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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Vencedor do Nobel analisa a pesquisa científica no Brasil
Enviado por luisnassif, seg, 15/10/2012 - 15:00
Por Assis Ribeiro
Do Estadão
‘O Brasil está no bom caminho’, diz vencedor do Nobel
Andrei Netto
Conhecedor da pesquisa brasileira de sua área, físico premiado comenta os méritos e as dificuldades da ciência
Serge Haroche começou a fazer pesquisa científica em física há quase 50 anos, na época em que o lazer acabara de surgir. O ad­vento dessa tecnologia foi uma das razões que o fizeram se lan­çar à investigação sobre a intera­ção entre a matéria e os raios. O lazer era uma fonte nova, com propriedades extraordiná­rias em relação às fontes clássi­cas. Logo, seus contemporâ­neos entenderam que havia um potencial de aplicações possí­vel, não apenas para o grande público, mas em especial para a pesquisa. Era possível usá-lo co­mo instrumento para aumentar o conhecimento sobre o mun­do - e em particular sobre o mundo microscópico.
No curso dos últimos 50 anos, Haroche foi testemunha de revoluções sucessivas da físi­ca atômica e ótica, com ganhos gigantes em sensibilidade, tem­peratura, precisão das experiên­cias. Cada um desses avanços - alguns dos quais conquistados nos anos 50 e 60 pelo seu labo­ratório parisiense, o Kastler Brossel, uma grife da ciência mundial, com três prêmios Nobel de Física - abriu novas por­tas para experiências.
O resultado do empenho foi conhecido na semana passada, quando, ao lado do americano David Wineland, Haroche foi o vencedor do Nobel.
Na sexta-feira, Haroche rece­beu o Estado em seu escritório no prestigioso Collège de France para uma entrevista exclusi­va. Na conversa, o cientista fez uma cronologia das grandes descobertas de sua área e expli­cou seu trabalho, mas também falou de algumas de suas pai­xões. Entre elas estão as artes - a pintura em especial. "Há uma conexão intelectual entre a arte e a ciência", filosofa. "Grandes momentos de efervescência ar­tística foram acompanhados de grandes avanços na ciência." Além das artes, Haroche tem outra paixão: o Brasil, onde o fí­sico francês passa férias todos os anos. A seu pedido, a reporta­gem mantém em segredo o no­me da ilha baiana e da pousada em que ele se hospeda, para não quebrar o encanto. Mas, em troca, Haroche analisa na entrevista a seguir o estágio da física e da pesquisa científica no Brasil.
O seu trabalho se inscreve em uma tradição de pesquisa científi­ca, com descobertas importan­tes. O senhor poderia descrever essa cronologia?
O laboratório Kastler Brossel, onde eu estudava, em Paris, fa­zia experimentos com o resfria­mento dos átomos, o que valeu o prêmio Nobel a Glaude Tannoudji. Na época, mudou-se não só o estado interno do áto­mo, mas a sua velocidade. Resfriou-se o átomo até paralisá-lo, o que abriu perspectivas extraordinárias, porque pudemos encurralá-lo e fazer pesquisas cada vez mais precisas. Em para- leio, fizemos o mesmo com a luz. No início de minhas expe­riências, há 30,40 aríos, nós pe­gávamos grãos de luz, os fótons, e trabalhávamos com mi­lhares e milhares deles. Pouco a pouco, aumentamos a sensibilidade até estudar campos lumi­nosos que continham cada vez menos fótons. Chegamos a um grão de fóton único, que detec­tamos sem destruir. Tudo issoaconteceu porque a tecnologia do lazer evoluiu. A tecnologia dos computadores também nos permitiu controlar as experiên­cias, armazenar dados e estimu­lar correlações. É nessa linha que meu trabalho se situa.
Muito se questiona sobre os objetivos práticos de uma pesqui­sa científica como a sua. Mas, no seu caso, ela gera novas pesqui­sas, não é isso?
Sim, ao mesmo tempo em que nós podemos fazer mais pes­quisas, essas descobertas esti­mulam os teóricos, que refle­tem sobre o que poderemos fazer com essas ferramentas. Foi nesse âmbito que comecei mi­nha colaboração com os cole­gas brasileiros, em particular com Luiz Davidovich e Nicim Zagury, que trabalhavam na época na PUC do Rio e, há 20 anos, passaram à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tive outros estudan­tes brasileiros, como Paul Nussenzveig, filho de Moisés Nussenzveig, um importante físi­co, que é docente da Universi­dade Estadual de São Paulo (USP). Colaboramos também com físicos de Recife.
São trabalhos são de ponta? São importantes para a pesquisa internacional?
Sim, são de ponta. Luiz Davido­vich e Nicim Zagury são teóri­cos de grande qualidade, que têm claramente nível de pesqui­sadores internacionais e pode­riam estar em universidades americanas. Davidovich deixou o Brasil durante a ditadura mili­tar, fez sua tese com Moisés Nussenzveig, na Universidade de Rochester, nos EUA. Quan­do a situação política se liberali­zou, retornou porque ama o Brasil e queria ajudar a desen­volver a física no País. Ele teve um papel muito importante pa­ra o desenvolvimento da pesqui­sa na sua área.
O senhor realmente conhece o cenário brasileiro.
