A nova organização do trabalho
Enviado por luisnassif, seg, 20/08/2012 - 09:23
Por Assis Ribeiro
Do Notas Socialistas
A partir da década de 1980, o capitalismo iniciou um processo de reestruturação produtiva, baseado na intensificação do uso de novas tecnologias aplicadas à produção de bens e serviços e na reorganização do trabalho junto às unidades produtivas. Tais medidas tiveram repercussão significativa para o mundo do trabalho.
Quanto à organização do trabalho propriamente dito, podemos estudá-la em dois níveis: a) organização interna em único local de trabalho; b) organização do trabalho fragmentado em unidades de produção separadas e, muitas vezes, localizadas em diferentes países.
No primeiro nível, podemos citar: supressão de várias instâncias de gerência; unificação de tarefas; extinção de linhas de produtos de inexpressiva participação percentual na produção total da empresa; supressão de estoques, de armazenagem, substituídos por uma relação direta com fornecedores e sob contrato por encomenda de peças, insumos e componentes; terceirização de algumas funções produtivas e de serviços em geral; criação do banco de horas; contrato por tempo determinado; e o estabelecimento de novas técnicas de cooptação dos trabalhadores, como, por exemplo, a participação nos lucros ou resultados da empresa, desde que cumprida as metas de produção estabelecidas. Esta técnica de cooptação cria, inclusive, a ilusão de parceria entre empregados e patrões, além de incentivar a competição entre os próprios trabalhadores, tendo em vista alcançar as metas estabelecidas pela Direção.
No segundo nível, notamos a fragmentação da produção em unidades separadas, localizadas inclusive em diferentes países. Neste caso, o capitalista busca as vantagens comparativas, isto é, produzir onde as condições sociais lhe proporcionarem maior retorno para seus investimentos. Neste nível de organização do trabalho, a matriz concebe o projeto, seu design, assegurando para si a patente, o segredo técnico-científico do projeto, e executando-o nos países periféricos, onde o custo da mão-de-obra é menor. Essa seria a nova lógica de organização produtiva globalizada.
Essas unidades de produção são, em geral, pequenas, limpas, moduladas, transportáveis facilmente para qualquer região ou país, e bastante automatizadas. Quanto ao uso mais intensivo de tecnologias aplicadas à produção de bens e serviços, notamos que há um incremento excepcional da produtividade do fator trabalho concomitantemente com menor emprego de mão-de-obra, contribuindo, dessa maneira, para o aumento exagerado do número de desempregados. Os desempregados, como se sabe, sempre desempenharam algumas funções para o sistema capitalista, tais como: baratear a compra da força de trabalho; debilitar os vínculos da solidariedade proletária e desarmar suas entidades representativas de classe; e, menos frequentemente, eram utilizados, pelo sistema, nas conjunturas favoráveis à expansão da produção capitalista.
A crescente automação da produção; a fragmentação das suas unidades produtivas e das instâncias do trabalho; a precarização das relações do trabalho e o aumento do desemprego são, todos, fatores que contribuíram para a fragmentação dos espaços da organização classista do proletariado. Pior, ainda, a reestruturação capitalista, ao introduzir novas formas de tecnologia e alterar, em grande parte, a organização do trabalho, reforçou a alienação dos trabalhadores, e por isso muitos deles já não se reconhecem como explorados no processo da produção capitalista, decorrendo daí sua hesitação em se posicionar ao lado dos lutadores sociais.
O capitalismo, graças às tecnologias desenvolvidas pela humanidade e às novas formas de exploração do trabalho proletário, gerou uma capacidade de superprodução de bens e serviços que entra em contradição com o baixo consumo dos mercados nacionais. Essa contradição se deve ao fato de a produtividade do fator trabalho, a riqueza criada pelo proletariado, não ter sido socializada. A apropriação privada da tecnologia pela burguesia fechou as portas para 40% da população mundial. O Capitalismo não precisa dessa parcela da população para produzir o que já vem produzindo, considerados o tamanho dos mercados nacionais e o perfil de distribuição da renda da população mundial.
A revolução tecnológica elevou, por um lado, exponencialmente a produtividade do fator trabalho e, por outro, concentrou seus benefícios em algumas poucas centenas de grandes corporações. A tendência de concentração de renda também se verifica no Brasil. Na década de 1990, por exemplo, alguns estudos apontavam aumento de produtividade por trabalhador na indústria de 84%, enquanto a participação do trabalho assalariado no PIB decrescia de 44% para 36%. E, atualmente, suspeita-se que ele não alcance os 40% do PIB.
