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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O debate sobre o racismo na obra de Monteiro Lobato
Enviado por luisnassif, seg, 15/10/2012 - 15:33
Por Marco Antonio L.
Do Sul 21
Dá licença, meu branco!
Monteiro Lobato: o escritor tem sua obra reavaliada sob o ângulo moral
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
Irene no Céu, de Manuel Bandeira
No último dia 25 de setembro, não houve acordo na audiência de conciliação que discute a adoção do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE). Acontece que o Conselho Nacional de Educação (CNE) liberou a adoção do livro para o Programa com uma nota explicativa sobre os “estereótipos raciais” utilizados por Lobato, atitude que o Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara), autor do mandato de segurança, considera insuficiente. Na audiência, reuniram-se representantes do Ministério da Educação (MEC) com membros do Iara. Sem conciliação, a ação volta ao Supremo Tribunal Federal (STF) e será julgada pelo ministro Luiz Fux.
Há muita confusão, algaravia mesmo, a respeito do que seria uma tentativa do Iara de censurar a obra de Monteiro Lobato. Porém o que se discute não é a proibição a uma obra literária, mas a adoção ou não da mesma em um programa governamental. Ou seja, o que está em jogo não é a liberdade de expressão nem a retirada de Monteiro Lobato das livrarias.
Em 2010, o CNE já havia recomendado que Caçadas de Pedrinho fosse retirado do Programa. A recomendação causou indignação em parte da comunidade literária — que considerava que a medida restringiria a liberdade de expressão no país. “Cabe aos professores orientar os alunos no desenvolvimento de uma leitura crítica”, afirmou a Academia Brasileira de Letras na época.
Então, em 2011, o CNE voltou atrás e, hoje, como dissemos, Caçadas de Pedrinho é distribuído nas escolas com uma nota explicativa.
O poeta Ronald Augusto
A questão não é simples. Monteiro Lobato é um autor lembrado com saudade por adultos que o conheceram durante suas infâncias. Contudo, quando lidos por adultos, seus livros podem surpreender em razão de conteúdos pesadamente racistas emitidos, por exemplo, por Emília, uma personagem que convida as crianças a uma plena identificação.
Abaixo, transcrevemos um texto de Ronald Augusto publicado em seu blog. Nele, o autor expõe com nitidez uma outra leitura de Lobato que não aquela dos nostálgicos de suas infâncias.
Ronald Augusto é poeta, músico, editor e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de valha (1992), Confissões aplicadas (2004), No assoalho duro (2007), Decupagens Assim (2012) e Cair de Costas (2012). Dá expediente nos blogs: poesia-pau.blogspot.com e poesiacoisanenhuma.blogspot.com. É diretor associado do website Sibila. (Milton Ribeiro)
.oOo.
Dá licença, meu branco!
Irene preta, Irene boa. Irene sempre de bom humor. Quem quer ver Irene rir o riso eterno de sua caveira? Parece que só mesmo no espaço sacrossanto da morte, onde deparamos a vida eterna, está permitido ao negro não pedir licença para fazer o que quer que seja. Não se pode afirmar, mas talvez Manuel Bandeira tenha tentado um desfecho ambíguo para o seu poema: essa anedota malandramente lírica oscila entre “humor negro” e humor de branco, o que, afinal de contas, representa a mesma coisa. No além-túmulo – e só mesmo aí –, não nos será cobrado mais nada. Promessa de tolerância ad eternum, e sem margens, feita por um santo branco, esse constante leão de chácara do mais alto que lança a derradeira ou a inaugural luz de entendimento sobre a testa da provecta mucama. Menos alforriada que purificada pela morte, Irene está livre de sua “vida de negro”, mas, desgraçadamente, só ela dá mostras de não ter assimilado isso ainda; quando a esmola é demais o cristão fica ressabiado. Na passagem desta para melhor não temos à mão uma borracha que apague os arquivos do vivido. Quem sabe a ideia lhe pareça intolerável. Ao fim e ao cabo, continua negra, ou seja, naïf, burrinha; as luzes do seu espírito não são intensas a ponto de isentá-la da pecha de “faísca atrasada”. Irene ainda persiste, para a frustração do estafeta do juízo final, como uma negra da alma negra.
Não por acaso os personagens negros de Monteiro Lobato estão confinados dentro de lógica idêntica. Pretos e pretas solícitos, velhos e mansos, ou, no extremo, diabólicos e traiçoeiros, como o Saci, cachimbo no beiço e barretinho vermelho, compósito de Vulcano e Ossanha, rapazola deformado, sobre uma perna só e/ou coxo. Condição que talvez lhe faculte um pouco da tolerância do senhor, da capatazia social para com suas oscilações de ânimo advindas do duplo “estigma” físico. Seu caráter fantástico de espírito malévolo e respondão é relevado pelo déficit que ostenta relativamente à “boa aparência” dos senhores. Já Tia Nastácia, irmã siamesa de Irene, está fadada à humilhação doméstica, no livro As caçadas de Pedrinho é comparada a uma “macaca de carvão”. Só para avivar a humana emotividade dos devotos de Monteiro Lobato, registro aqui a existência do substantivo anastácio, de onde deriva o nome da personagem, e cuja acepção indica os significados de “simples e ingênuo: tolo, palerma”. Também o Tio Barnabé, esse natural pretendente à mão da Tia Nastácia, recebe um nome-condenação: barnabé, substantivo masculino que designa “funcionário público, especialmente o de baixo nível hierárquico”.
 

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