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segunda-feira, 1 de abril de 2013


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O teatro e a Paixão de Cristo
 Enviado por luisnassif, sex, 29/03/2013 - 15:51

Do Portal Luís Nassif

O MÁRTIR DO CALVÁRIO: A PAIXÃO NO TEATRO

Por Helô, Cafu, Laura e Henrique



Na primeira metade do século passado, e até início dos anos 60, era costume as companhias teatrais interromperem a representação dos espetáculos profanos durante a Semana Santa. Em respeito à religiosidade do público, os teatros, os cinemas e até os circos suspendiam suas programações para encenar as grandes passagens da Vida de Nosso Senhor Jesus Cristo. Todos trocavam de texto, de cenário, de figurino e de função.






Cartaz da encenação de O Mártir do Calvário, no Teatro Carlos Gomes, em 1958

 As casas de espetáculos do Rio e de outras cidades anunciavam peças que narravam episódios da Sagrada Escritura e eram encenadas pelos diversos elencos, acrescidos de figurantes amadores arregimentados muitas vezes às pressas entre amigos e circunstantes. Anão de circo virava centurião romano! O palhaço deixava o gibão no armário e vestia-se de Apóstolo. Isso quando não interpretava o próprio Nazareno!




No lugar das cambalhotas e malabarismos das revistas, dos dramas, comédias e operetas entravam em cartaz as histórias religiosas. A mais célebre delas foi O Mártir do Calvário, drama sacro do teatrólogo português Eduardo Garrido, definida pelo autor como "mistério sacro em 5 atos e 16 quadros" e que estreou em 1902, no Rio de Janeiro, sob a direção do também escritor Eduardo Vitorino, que encomendara o texto ao colega. (Gravura de Eduardo Garrido retirada do livro Carteira do Artista de Souza Bastos. Lisboa, 1898.)

A teatralização de temas religiosos remonta ao medievo. Nesse período, a arte tinha enfoque estritamente religioso e era usada pela classe dominante – composta em grande medida pelo poder eclesiástico – para transmitir o ideário e a liturgia do cristianismo à massa de camponeses e aldeões iletrados. A música, a pintura, a arquitetura, a escultura, a tapeçaria e o teatro se tornaram importantes veículos doutrinários a serviço da Igreja.

A partir do século XIV, na Europa, a Paixão de Cristo começa a ser encenada ao final da Quaresma. Porém, até o século XVI ainda predominavam no repertório do teatro jesuítico as peças que retratavam a vida dos santos e o triunfo da Igreja. Era a forma encontrada para tornar a catequese mais atraente, didática e eficiente. Contudo, nos séculos XVII e XVIII, modelada pela dramaticidade, realismo e opulência do Barroco, a temática se desloca para a intensidade do martírio de Cristo. Esse tempo litúrgico e seus rituais passam a ser revividos e representados, nos sucessivos "passos" da via crucis, em procissões e autos que envolviam as populações de pequenas vilas e das cidades. É uma tradição que se mantém viva até hoje em todo o Brasil.

Foi só no início do século XX que a Paixão subiu aos palcos dos teatros e virou matéria para autores e companhias profissionais. Talvez até antes, pois o crítico Mario Nunes cita um certo D. Machado que publicava em 4 de abril de 1920, numa coluna de jornal chamada Reminiscências, o resultado de suas pesquisas sobre a origem desse costume nos teatros brasileiros:

Vai seguramente para uns 50 anos, que aqui apareceu uma grande companhia de quadros vivos, dirigida pelo Sr. Keler, estreando com enorme sucesso no Teatro Lírico (O Provisório) instalado no Campo de Sant’Ana, atual Praça da República. “A Vida de Cristo” foi ali exibida em maravilhosos quadros vivos, durante a Semana Santa, causando agradável impressão ao público exigente daquela época, que não regateou frenéticos aplausos aos artistas, principalmente ao Sr. Keler, que apresentava um Cristo admirável, como nenhum artista até hoje o pode igualar. Keler faleceu há anos na capital de São Paulo, exercendo a profissão de calista.
Coisas da vida. (MN, 1º vol. pág. 224)