A revolução tecnológica pode ser entendida como um conjunto de conhecimentos traduzidos em tecnologia para otimizar a produtividade da força de trabalho proletária e reforçar simultaneamente seu controle pela classe dominante. Ela se expressa em máquinas computadorizadas, robôs; nanotecnologia; informática e outras tecnologias de comunicação, inclusive as espaciais; máquinas de leitura óptica; produtos da engenharia de materiais; produtos da engenharia genética; produtos da engenharia bélica; produtos da química fina; tecnologias para vigilância e controle a distância etc. Surpreendente é, por exemplo, a computação gráfica. Quem assistiu ao filme O Senhor dos Anéis certamente saberá do que estamos falando, e mais recentemente, aviões robôs (drones) e experiências ligadas à guerra cibernética.
Mas, como dizíamos, a riqueza criada pelo proletariado não foi socializada, piorando as condições de vida da população mundial, pois cerca de quarenta por cento dela vive entre a miséria e a pobreza. Essa situação vem sendo agravada pela crescente dominação dos países centrais que impõem aos povos da periferia do sistema elevados custos, nas formas de exploração de seus mercados nacionais, na exaustão de suas fontes de matérias-primas e insumos, quando não os agridem belicamente. Aliás, as agressões são uma maneira de reafirmar sua hegemonia política no mundo, enquanto saqueia as riquezas nacionais. A indústria bélica, nos países centrais, é um setor importante na geração do PIB, e a guerra muitas vezes é utilizada quando o governo de plantão perde apoio político entre sua própria gente.
A reestruturação produtiva tem exigido do empresariado grandes investimentos em tecnologia, matérias-primas e insumos, bem como velocidade em sua renovação, pois se novos produtos não forem lançados, anualmente, eles encalham no mercado mundial. E esta contradição ocasiona rendimentos decrescentes, agravados pelo subconsumo dos mercados nacionais, motivado, como se disse, pela não distribuição da produtividade do trabalho, pela má distribuição de renda entre os bilhões de trabalhadores. Decorrem, também, dessas contradições a intensificação da competição entre os blocos econômicos, o incentivo à fusão de capitais, quando não conduz à quebradeira de grandes grupos empresariais. Por isso, a nova modalidade de acumulação de capital depende, mais do que nunca, da abertura dos mercados nacionais, de sua desregulamentação, do livre trânsito de produtos e de capital.
Preenchidos os espaços nos ramos da produção de bens, o capital avança, agora, para o setor de serviços, incluídos aí aqueles tradicionalmente de responsabilidade dos Estados nacionais, tais como, saúde, educação, seguridade social, saneamento, transporte, energia, comunicações etc.
O volume da mais-valia gerada nos últimos anos maximizou a importância do capital financeiro e dentro dele sua parte especulativa. Avalia-se que o montante de capital que gira anualmente nas bolsas e mercados do mundo inteiro ascenda a US$ 650 trilhões, equivalentes a dez vezes o PIB mundial. Grande parte deste capital financeiro tem servido para rolar o passivo de governos endividados, principalmente aqueles menos desenvolvidos e subalternos ao imperialismo. O capital financeiro tornou-se politicamente hegemônico em relação às frações do capital produtivo e, em razão disso, impõe diretrizes políticas aos governos de inúmeros países. O neoliberalismo, na atualidade, é a melhor política de Estado para a continuidade de seus interesses especulativos. Não é de estranhar, pois, as tentativas de redução do tamanho do Estado, principalmente nos países periféricos, e, no limite, apagar a ideia de nação da cabeça de seus trabalhadores.
O que está ficando claro para todos é a impossibilidade de o capitalismo dar respostas às demandas sociais da população mundial. O emprego formal, além de não se expandir proporcionalmente às necessidades sociais, exige cada vez mais qualificação, conquanto ele continue repetitivo. O proletariado deve estar capacitado para desenvolver habilidades polivalentes, entender as instruções operacionais e sujeitar-se à rigidez das normas do estabelecimento de trabalho. Como se vê, estas exigências eliminariam, de imediato, pelo menos um quinto da população mundial, desqualificada para o trabalho, nos moldes do capitalismo atual.
Diante do exposto, só resta ao trabalhador buscar alternativas de renda, isto é, experiências relacionadas com a autogestão, a economia solidária, o cooperativismo, o trabalho autônomo, muitas vezes informal, se quiser sobreviver dentro do sistema, ou, então, lutar pelo reforço dos movimentos sociais, demandando, sem trégua, junto ao governo de plantão a necessidade urgente de reformas sociais. Contudo, nós, trabalhadores, não devemos ter ilusão: somente o socialismo cria oportunidades para todos, pois a riqueza das nações, que é produto do trabalho do proletariado, deve ser apropriada coletivamente.
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