desses senhores — que por sorte sobrevive até hoje, para nosso deleite e alegria.
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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor
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