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O filme Histórias Que Só Existem Quando Lembradas
Enviado por luisnassif, qui, 06/09/2012 - 15:42


 Autor:
Maurício Colares*

Por mauriciovirtus


Página oficial: http://taigafilmes.com

Histórias Que Só Existem Quando Lembradas, de Julia Murat, é um filme, digamos, para argentino ver que também temos cinema. Calma. Não se trata aqui de nenhuma dessas rusgas futebolísticas com los hermanos. É que, com um Brasil sob dominação hollywoodiana, impressiona o nível de fomento na Argentina ao cinema nacional, o que propicia uma vultuosa produção cinematográfica, em quantidade e qualidade, nesse país.

Na semana passada, como faço constantemente, fui à sala do INCAA (Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales), perto do Congresso Nacional, em Buenos Aires. Ia para ver um filme que, à última hora, teve a sessão suspensa. Elegi outro ao acaso sem ler sequer a sinopse: Historias Que Solo Existen Al Ser Recordadas. Quando fui pagar a entrada, a atendente perguntou: “¿La película brasilera?” Surpreendido, e devido ao preconceito ao cinema do meu país, enquanto caminhava para a sala pensava em que filme brasileiro podia ver ali.

A imensa sala estava lotada. Logo nos créditos iniciais, chamou a atenção o nome da diretora: Julia Murat. Bom presságio: o mesmo sobrenome de Lucia Murat, deQue Bom Te Ver Viva e Uma Longa Viagem. Depois pensei que talvez aquela fosse irmã desta. Pela serenidade diante do tema e no manejo do tempo, pensei que, parente ou não, devia ser alguém, digamos, maduro, com vasto conhecimento cinematográfico e bastante corajoso.

Quando acabou saí sabendo e sentindo que meus olhos tinham assistido não só um filme maravilhoso, mas também muito singular. Chegando em casa, fui logo pesquisar para saber mais sobre ele. Aí descobri que Julia não é nem irmã nem tia, mas filha de Lucia, que tem 33 anos, que entre seus mestres está sua mãe e Ruy Guerra, que tem sim deste a adolescência um intensivo trabalho no cinema como atriz, roteirista e diretora de curtas e um documentário. Este que, benignamente, vi por acaso é o seu primeiro longa-metragem de ficção.

Dentre as diversas críticas ou informações sobre o filme que li em português e espanhol, uma explica que o roteiro foi inspirado no realismo fantástico latino-americano, em especial na obra de Gabriel García Márquez, Juan Rulfo e Guimarães Rosa. Tem a ver, claro, entretanto a história da cidade imaginária de Jotuomba não deixa de ser também uma história verossímil de cidades e gentes entre tantas e tantas que o cinema brasileiro tem passado ao largo.

Uma faceta do filme, que tem sido apenas notada, mas que em verdade não é casual, que por si só pode se tornar capítulo de estudos da obra, é a fotografia. Não é a toa que aí consta o nome do conhecido e profícuo cinematógrafo argentino Lucio Bonelli. Seu trabalho aqui pode ser analisado não somente dentro da relação interdisciplinar entre cinema e fotografia, mas também dentro de um campo dos estudos de teoria da imagem e estendendo-se até as mais novas formas de experimentação fotográfica.

Apesar disso, uma opinião negativa e com origem identificável sustenta que Histórias Que Só Existem Quando Lembradas é um filme direcionado não para o público, mas tão somente para os críticos e festivais de cine alternativo. Essa opinião é uma aleivosia. Neste caso, o reconhecimento por grande parte da crítica e os inúmeros prêmios que tem recebido mundo afora são fruto e merecimento do trabalho estético, da responsabilidade histórica e da posição ética do filme que Julia Murat ousou e logrou realizar.

Se um filme como esse não chega ao público no Brasil é devido ao embotamento da sensibilidade e, mais ainda, devido aos reduzidos pontos de exibição em um país hipercolonizado pelo cinema comercial norte-americano e seu modelo. Assim como pode existir, por longa formação, quem não suporte 15 minutos sem dormir, como agourou um outro opinólogo, por outro lado com certeza há uma grande quantidade de pessoas que sentem falta de filmes como esse em nosso país.

Por tudo isso, por sua beleza, simplicidade e poesia, e por suscitar uma discussão como esta, de política artística, é que este é um filme para ser lembrado, o que provavelmente não deixará de ocorrer com todos que tenham a oportunidade de vê-lo.
 

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