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quarta-feira, 3 de abril de 2013


O casamento homossexual e a igualdade nos EUA
Enviado por luisnassif, qua, 03/04/2013 - 08:37
Por O Militante
Comentário ao post "O primeiro embate, por Vladimir Safatle"

Do London Review of Books

O que importa

Por Walter Benn Michaels

Nos Estados Unidos havia (ou há) uma ONG chamada “Love Makes a Family” [O Amor Constitui Família], fundada em 1999, para lutar pelo direito dos casais gays de adotar crianças, e que desempenhou um papel central no apoio a uniões civis. Há alguns meses, sua diretora, Ann Stanback, anunciou que, tendo “alcançado seus objetivos”, a ONG cessaria suas operações no final do ano [de 2009], e que ela deixaria o cargo para passar mais tempo com sua esposa, Charlotte. “Nossa missão foi cumprida”, disse.

Sempre é possível que esta de declaração de missão cumprida venha a se provar tão prematura quanto outras feitas na última década. [NT: O autor faz alusão à célebre faixa colocada no porta-aviões “Abraham Lincoln”, onde George W. Bush proferiu seu discurso proclamando vitória na Guerra do Iraque] O casamento homossexual é legal em Connecticut, onde fica(va) a sede de “Love Makes a Family”, mas certamente não é legal em todos os EUA. Ninguém nega, contudo, que a luta pelos direitos dos homossexuais tenha feito progressos extraordinários nos últimos 40 anos desde Stonewall. E que o avanço na luta contra a homofobia tenha sido acompanhado de progressos comparáveis no combate ao racismo e sexismo. Embora as afirmações, que se ouvem esporadicamente, de que a eleição do presidente Obama nos conduziu a uma sociedade pós-racial sejam obviamente erradas, é bastante claro que o país que acabou de eleger um presidente negro (e que produziu tantos votos para a candidatura presidencial de uma mulher) é muito menos racista e sexista do que costumava ser.

Mas seria um erro pensar que os EUA, por terem se tornado uma sociedade menos racista, sexista e homofóbica, tornaram-se também uma sociedade mais igualitária. De fato, em certos aspectos cruciais, o país é mais desigual do que era há 40 anos. Nenhum grupo dedicado a acabar com a desigualdade econômica estaria inclinado hoje a cantar vitória e ir para casa. Em 1969, o quintil superior dos assalariados dos Estados Unidos recebeu 43% de todo o rendimento ganho no país, enquanto o quintil inferior ficou com 4,1%. Em 2007, o quintil superior recebeu 49,7% contra 3,4% do quintil inferior. Muito embora essa desigualdade tenha aspectos de gênero e raça, estes são menos relevantes do que você imagina. Os brancos, por exemplo, representam cerca de 70% da população dos EUA, e 62% das pessoas no quintil inferior. Os progressos na luta contra o racismo não fizeram nenhum bem a estes últimos, e nem sequer foram concebidos para fazer-lhes algum bem. Em termos mais gerais, mesmo se conseguíssemos eliminar completamente os efeitos do racismo e do sexismo, não teríamos, ainda assim, feito nenhum progresso em direção à igualdade econômica. Uma sociedade em que os brancos sejam proporcionalmente representados no quintil mais baixo (e negros proporcionalmente representados no quintil superior) não será mais igual; será exatamente tão desigual como é hoje. Não será mais justa; apenas proporcionalmente injusta.

Uma pergunta óbvia é, então, como devemos compreender o fato de que fizemos muito progresso em algumas áreas, enquanto em outras estamos a andar para trás. E a resposta quase que igualmente óbvia é que as áreas em que fizemos progressos têm sido aquelas que estão fundamentalmente de acordo com os valores mais profundos do neoliberalismo, e aquelas em que não avançamos não estão. Indo diretamente ao ponto, podemos observar que a tolerância cada vez maior com a desigualdade econômica e a intolerância crescente com o racismo, o sexismo e a homofobia – ou seja, com a discriminação enquanto tal – são características fundamentais do neoliberalismo. Daí os avanços extraordinários na luta contra a discriminação e, consequentemente, os seus limites como uma contribuição para qualquer política de esquerda. O aumento das desigualdades do neoliberalismo não foi causado pelo racismo nem pelo sexismo e não será revertido – porquanto sequer é abordado – pelo antirracismo ou pelo antissexismo.