Num país de matriz católica, e num tempo em que a religião cimentava os tijolos da construção social, era compreensível e esperado a comoção que o sofrimento de Jesus suscitava na população. Mario Nunes, no 1º volume de 40 Anos de Teatro, dedica várias passagens à narrativa desses eventos, evidenciando destarte a sua importância. Citaremos alguns pelo valor antropológico e por serem contados por uma testemunha ocular:

A cidade vai atravessar os dias magoados da Semana Santa. Como uma tradição profundamente arraigada na alma do povo, assistiremos à romaria às igrejas agora acrescida da romaria aos teatros, onde se representará, como lei que não pode ser transgredida, “O Mártir do Calvário”, o drama sacro de Garrido, que a criação de Olímpio Nogueira popularizou.

Teremos nesse ano a desejada peça no Recreio, Lírico Trianon, República, São José, Pavilhão Sete de Setembro, Teatro da Exposição da Ajuda, Parque Fluminense e no cine Teatro Yolanda. Os preços serão populares apesar de todas as edições serem excelentes e com montagens novas.

Assim a semana Santa tem mais esse aspecto curioso no Rio. Não bastam as rezas e penitências nas igrejas: é preciso evocar, vivamente, a Paixão e chorar, chorar copiosamente, ante a morte do Justo, dolorosamente lembrada nas representações teatrais.

Personagens e intérpretes foram, nesse ano, os seguintes:

No Recreio: Jesus, Carlos Abreu; Virgem Maria, Adelaide Coutinho; Madalena, Itália Fausta; Pilatos, Antônio Ramos: Judas, Eduardo Pereira; Samaritana, Davina Fraga.

No Lírico: Jesus, Alexandre Azevedo; Virgem e Samaritana, Lucília Peres; Madalena, Ema de Sousa; Pilatos e Judas, João Barbosa.
No Trianon: Jesus, Carlos Torres; Virgem, Amália Rios; Madalena, Amália Capitani; Pilatos, Átila de Moraes; Judas, Ferreira de Sousa; Samaritana, Iracema de Alencar.
República: Jesus, Antônio Sampaio; Virgem, Olímpia Montani; Madalena, Maria Castro;Pilatos, Canário; Judas, Eduardo Arouca; Samaritana, Odete Tavares.
Teatro da Exposição: Jesus, Justino Marques; Virgem, Júlia Silva; Madalena, Tina Vale; Pilatoa, Domingos Braga; Judas, J. Silveira; Samaritana, Ligia Romana.
Politeama*, ex Parque Fluminense: Jesus, C. Gonzaga; Virgem e Samaritana, Izabel Câmara; Madalena, Yvone Costa; Pilatos, Alves Moreira; Judas, Aprígio de Oliveira.
São José: Jesus: J. Figueiredo; Virgem, Elvira Mendes; Madalena, Laura Godinho; Pilatos, Álvaro Fonseca; Judas, Manuel Durães; Samaritana, Otília Amorim.
Pavilhão Sete de Setembro: Jesus, Fernandes Pires; Virgem, Etelvina Siqueira; Madalena, Maria da Piedade; Pilatos, Antônio Alvão; Judas, René de Carvalho; Samaritana, Etelvina Siqueira.


Como se vê o “Mártir” mobilizava toda a classe teatral. (Em 13 de abril de 1919. MN, 1ª vol., pág. 176)





Olímpio Nogueira


Na verdade, essa peça adquiriu tal status graças ao talento de Olímpio Nogueira, considerado o maior intérprete de Jesus Cristo de todos os tempos. Quando o ator ainda participava da Companhia Dias Braga sua performance como Cristo já era recebida com calorosas palmas pelo público. Passaram-se os anos e ele deixou o drama para fazer comédias, vaudevilles, revistas e farsas. Até que em certa Semana Santa, por volta de 1914, ele retorna como Cristo e se transforma num tremendo sucesso, que se repetiria pelos anos seguinte, até falecer de gripe espanhola em outubro de 1918. Estava lançado o modismo, que os teatros do Rio prontamente imitaram e disseminaram, primeiro em produções precárias e improvisadas, mas depois – devido à enorme popularidade e à concorrência acirrada entre as companhias – as apresentações foram se profissionalizando, envolvendo o elenco das companhias e seus artistas principais em produções caprichadas.
Segundo Mario Nunes, O Martírio de Cristo teve ainda o mérito de contribuir para a popularização do teatro e para a formação de platéias, fatores que desembocariam na vitalidade e relevância que o teatro popular adquiriu na década seguinte:


O que atraía a grande massa popular, que superlotava os teatros à tarde e à noite, não era, a parte pequena percentagem, o amor à arte dramática, mas as vivas emoções provocadas pela cruciante paixão de Cristo que, sem importar o mérito artístico dos intérpretes, a fazia derramar sentidas lágrimas!


