quarta-feira, 12 de setembro de 2012





















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O caso do advogado Amauri Baragatti
Enviado por luisnassif, qua, 12/09/2012 - 14:29

Por Andre Borges Lopes

DR. BARAGATTI, O REI-SOL

Anda em baixa no Brasil aquele tipo de jornalismo investigativo que gastava saliva e sola de sapato, em vez de receber fitas e dossiês de arapongas contratados por bicheiros e quetais. Não fosse por isso, talvez alguém nas grandes redações de São Paulo já estaria agora correndo atrás da fascinante história do advogado Amauri Jacintho Baragatti, 46 anos, preso na semana passada na capital paulista, acusado de golpes que podem bater na casa dos 20 milhões de reais. Mas, como você podem ver pelas fontes que eu cito ao final do texto, a notícia só causou interesse nos blogs e jornais de província.

Pelo que nos informa a polícia, Baragatti ludibriava empresários do interior paulista, de Santa Catarina e do Paraná com o manjadíssimo conto-do-vigário da intermediação privilegiada de empréstimos do BNDES. Como de costume, recebia a propina e não entregava o produto. Aparentemente, apenas mais uma ocorrência policial de golpe do bilhete premiado, substituindo-se a usual velhinha aposentada da porta da Caixa Econômica por meia dúzia de empresários interessados em facilidades no caminho das tetas da Viúva.

O fisco e a bala de prata

No entanto, o suposto estelionatário Amauri Baragatti tem uma história bem mais interessante que a da maioria dos vigaristas ordinários da praça. Seu nome surgiu na mídia em 2010, junto com os de diversos figurões tucanos no caso do "escândalo da violação dos sigilos fiscais" da última campanha presidencial, uma operação nebulosa que misturava um contra-ataque preventivo do candidato José Serra diante das revelações privatizantes de outro Amauri, com a enésima tentativa oposicionista de forjar uma bala-de-prata que liquidaria a candidatura do "poste" Dilma Rousseff.

Na ocasião, a Folha de São Paulo nos informou que nas investigações do vazamento fiscal "a Corregedoria também identificou acessos imotivados aos dados de Amauri Jacintho Baragatti (que foi filiado ao PSDB de São Paulo e, segundo seu assessor, hoje está no PT)". O Dr. Baragathi era então somente um advogado respeitável, especializado em direito tributário, com escritório na Alameda Santos. Ninguém procurou confirmar – por óbvio desinteresse à tese central do escândalo de ocasião – essa suposta "filiação" ao PT. Mas é fato que o Dr. Baragatti – portador do título de eleitor nº 099902230116 – já havia sido filiado ao PSDB do bairro do Ipiranga. Seu nome consta de uma lista de desfiliados por ocasião de um recadastramento, em documento com data de 2009.

Mas o Dr. Amauri não é somente um ex-tucano. Em 2003 – sabe-se lá por que ou a que preço – ele foi nomeado Consul Honorário de El Salvador em São Paulo e presidente da Câmara do Comércio de El Salvador aqui na capital. Graças ao cargo, um ano depois teve a honra de ciceronear a vice-presidenta salvadorenha em seus périplos entre autoridades da política paulista. Em 2004, recebeu da Câmara Municipal paulistana a Medalha Anchieta e um Diploma de Gratidão da Cidade São Paulo, honrarias propostas pelo vereador Edivaldo Estima, do PPS. Entre 2009 e 2011 fez parte da diretoria da ACONBRAS - Associação dos Cônsules no Brasil, com sede em São Paulo.

Cavalos, jatinhos e helicópteros

Homem de posses, dado a exibicionismos, participava como piloto – ainda que com resultados medíocres – de competições automobilísticas em Interlagos. Vivia confortavelmente entre um apartamento de luxo em Moema e uma casa no suburbio chique de Alphaville, desfilava com carrões importados, tinha cavalos de raça no Haras Cantareira e era habitué do Kartódromo da Granja Viana. Viajava a negócios em jatinhos executivos e helicópteros alugados, que fingia serem seus. Como é usual nesse tipo de personagem, usava a ostentação de riqueza e o tráfego fácil nos círculos endinheirados da cidade para ganhar a confiança e seduzir suas futuras vítimas.

De uns tempos para cá, os nebulosos negócios do advogado começaram a desandar. Com cobranças e processos se avolumando no judiciário, os oficiais de justiça passaram a ter dificuldades em encontrá-lo em seus endereços usuais. Um helicóptero registrado em seu nome desapareceu misteriosamente e foi localizado dias depois, abandonado em uma área rural do município de Ivaiporã, norte do Paraná. A polícia paulista, no entanto, nunca havia importunado o Dr. Baragatti.

A casa começou a cair quando um empresário de Tangará, Santa Catarina (386 km de Florianópolis), contratou Baragatti para obter um financiamento no BNDES para a empresa papeleira Valpaso. Uma investigação privada, conduzida por um empresário de Blumenau, alertou os diretores da Valpaso do golpe antes mesmo de a polícia entrar no caso. A Valpaso sustou cheques de parcelas do dinheiro prometido e as negociações entre as partes azedaram. Em 20 de outubro do ano passado, numa visita à cidade de Tangará, sede da Valpaso, Baragatti foi surpreendido por outros empresários que ele já teria lesado, todos exigindo devolução de dinheiro. Assustado, o advogado fez então queixa à polícia das ameaças que teria sofrido na Valpaso.

Foi esse boletim de ocorrência que colocou o Departamento de Investigações Criminais da polícia catarinense na investigação oficial. A polícia apurou que o advogado estava agenciando financiamentos frios também nas cidades catarinenses de Criciúma, Joinville, Blumenau e Jaraguá do Sul. O Deic afirma que o golpe pode passar de R$ 5 milhões só em Santa Catarina. Diz também que foram identificados mais empresários lesados no Paraná e em São Paulo, o que elevaria o total dos golpes a cerca de R$ 20 milhões. A operação foi batizada como "Rei-Sol" em homenagem aos hábitos extravagantes do advogado.
Com um mandato de prisão emitido pela justiça catarinense, no último dia 6/09 uma equipe do Deic veio a São Paulo, onde prendeu o advogado e dois supostos cúmplices: a também advogada Maria Aparecida Tragliano e o estudante de Direito Edmilson de Almeida. Os três seguem detidos em Florianópolis. O advogado de Baragatti, Gastão Rosa Filho, informou que desconhece qualquer ligação oficial de seu cliente com o BNDES. Disse ainda que: "Meu cliente é inocente, ele quer falar, quer se explicar, não é um estelionatário".

Certamente o Dr. Baragatti deve ter um monte de histórias interessantíssimas para nos contar. Seu currículo no mercado do estelionato o credencia como fonte confiável para denúncias (contra o PT, obviamente) na Folha de São Paulo. Mas, sinceramente, eu duvido que ele vá abrir a boca.
Fontes:

Jornal de Santa Catarina
http://www.clicrbs.com.br/especial/sc/jsc/19,6,3880765,Policia-prende-tres-suspeitos-de-golpe-milionario-em-Santa-Catarina.html

CangaBlog, do jornalista Sergio Rubim
http://www.cangablog.com/2012/09/exclusivo.html

Jornal Luzilândia
http://www.jornaldeluzilandia.com.br/txt.php?id=20854

Jandaia Online
http://www.jandaiaonline.com.br/noticias/helicoptero.htm


 

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