Não quero, com isso, dizer que o antirracismo e o antissexismo não sejam coisas boas, e sim que estes, na verdade, nada têm a ver com políticas de esquerda, e que, na medida em que funcionem como um seu substituto podem ser uma coisa ruim. As universidades americanas são exemplares nesse sentido: eles são menos racistas e sexistas do que eram há 40 anos e, ao mesmo tempo mais elitistas. Uma coisa serve de álibi para a outra: você cobra mais igualdade, e elas lhe dão mais diversidade. Os corações neoliberais batem mais fortemente ao som dos “telhados de vidro” [“glass ceilings”] se partindo e à vista dos médicos, advogados e professores de cor, assumindo seus lugares na classe média alta. Disso decorre o fato de muitas empresas buscarem a diversidade quase tão entusiasticamente quanto os lucros, e proclamarem repetidamente que os dois são não somente compatíveis, mas que têm um nexo de causalidade – que a diversidade é boa para os negócios. Só que uma elite diversificada não é menos elitista por ser diversificada, e interpô-la como resposta à demanda por igualdade, longe de ser uma política de esquerda, é a política da direita.

A polêmica recente sobre a prisão por “conduta imprópria” de Henry Louis Gates ajuda a clarificar este ponto. Gates, como um dos seus colegas de Harvard, disse, é “um homem negro rico, importante e famoso”, um ponto que o próprio Gates evidenciou ao policial que o prendeu, pois disse a ele mais ou menos o seguinte: “Você não sabe com quem está se metendo”. Mas, apesar de sua útil sugestão, o policial deixou de reconhecer uma verdade essencial sobre a América neoliberal: ele não pode mais abaixar a cabeça somente para os brancos ricos, tem de fazê-lo para os negros ricos também. O problema, como um simpático articulista colocou no The Guardian, é que “a raça de Gates atropelou o seu status de classe”, ou, como disse o próprio Gates ao “New York Times, “Eu não posso usar a minha toga de Harvard em toda parte”. Nos velhos maus tempos, essa situação quase nunca tinha lugar – os policiais poderiam tratar com segurança todos os negros, ou melhor, todos os não-brancos, da forma como tradicionalmente são tratados os brancos pobres. Mas agora que fizemos algum progresso real no sentido de diversificar as nossas elites, é preciso recuar e dar o tempo necessário para descobrir “com quem você está se metendo”. Você precisa se certificar de que ninguém tenha seu status de classe atropelado por sua raça.

Na sequência da detenção de Gates, entre as centenas de pessoas protestando contra a injustiça da discriminação racial, uma cardiologista branca casada com um homem negro, foi quem colocou melhor o problema, quando lamentou que, mesmo no “bairro multirracial” onde vive (Hyde Park, onde [Barack] Obama morava), ela ouve de vez em quando as pessoas comentando nervosamente, “Olhe aqueles caras negros vindo em nossa direção”, ao que ela responde: “Sim, mas eles estão vestindo calções de lacrosse e jeansCalvin Klein. Eles são provavelmente os filhos do professor caminhando pela rua. Você tem que aprender a discernir as diferenças entre as pessoas”, ela passou a dizer. “É muito frustrante.” As diferenças a que ela se refere, é claro, estão entre crianças ricas e pobres, e a frustração que ela sente é com as pessoas que não se dão conta de que a classe vem antes da raça. Porém, se é fácil simpatizar com essa frustração – crianças negras ricas têm infinitamente menos chances de assaltá-lo do que crianças negras pobres, ou mesmo crianças brancas pobres – é muito mais difícil vê-la como a expressão de uma política progressista.

No entanto, esta parece ser a nossa forma de ver o problema. O ideal neoliberal é um mundo onde as pessoas ricas de todas as raças e sexos podem desfrutar alegremente de sua riqueza, e onde as injustiças produzidas não pela discriminação, mas sim pela exploração – há menos pobres (7%) do que os negros (9%) em Harvard, e a situação lá não é das piores – são discretamente varridas para baixo do tapete. Assim, todos podem se indignar com o desrespeito com que um professor negro que vive na próspera Ware St. (e aluga uma “mansão” para passar férias de verão em Martha's Vineyard à qual ele chama, por diversão, “Tara” [NT: fazenda de Scarlett o’Hara em “E o Vento Levou”, romance descaradamente racista ambientado na Guerra Civil]) possa ser tratado, mas ninguém se indigna com o com o sistema social que criou o fosso entre Ware St ou “Tara” e os locais onde a maioria dos americanos vive. Todo mundo está indignado com o fato de Gates ter passado por maus bocados, mas ninguém se incomodou com o fato de que ele e o resto dos 10% que estão no topo da escala dos assalariados americanos estejam tão bem de vida. Na verdade, é exatamente o oposto. Os social-democratas – em particular, os social-democratas brancos – estão empolgados com o sucesso de Gates, já que comprova a legitimidade do seu próprio: o racismo não dá todo esse dinheiro, ele o ganhou!