Pois bem – e isso ainda não foi dito – a romaria aos Mártir do Calvário terá concorrido para levar ao teatro gente que nunca o freqüentava e que terá tido, então, seu primeiro contato com a arte de representar, por ela se interessando daí em diante. Eram milhares e milhares de pessoas, por anos seguidos. Terão assim influído essas representações para o progressivo aumento de público nas casas de espetáculo, nos dias comuns, e para o desenvolvimento da indústria e da arte, que estavam pouco a pouco se afirmando. (Em 1918. MN, 1ª vol., pág. 141)


Assim, além da pia função, os artistas mantinham-se em atividade e os bilheteiros não tinham folga. Mas o público que freqüentava os espetáculos da Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, não conseguia conter o riso mesmo diante dos dramas da Paixão. Era praticamente impossível manter a seriedade com Olímpio Bastos, o Mesquitinha, fazendo digamos o Caifás, Otília Amorim ou Aracy Côrtes no comovente papel da Boa Samaritana e o português J. (de José) Figueiredo como o Cristo, padecendo na cruz com sotaque.


Numa daquelas encenações Aracy Côrtes, como a Boa Samaritana, entrou dengosa e provocativamente em cena, lançando olhares brejeiros e maliciosos para o público, requebrando faceira as formas generosas com um jarro de barro apoiado num ombro. Só de olhar a cena o público já começou a rir. E gargalhou de vez quando identificou J. Figueiredo como Jesus Cristo, fazendo cara de quem está com sede.


Contudo, não se pode fazer pouco caso de O Mártir do Calvário, mesmo que muitas montagens tenham sido "adaptadas" pelos cacos dos cômicos ou martirizado o público com improvisações mambembes e xinfrins. O Mártir do Calvário é recordista de encenações e ainda hoje é remontado, no original e com adaptações, como a feita pelo Grupo Galpão em 1994, muito elogiada por público e crítica.









Rua da Amargura # Paulo José e Teatro Galpão


Apesar de muito aguardadas e prestigiadas pelo público, as montagens do drama sacro de Eduardo Garrido se por um lado comoviam, por outro produziram, ao longo de décadas, extenso e divertido anedotário que foi registrado em livros e por alguns cronistas, entre eles Jota Efegê.


Um Judas negro


“A encenação de O Mártir do Calvário era, naqueles tempos em referência, o espetáculo apresentado na maioria (talvez a totalidade) dos teatros. Até os circos e pavilhões, mesmo os mais modestos, interrompendo seus costumeiros números cômicos de palhaços e arrojadas acrobacias, levavam a efeito no picadeiro a representação da peça do escritor Garrido.

Assim, tomando-se para pronto exemplo o ano de 1932, tinha-se no Teatro Recreio o ator Jesus Ruas encarnando o Cristo e a atriz Amélia de Oliveira figurando a Virgem Maria. No Teatro República era Jorge Diniz quem fazia Jesus e Itália Fausta desempenhava o papel de Virgem Maria. Havia, ainda, Vicente Celestino interpretando o Cristo no Teatro Margarida Max, na Piedade. E, no Democrata Circo, Abel Dourado e Lily Barbosa apresentavam-se nos papéis de Cristo e Virgem Maria. Mas, no Circo-Teatro Dorby, armado na rua São Luiz Gonzaga, o ator Euclides Monteiro personificava o Cristo e o famoso palhaço negro Benjamim de Oliveira escondia sua cor debaixo de grossa canada de pó-de-arroz (diziam que era farinha de trigo) e aparecia no personagem de Judas Iscariote.” (Jota Efegê, Meninos eu vi, pags. 95-96)






Mil vezes o belzebu!