No que diz respeito ao reconhe­cimento de algumas personali­dades brasileiras, não há dúvida de que estão no primeiro nível. Davidovich vem muito à França porque participa de conselhos de organismos da Europa. Veja bem: ele dá conselhos. Há ou­tro laboratório que eu gostaria de mencionar: o de Vanderlei Bagnato, na Universidade Fede­ral de São Carlos. Ele tem um enorme dinamismo. Colabora menos comigo, mas bastante com pesquisadores dos Estados Unidos. Creio que tenha conta­tos com o grupo de David Wineland. No mês de fevereiro de 2013, serei convidado de uma conferência sobre um grande fí­sico americano chamado Da­niel Kleppner, que receberá o tí­tulo de doutor honoris causa. Eu participarei dessa homena­gem. Tudo isso mostra a abertu­ra ao exterior da pesquisa no Brasil. Conheci também Sérgio Rezende, que me pareceu mui­to simpático. É alguém que me impressionou muito porque, mesmo sendo ministro, conti­nuou a publicar artigos em re­vistas científicas, que assinava sozinho. Se fossem artigos assi­nados com coautores, podería­mos imaginar que a maior parte do trabalho tivesse sido do se­gundo autor. Mas ele assinava sozinho, o que queria dizer que era ele mesmo. Achei impressio­nante que ele tivesse o tempo e o entusiasmo para fazê-lo. Não tenho mais notícias suas, mas me parece que está feliz em seu laboratório.
O senhor trabalha na França em um laboratório que tem histó­ria, o que ajuda na pesquisa. 0 Brasil ainda não tem essa tradi­ção, certo?
Mas Davidovich está criando es­sa história, eu diria. Quando ele chegou à UFRJ, teve a ideia de criar um laboratório experimen­tal e atrair pesquisadores que poderiam fazer experiências e aplicar ideias de seu grupo de teóricos. Sei que no seu grupo há pesquisadores brasileiros de qualidade e um americano de grande valor que foi viver noBrasil Não sei como a situação se desenvolveu nos últimos tempos, mas houve alguns pro­jetos financiados com um bom dinheiro, como o Millenium. É claro que há problemas, como as questões de aduana, que tor­nam difícil obter equipamentos vindos do exterior. Mas a últi­ma vez que o visitei pude cons­tatar que seu laboratório de Davidovich funcionava com boa capacidade.
Isso quer dizer que estamos num bom caminho? O que nos falta? Estrutura, investimento?
Sim, no que diz respeito à cur­va, ela é crescente, vocês estão no bom caminho. Mas eu cons­tato que há dificuldades, claro. Falta o histórico, que está sen­do construído. É preciso bastan­te dinheiro e, sobretudo, estabi­lidade. Pesquisa é algo para o longo termo. Ela suporta mal o efeito acordeom, como quando se injeta muito dinheiro em um ano, com grande entusiasmo, e no ano seguinte se esquece o projeto. Não sei se isso ainda es­tá acontecendo no Brasil. A pes­quisa no Brasil tem o potencial para se desenvolver. E posso di­zer que é líder na América Lati­na. Há outros países tentando se desenvolver, como a Argenti­na, mas eles têm problemas de dinheiro piores que o Brasil
E qual é o cenário na França? O que lhe permite desenvolver essa pesquisa de tão alto nível?
Na École Normal e no Collège de France temos uma situação privilegiada pelo reconhecimen­to e pelos prêmios que se acu­mularam ao longo dos anos. Nós recebemos crédito sem muito problema, da França e da União Européia. O European Research, Council (ERG) nos permite trabalhar, por conce­der bolsas para pesquisadores juniores e de menos de 40 anos. São bolsas de pesquisa impor­tantes. Uma delas deu ao nosso grupo US$ 2,5 milhões em cin­co anos, fora os salários, que são pagos por outras institui­ções. Essa é uma soma que nos permite trabalhar muito bem nas pesquisas. A Europa tem um papel muito importante. Talvez a América do Sul deves­se fazer algo parecido em nível continental.
E o cenário mundial da pesqui­sa em física? Estados Unidos e França estão à frente, como suge­re o Nobel?
Eu diria os Estados Unidos e a  Europa em geral, a França, a Alemanha, a Áustria, a Inglater­ra, a Suíça. Há um ótimo labora­tório em Florença, na Itália, bons laboratórios no Japão. O Brasil está em outro patamar, claro. Mas o grupo de Luiz Davidovich publicou na Science e na Nature experiências que tive­ram bastante repercussão. Eles encontraram um nicho que lhes permite desenvolver expe­riências originais com equipa­mentos que são menos modernos que os nossos. Isso exige imaginação e inteligência.
Além de estrutura e previsibili­dade nos investimentos, imagino que bons salários sejam essen­ciais para atrair pesquisadores, certo?
Ah, é preciso pagar salários ra­zoáveis. Em nível europeu os salários são bons, em nível francês é menos, porque o ini­ciai é muito baixo, começa com € 1,7 mil, € 1,8 mil, o que impede um pesquisador de vi­ver em Paris sem ter problemas que prejudiquem sua pes­quisa. Só quando se chega aos níveis mais elevados da carrei­ra os salários são mais eleva­dos. Há muitos estudantes bri­lhantes que partem para a ini­ciativa privada, nas finanças, no business, na especulação fi­nanceira. É uma pena gastar as competências adquiridas dessa forma. Mas nunca segurei nin­guém que queria partir. A pes­quisa científica exige a paixão.
  

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