Assim, a primazia da luta contra a discriminação não só desempenha a função econômica de tornar os mercados mais eficientes, como também desempenha a função terapêutica de fazer com que aqueles de nós que tiraram proveito desses mercados durmam melhor à noite. E – o que talvez seja o mais importante – tem “há muito tempo” a função intelectual de centralizar a análise social nas “questões de identidade racial ou sexual” e sobre as assim chamadas “diferenças culturais” em vez de como e porque as “economias capitalistas criam um grande número de postos de trabalho com baixos salários, baixa qualificação e precárias garantias de emprego”, como Wendy Bottero afirma em seu ensaio para o recente livro publicado pelo Runnymede Trust, “Quem se preocupa com a classe trabalhadora branca?” [“Who Cares About the White Working Class?”]. A mensagem deste livro, contudo, é que as classes sociais “ressurgiram”: “O que nós aprendemos aqui”, segundo o organizador do livro, Kjartan Páll Sveinsson, “é que as chances que a vida oferece às crianças de hoje são predominantemente ligados dos rendimentos dos pais, ocupações e qualificações educacionais”. Em outras palavras, à classe.

Esta afirmação, por incrível que pareça, representa um avanço substancial sobre o racismo anti-multiculturalista, uma vez que a lógica do antirracismo exige apenas a correção das disparidades dentro das classes e não entre elas. Se cerca de 1,5% de sua população tiver ascendência paquistanesa, então coloque 1,5% de paquistaneses em cada faixa de renda e o seu trabalho está feito. O fato de o quintil superior ser quatro vezes mais rico que o quintil inferior – e a vantagem que os filhos de paquistaneses ricos teriam sobre os filhos dos pobres – não é o seu problema. É por isso que, numa sociedade como a Grã-Bretanha, cujo coeficiente de Gini – medida-padrão de desigualdade de renda – é o mais elevado na UE, a ambição de eliminar as disparidades raciais em vez das desigualdades de renda em si funciona como uma forma de legitimação, e não como uma crítica. E é também por isso que, quando uma organização como o Runnymede Trust, que há anos se dedica a promover “um Reino Unido multietnicamente bem-sucedido, abordando questões de igualdade racial e de discriminação contra as comunidades minoritárias”, começa a abordar a questão da classe, ocorre uma mudança real. A igualdade racial exige respeito pela diferença racial; a igualdade de classe exige a eliminação das diferenças de classe.

No caso, porém, o que “Quem se preocupa com a classe trabalhadora branca?” realmente oferece é menos uma alternativa ao multiculturalismo neoliberal do que uma sua refinada e engenhosa extensão. Os autores que contribuíram para o livro entendem a “reemergência da classe” não como uma função da injustiça crescente de classe (quando Thatcher assumiu o cargo, o coeficiente de Gini do RU era de 0,25, agora é de 0,36, o maior de sempre), mas como função da injustiça crescente do “classismo”. O que os indigna, em outras palavras, não é a existência de diferenças de classe, mas o “desprezo” e o “desrespeito” com que a classe baixa é tratada.

Pode-se ter uma boa noção de como isso funciona a partir da análise, feita por Beverley Skeggs em seu ensaio, de uma história contada por um dos indivíduos da classe operária pesquisados por ela sobre uma viagem que ela e seus amigos fizeram a Kendals, em Manchester: "Sabe como é, trata-se de um restaurante realmente elegante, e nós estávamos lá, rindo sobre os chocolates na vitrine, imaginando quantos poderíamos comer – se pudéssemos comprá-los – e aquela mulher apenas olhou para nós. Se ela pudesse nos matar só de olhar para nós... Era como se aquele fosse o seu lugar, e nós não pertencêssemos a ele”. O ponto particular que Skeggs sublinha é que “o olhar que dá forma à leitura simbólica das mulheres faz com que se sintam fora do “seu” lugar, gerando uma sensação de qual deveria ser esse "lugar", e o mais geral é que a “classe média” deve ser “responsabilizada pelos níveis de violência simbólica que adotam em seus encontros diários” com as classes mais baixas.

O foco de sua indignação (na verdade, naquilo que podemos concluir a partir da história, o foco da indignação da própria narradora) não é o fato de que algumas pessoas podem comprar os chocolates e os outros não, mas que aqueles que podem sejam desrespeitosos com aqueles que não podem. E isto representa algo novo na política da esquerda; enquanto esta historicamente condenava a situação que dá origem ao desrespeito, é a direita que tradicionalmente trata o desrespeito como o mal em si.