Já no livro Ensaio de Ponto - Recortes Carnavalescos por Saturnino Praxedes, de Luís Antônio Giron, estão relatadas algumas experiências de Praxedes, que nas décadas de 10 e 20 atuou como “ponto” no teatro de revista.


“(...) Naquele ano, minha mãe, dona Balbina, foi assistir a O Mártir do Calvário na matinê da quarta-feira, dia 27 de março de 1918. Teve um choque térmico que abalou suas crenças. Tornou-se pagã num borboletear de olhos. Pagou a excomunhão com a própria vida...

A zona central purgava todos os pecadilhos durante a Semana Santa com a apresentação nos onze teatros do drama bíblico de Eduardo Garrido. Eram os instantes de santidade das belzebuzíadas do shimmy. O maligno J. Figueiredo ainda não ficara famoso por causa do papel de Chameaux. Fazia o tipo português gabiru e Jesus, um Cristo que foi surpreendido fumando pregado na Cruz e com sotaque português, mas um Jesus cantado em prosa da crítica. As coristas convertiam-se subitamente em penitentes. Ottilia viveu a Samaritana, se bem me recordo, e não a melhor delas da temporada, capitaneada pela dramática Davina Fraga. Anãzinha fez uma ponta como Centurião. Virgem era a Elvira Mendes, com quem eu acabara de atravessar uma noite de amor. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Trabalhávamos num Carnaval sem horário para fim. A Semana Santa obrava o contrário para nós. Tudo ficava de ponta-cabeça, ai, ai meu Deus do céu, a penitência nos divertia à beça. Os atores choravam e confessavam erros. O teatro se enchia à cunha de ex-votos e mensagens de graças alcançadas. Cristo era oMomo! E no Sábado de Aleluia tínhamos a fantasia da Mi-Carême, recheada pelas formas abauladas da Ottilia. O Momo J. Figueiredo estendia as sete chagas com sangue vermelho vivo comprado numa tinturaria da vizinhança, deliciando-nos a todos. Era um Jesus sem barba. Todo mundo reclamava. A que o J. Figueiredo retrucava:


-Se o Botticelli pintou Jesus morto sem barba porque eu não posso? E fazia aquele Jesus pomposo e glabro.



Se alguém aí da leitura ainda não sabe, O Mártir do Calvário foi uma das peças mais representadas do século XX e a que mais forneceu material para piadas. Pois minha santa genitora hoje faz parte desse acervo inestimável. Tudo por causa daquela matinê sem vergonha. (...). Mamã queria ver onde o caçula trabalhava. Todo responsável, postei-me debaixo de Conchita para pontar a multidão em palco, um dos piores serviços para mim, e já não era estreante. O elenco era arregimentado às pressas e o corpo de córos recebia um aporte proveniente das sarjetas da Tiradentes, gente cujo currículo era se aliviar diuturnamente à sombra da estátua de Dom Pedro I. Decorar o poema escrito em português acácio-camoniano afigurava-se quase impossível. Só o J. Figueiredo tinha tal habilidade, já que se imbuiu da convicção de que o drama e ele formavam uma única hipostasia. Mesmo quando fumava um charuto baiano em cena, como naquele dia, acreditava fazê-lo como o Cristo. Ao ver aquela entidade sacra adentrando o proscênio, enquanto as gambiarras baixavam iluminadas por mil bicos incandescentes de gás carbonado, dona Balbina acreditou também que o português se tratava de uma deidade. A confusão pontificava na representação. Os Judeus se mexiam demais e viravam as costas ao público. Quando tinham de fazer alarido, ficavam quietos e eram socorridos por Alfredo Silva, especialista em imitar multidões com sua técnica vocal carusiana. Alguns Centuriõesescorregavam em gomos de jaca abstratos ou então tropeçavam nas próprias espadas, como Anãzinha, que parecia arrastar um arranha-céu preso à cintura. A Samaritana abria o seu característico sorriso esculpido em oitocentos dentes e ainda não havia me devorado, como o faria dois meses depois. Maria bocejava e se esquecia de uma fala, que eu berrava lá do buraco, cada vez mais agitado. Antes do fim do prólogo, o tempo virou, começou a chover forte e ficou muito frio. Todos estalavam a dentadura.


-Pelo amor de São Jorge, toma uma providência, Praxedes! Merda!


