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quarta-feira, 3 de abril de 2013


O Millenium e a caricatura do liberalismo
Enviado por luisnassif, qua, 03/04/2013 - 10:25
Autor:  Luis Nassif
Por mais que tente, não consigo atinar com a lógica da partidarização da imprensa e os critérios de escolha de seus legionários.

Houve um longo período, nos anos 70 e 80, em que a inteligência era preponderantemente de esquerda. Seguiu-se o período pós-muro de Berlim e pós fim da União Soviética, o fim da era Geisel, com o fortalecimento do liberalismo e a preponderância do pensamento conservador ou liberal. A esquerda perdeu o discurso.

No Brasil, esse movimento abriu espaço para José Guilherme Merquior, Roberto Campos, os economistas da PUC-Rio, os liberais da FGV, como Paulo Guedes e Paulo Rabello de Castro. Numa fase posterior, ao grupo do Insper, a filósofos como Eduardo Gianetti da Fonseca.

De alguns anos para cá, o carro da direita degringolou. Substituiu-se o discurso conceitual pela caricatura do anti-comunismo, a inteligência pela beligerância mais tosca, cujo auge foi a escabrosa campanha de José Serra em 2010.

Por repetitivo e pouco inovador, o estilo desgastou a primeira geração neocons, incapazes de resgatar qualquer bandeira legitimadora do liberalismo. Hoje ocupam seu tempo terçando armas com os blogs e twitters de esquerda.

A cada dia, no entanto, o Instituto Millenium - onde se dá a articulação midiática ideológica - se supera. É inacreditável sua capacidade de selecionar o que de mais caricato existe na direita. Vai buscar nos guetos mais toscos personagens incapazes de qualquer refinamento intelectual.

Tempos atrás, foi um advogado que parecia ter pulado direto do navio do Almirante Pena Botto.

Agora, esse  burlesco economista Rodrigo Constantino, páginas amarelas de Veja e espaço nobre em O Globo. A quem pretendem cativar com esse primarismo? Provavelmente aos fundamentalistas do pastor Feliciano ou do pastor José Serra.

Julgam que apelando para esse padrão conseguirão formular qualquer alternativa liberal minimamente defensável aos princípios dos defensores do Estado forte?

É evidente que não. Há inúmeras teses legitimadoras do liberalismo: o empreendedorismo, a governança no mercado de capitais, a liberdade individual, a iniciativa, o combate às burocracias.

O Millenium conseguiu mediocrizar pensadores que se tornaram irremediavelmente prisioneiros da caricatura de si mesmos. Agora, nem é necessário ser pensador: basta ser a caricatura.

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Do O Globo

De volta do futuro

“Desesperado com tudo, eu ajustei minha máquina de volta para 2013, decidido a fazer o que estivesse ao meu limitado alcance para impedir um futuro tão maldito do meu país”

Rodrigo Constantino

O ano é 2030. Cheguei aqui com minha DeLorean, na esperança de encontrar um país mais próspero e livre. Qual não foi minha surpresa quando dei logo de cara com uma enorme estátua de Lula!

Curioso, perguntei a um transeunte do que se tratava. Um tanto incrédulo com minha ignorância, o rapaz explicou que era a homenagem ao São Lula, ex-presidente e “pai dos pobres”. Havia uma estátua dessas em cada cidade grande do país. Afinal, tínhamos a obrigação de celebrar os 150 milhões de brasileiros incluídos no Bolsa Família.

Após o susto inicial, eu quis saber quem pagava por tanta esmola, e se isso não gerava uma nefasta dependência do Estado. O rapaz parece não ter compreendido minha pergunta. Disse que estava com pressa para entrar na fila do pão, e que seu cartão de racionamento ainda dava direito a uns bons cem gramas.

Em seguida, vi na televisão de uma loja um rosto conhecido, ainda que envelhecido. Era o ministro Guido Mantega! E pelo visto ele ainda era o ministro. Ele estava explicando o motivo pelo qual sua previsão de crescimento de 5% não se concretizou. A queda de 3% do PIB havia sido culpa da crise em Madagascar. Mas tudo iria melhorar no próximo ano.

Notei então o preço do aparelho de TV: 100 mil bolívares. Assustado, perguntei ao vendedor do que se tratava, explicando que eu era de fora. O homem disse que, em 2022, após a inflação chegar em 20% ao mês, o governo cortou três zeros da moeda. Pensei logo no bigodudo. Como isso não funcionou, o governo decidiu adotar o bolívar, moeda comum do Mercosul.

Descobri que os países “bolivarianos” chegaram a adotar o escambo, depois que suas respectivas moedas perderam quase todo o valor frente ao dólar. A moeda comum foi uma medida urgente, pois estava difícil efetuar as trocas. O criador de gado argentino precisava encontrar um produtor de soja brasileiro disposto a trocar o mesmo valor de gado por soja. Era um caos!

Levantei ainda alguns dados no jornal “Granma Brasil” (parece que o “controle democrático” da imprensa havia finalmente passado, e o governo se tornou o dono do único jornal no país). A inflação oficial era de “apenas” 30%, mas todos sabiam nas ruas que ela era ao menos o triplo disso. Um centenário Delfim Netto desqualificava os críticos do Banco Central como “ortodoxos fanáticos”.

Não havia mais miserável no Brasil, pois a linha de pobreza era calculada com base no mesmo valor nominal de 2010. Mas havia mendigos para todo lado. Um desses mendigos me pareceu familiar. Eu poderia jurar que era o Mr. X! Mas não poderia ser. Afinal, ele era um dos homens mais ricos do país, e tinha ótimo relacionamento com o governo. O BNDES era um grande parceiro seu.

Foi quando decidi ver que fim tinha levado o banco estatal. Soube que, após o décimo aumento de capital na Petrobras (que agora importava toda a gasolina vendida), e vários calotes dos “campeões nacionais”, o BNDES tinha se unido ao Banco do Brasil e à Caixa, esta falida nos escombros do Minha Casa Minha Vida, para formar o Banco do Povo. O símbolo era uma estrela vermelha.

O Tesouro já tinha injetado mais de US$ 2 trilhões no banco, para tampar os rombos criados na época da farra creditícia. Especialistas gregos foram chamados para prestar consultoria.

Com fome, procurei um restaurante. Todos eram muito parecidos, e tinham a mesma estrela vermelha na entrada. Soube então que era o resultado de um decreto do governo Mercadante em 2018. Em nome da igualdade, todos os restaurantes teriam que fornecer o mesmo cardápio pelo mesmo preço. Frango era item de luxo, e custava muito caro. Continuei faminto.

Veio em minha direção uma multidão de mulheres desesperadas protestando. Quis saber o que era aquilo, e me explicaram que, em 2014, quase todas as empregadas domésticas perderam seus empregos por causa de mudanças nas leis. Havia ficado proibitivo contratá-las. Desde então, elas vagam pelas ruas protestando e mendigando, sem oportunidades de emprego. “O inferno está cheio de boas intenções”, pensei.

Um rebuliço começou perto de mim, e uma tropa de choque surgiu do nada e arrastou um sujeito até a cadeia. Descobri que ele foi acusado de homofobia e enquadrado na Lei Jean Willys, pegando 10 anos de prisão por ter dito abertamente que preferia um filho heterossexual a um filho gay. A pena foi acrescida de 2 anos pelo uso do termo gay, em vez de “homoafetivo”.

Desesperado com tudo, eu ajustei minha máquina de volta para 2013, decidido a fazer o que estivesse ao meu limitado alcance para impedir um futuro tão maldito do meu país.

Rodrigo Constantino é economista

 

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