A saída do Paraguai do Mercosul e seu isolamento
Enviado por luisnassif, seg, 02/07/2012 - 12:36
Por Maíra Vasconcelos, de
Montevidéu, especial para o Blog
O atual governo paraguaio
passará por um isolamento político, após ser suspenso das reuniões do Mercado
Comum do Sul (Mercosul), ao menos até as próximas eleições presidenciais, em
abril de 2013. O mandato de nove meses, a ser cumprido por Federico Franco, e o
processo que conduzirá o país ás próximas eleições, será monitorado pelo
Mercosul, que de acordo com o cenário político internacional, poderá prolongar o
prazo de suspensão. Com o Paraguai temporariamente carta fora do jogo, a crise
interna do país foi a oportunidade vista pelo Mercosul para crescer com a
inclusão da Venezuela.
“Venezuela é o quarto exportador de petróleo, e tem poder de
voto nas Nações Unidas. Distribui petróleo a muitos países e tem negócios
fortes. O Paraguai leva o voto de Taiwan. O que posso lhe dizer?”.
As projeções frente ao atual cenário de conflito político
internacional vivido pelo Paraguai foram desenhadas por Milda Rivarola,
historiadora e socióloga Paraguaia, exilada política na Espanha e na França, por
dez anos, durante a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989). Ela afirmou não
ser “luguista” e contou ter rejeitado o cargo de ministra de Relações
Exteriores, ao ver a impossibilidade de trabalhar com os políticos disponíveis
no Congresso.
“Suspender e observar. Em linguagem médica se chama quarentena.
Alguém que tem um vírus perigoso é afastado dos demais, observado e depois são
tomadas as medidas, se é que essa enfermidade é realmente contagiosa”, concluiu,
irônica, Milda Rivarola.
Segundo a socióloga, a classe política paraguaia irá entender
as desvantagens em não participar do Mercosul, quando for tomada alguma medida
econômica, como a elevação dos impostos aos empresários que comercializam com os
países do bloco.
Pois, de acordo com Rivarola, apenas com aplicações econômicas
os empresários agroexportadores que apoiaram e fomentaram o golpe contra o
ex-presidente Fernando Lugo, entenderão o que significa a suspensão do Mercosul
e, assim, poderiam deixar de apoiar o atual governo de Federico
Franco.
“Quando os produtores de soja, os pecuaristas e industriais
perceberem o que lhes custou o golpe, aí podem deixar de apoiar o governo. Eles
acreditaram que o golpe sairia grátis. É preciso mostrar o que custa ser
suspenso do Mercosul. Que sintam no bolso, pois é o único lugar onde entendem”,
afirmou Rivarola.
Ao tratar a classe política paraguaia de predadores do Estado,
Rivarola ressaltou que o parlamento atuou sem pensar nas consequências
políticas, pois não sabem administrar e não têm conhecimento sobre relações
exteriores.
“Não pensaram nas consequências. Provocaram um conflito externo
que não sabem dirigir. Não administram a posição e situação que o Paraguai tem
no mundo”, disse Rivarola, que lembrou o fato de que o início da guerra da
Tríplice Aliança (1864-1870) foi celebrado no Paraguai, e ela acredita que agora
o cenário se repete.
“Estão fazendo o mesmo convertendo um conflito externo no
Mercosul, que não podem administrar, em propaganda política interna. Retornaram
da reunião da OEA dizendo que foi um êxito, quando foram desmerecidos. E falam
como se não existisse internet”, afirmou Rivarola. Durante a reunião da
Organização dos Estados Americanos (OEA), não foi decidido o envio de uma
delegação ao país, o que fez o secretário-geral, José Miguel Insulza,
disponibilizar-se para verificar a situação político-social.
Suspenso até...
A possibilidade de seguir suspenso das reuniões do Mercosul,
após abril de 2013 – mesmo ao cumprir com as eleições presidenciais livres e
democráticas – não deixa de ser considerada pela possível continuidade dos
desacordos entre as políticas externas e internas implementadas pelo Paraguai e
os demais países do bloco.
Para Milda Rivarola, o país não traz benefícios ao Mercosul,
pois impõe vetos aos projetos de crescimento do bloco, como era a
impossibilidade de acordos comerciais com a China, devido ás relações do
Paraguai com Taiwan, e além de sempre haver sido o único país contrário ao
ingresso da Venezuela.
“Isso era o Paraguai no Mercosul, um país pequeno que não
oferecia nenhuma vantagem comparativa e impunha veto a todos os projetos de
desenvolvimento do bloco para construção de um conjunto competitivo frente á
União Europeia e outras uniões mundiais”, disse Rivarola.
Mais um fator que poderia somar como justificativa para o
prosseguimento da suspensão do Paraguai, no Mercosul, é quem será o presidente
eleito no próximo ano. Questionada sobre a possível vitória de um dos três
empresários mais ricos, Horacio Cartes, candidato pelo Partido Colorado, que
deixou de governar o país, por primeira vez na história, após a vitória de
Fernando Lugo.
“Difícil pensar que sentarão para dialogar com Horacio Cartes”,
afirmou Rivarola. Horacio Cartes esteve preso por evasão de divisas, na época da
ditadura militar, hoje, é dono de várias empresas, inclusive da marca de
refrigerante mais popular do Paraguai (Pulp) e conhecido como dono do “Club
Libertad”, o qual atualmente preside.
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