Diz muito, portanto, sobre “Quem se preocupa com a classe trabalhadora branca?” que Ferdinand Mount, que já foi conselheiro de Margareth Thatcher, seja por duas vezes citado e elogiado no livro por condenar o mau comportamento da classe média em exibir o seu desprezo aberto para a “cultura da classe trabalhadora”. Ele representa um avanço em relação àqueles que procuram culpar os pobres por sua pobreza e que consideram a cultura da pobreza e não a estrutura do capitalismo como o problema. Esta última é a visão do que poderíamos chamar de “neoliberalismo de direita” e, do ponto de vista que poderíamos chamar de “neoliberalismo de esquerda”, não é nada a não ser a expressão do preconceito de classe. O que os neoliberais de esquerda querem é oferecer alguma “assertividade” à classe trabalhadora. Querem que transitemos da raça para a classe, mas fazendo isso tratando de questões de raça como se fossem questões de classe, e que comecemos a tratar a classe operária branca com o mesmo respeito devido, digamos, aos somalis – reconhecendo “positivamente” o valor e o significado tanto da condição de classe quanto da diversidade étnica. Se os neoliberais de direita buscam o direito de condenar a “cultura da pobreza”, os neoliberais de esquerda lutam pelo direito a apreciá-la.

A grande virtude deste debate é que de ambos os lados a desigualdade se transformou num grande estigma. Isto é, uma vez que você comece a redefinir a questão das diferenças de classe como sendo o problema do preconceito de classe – e quando você completar a transformação de gênero, raça e classe em racismo, sexismo e classismo – você não precisará mais se preocupar com a redistribuição da riqueza. Você pode apenas lutar para que os pobres sejam tratados com respeito e sem desprezo. Contudo, se em termos humanos o respeito parece ser o caminho certo a seguir, politicamente ele é tão inócuo quanto o desprezo.

Isso é bastante óbvio quando se trata de classe. Kjartan Páll Sveinsson diz que “a classe trabalhadora branca é discriminada em várias frentes, incluindo o seu sotaque, seu estilo, a comida que come e a roupa que veste” – e isto é sem dúvida verdade. Mas o fim da discriminação não alteraria a natureza do sistema que gera o “grande número de postos de trabalho com baixos salários, baixa qualificação e precárias garantias de emprego” descritos por Bottero. Apenas se modificam as ferramentas utilizadas para decidir quem terá direito a eles. E é difícil compreender como o entusiasmo com a cultura dos churrascos nas lajes das favelas e os bailes funk pode compensar as desvantagens representadas por empregos como esses.

A raça, por outro lado, tem provado ser uma tecnologia mais bem-sucedida de mistificação. Nos EUA, um dos usos mais frequentes do racismo foi (e ainda é) induzir os brancos pobres a sentir uma comunhão essencial e totalmente ilusória com os brancos ricos, e um dos usos mais frequentes do antirracismo é fazer com que os negros pobres sintam-se umbilicalmente ligados (também de forma totalmente ilusória) com os negros ricos. Além disso, visa criar, na forma da celebração da “identidade” e da “diversidade étnica”, um vínculo entre os negros pobres e brancos ricos. Assim, a faxineira negra que limpa o meu escritório não tem porque se sentir tão mal com o fato de eu ganhar quase dez vezes mais que ela, porque ela pode ter a certeza de que eu não sou racista ou sexista e que eu respeito a sua cultura. E ela pode se sentir orgulhosa, porque o diretor da nossa faculdade, que ganha bem mais de dez vezes o que ela ganha, é tão negro quanto ela. E uma vez que a chanceler da nossa universidade, que ganha mais de 15 vezes o que ela ganha, é, além de negra, mulher (que belos são os frutos do antirracismo e antissexismo!), ela deve se sentir duplamente orgulhosa! Porém – e eu reconheço que esta é a menor das provas testemunhais – duvido que ela o faça. Se o lado ruim das políticas de luta contra a discriminação é que elas agora funcionam para legitimar o aumento das disparidades que não são produzidas pelo racismo ou pelo sexismo, o lado bom é o grau em que elas tornam visível o fato de que o aumento das disparidades, na verdade, nada tem a ver com racismo ou sexismo. Um bom sociólogo, com olhos tão límpidos quanto os da faxineira da Universidade de Illinois, poderia começar a partir daí.

 

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