Assim falou Cristo, igualmente nervoso, brandindo o charuto na minha direção, como se eu não estivesse enxergando nada e fosse representante de São Pedro na terra. Atores têm desses surtos de responsabilidade. Só que eu não abandonava o meu posto e considerava aquilo ridículo. Cristo queria que saísse um sussurro, mas o resultado foi grito espasmódico. Minha mãe tinha ouvido tudo e, sem que eu percebesse na hora, levantou-se e gritou para o J. Figueiredo, encarando-o:


-Se Cristo é isto, prefiro mil vezes belzebu!


Ouvi apenas a gargalhada resultante do vexame de dona Balbina. Depois soube que ela olhou, confusa, para trás e se retirou em choque, sob as vaias da patuléia e o espanto dos atores. (...) J. Figueiredo, numa atitude clássica, levantou os braços aos céus e gritou para todo mundo escutar:

 -O culpado é o ponto!"






José Figueiredo, ator cômico e Jesus Cristo na Semana Santa



O gosto da "branquinha"

Outro episódio hilário, acontecido num circo, é contado por Aramis Millarch em seu site:

http://www.millarch.org

Na sexta-feira Santa, a encenação da "Paixão de Cristo" chegou a emocionar a família Queirolo e os colegas - num total de 45 pessoas, que participaram da encenação. Comemorava-se, sem maiores solenidades, mas com muito entusiasmo, o cinqüentenário de apresentações do Drama do Mártir do Calvário, pois foi em 1927, quando os irmãos Julian, Otelo e Ricardo Queirolo, encontravam-se em São Paulo, que foi feita a primeira montagem. A partir de então, com exceção do longo período em que o circo esteve com suas atividades interrompidas em Curitiba (1965-1976), em todas as Semanas Santas, o "Mártir do Calvário" nunca deixou de ser encenado.


Dessas montagens há estórias famosas, hoje integrantes do folclore circense brasileiro. Conta-se, por exemplo, que na década de 40, o artista que faria o papel de Cristo adoeceu e teve que ser substituído às pressas. O substituto era um bom ator mas amigo de bebida e, considerando que durante grande parte da peça teria que ficar "Crucificado", o diretor do espetáculo, o velho Julian Queirolo, exigiu que não bebesse nada antes da encenação. O ator aceitou, com uma condição: para não ficar totalmente a seco, no momento em que pedisse água e o guarda lhe dá fel, como contam os evangelhos, a lança tendo na ponta uma estopa supostamente embebida em fel deveria ser mergulhada em aguardente. O pedido foi atendido, mas o ator-Cristo entusiasmou-se tanto ao sentir nos lábios o gosto da "branquinha" que não resistiu e ao invés de gemer, estampou o maior sorriso e exclamou, tão alto que todo o público não deixou de ouvir:
- "Mais fel! Mais fel!"

Em suma, a fé e o riso se abraçavam nas antigas Semanas Santas. A graça espontânea do povo, que dava alma à revista, ao teatro de variedades e ao circo não saía de cena na Sexta-Feira Santa, nas muitas montagens de O Mártir do Calvário. Apenas mudava de figurino.

BIBLIOGRAFIA

BASTOS, Sousa (1898), Carteira do Artista. Lisboa: Antiga Casa BERTRAND – JOSÉ BASTOS

EFEGÊ, Jota (1985), Meninos, Eu Vi. Rio de Janeiro: MEC/FUNARTE

GIRON, Luís Antônio (1998), Ensaio de Ponto - Recortes Carnavalescos por Saturnino Praxedes, ex-funcionário da Companhia Nacional de Burletas e Revistas do Teatro São José. São Paulo: Editora 34.

LIMA, Mariângela Alves et alii (2006), Dicionário do Teatro Brasileiro – temas, formas e conceitos.São Paulo: SescSP/Perspectiva. (verbete Auto da Paixão)

NUNES, M. (1956), 40 Anos de Teatro (Volumes 1 e 2 ). Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro.

SOUSA, J. Galante de (1960), O Teatro no Brasil (Tomos I e II).Rio de Janeiro: MEC/INL

Foto da obra do Aleijadinho: Nina Dalmolin

http://www.flickr.com/photos/ninadalmolin/124497806/


















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