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segunda-feira, 5 de novembro de 2012










A situação dos jornais na França
Enviado por luisnassif, seg, 05/11/2012 - 08:39



Por Assis Ribeiro

Do Le Monde Diplomatique

"Não temos tempo"

por Serge Halimi

A audiência on-line não dá muito retorno financeiro aos que pesquisam, editam, corrigem e verificam a informação. Assim, pouco a pouco, constrói-se uma estrutura econômica parasitária que concentra em apenas alguns todos os lucros do comércio – enquanto os outros arcam com os custos da “gratuidade”

Aqueles que sofrem com a falta de atenção à sua causa, ou atividade, em geral deparam com a mesma explicação: “Não temos tempo”. Não temos mais tempo de mergulhar em um livro “muito longo”, de passear sem rumo por uma rua ou por um museu, ver um filme com mais de noventa minutos. Nem de ler um artigo que aborda um assunto familiar, envolver-se com militância ou fazer qualquer outra coisa sem ser interrompido, em toda parte, por algo que finalmente desvia nossa atenção para outra coisa.

De um lado, essa falta de tempo decorre da aparição de tecnologias que nos permitem ganhar mais tempo e do aumento da velocidade dos deslocamentos, das pesquisas, da transmissão de informação e correspondências – facilidades acessíveis a custos baixos e até irrisórios. Mas, simultaneamente, a exigência de velocidade atua sobre o tempo de cada um, e o número de tarefas a serem realizadas aumentou vertiginosamente. Sempre conectados. Proibidos de se descontrair. Não temos tempo.1

Às vezes, é o dinheiro que falta: não temos mais os meios. Se por um lado um jornal como o Le Monde Diplomatique ainda custa mais barato que um maço de cigarros na França, por outro implica uma despesa que assalariados, desempregados, trabalhadores em situação precária e aposentados não julgam pertinente.

Entre outras, essas razões explicam o desinteresse pela imprensa escrita. Parte de seus antigos leitores a abandona à medida que a janela de papel aberta para o mundo se transforma em uma obrigação de leitura suplementar em uma agenda sobrecarregada – principalmente se for necessário pagar por isso. Um dos proprietários de Free e do Le Monde, Xavier Niel, antecipa que os jornais desaparecerão no espaço de uma geração.

Se o financiamento desses meios fosse para as telas e tablets, não haveria com o que se alarmar: um substitui o outro. E mais: nesses suportes, a ciência, a cultura, o lazer e a informação se propagariam mais rápido e chegariam aos lugares mais remotos. De resto, muitos jornais concebidos com o único objetivo de aumentar os lucros (ou a influência) de seus proprietários poderiam muito bem sucumbir sem nenhuma perda para a democracia. A diferença, contudo, é que as novas tecnologias da informação não asseguram ao jornalista um emprego ou uma renda estável como a forma anterior dos jornais e meios de comunicação impressos. A menos que seja exercida de forma gratuita, ou seja, com outras fontes de renda, como a maioria dos blogueiros, a profissão está ameaçada pelo pior: o fato de não saber se tem um futuro pela frente.

No trem, no metrô, em um café, em um congresso político: em outra época, a imprensa reinava nesses ambientes; hoje, quantas pessoas exibem um jornal que não seja gratuito nesses lugares? Não se trata de uma impressão: números confirmam a realidade dessa deserção. Na Europa ocidental e nos Estados Unidos, a distribuição de jornais impressos caiu 17% nos últimos cinco anos. E esse recuo aumenta. Na França, o período de febre eleitoral já não provoca corridas às bancas de jornal; de janeiro a agosto de 2012, os periódicos que abrangem temas gerais sofreram um recuo de 7,6% em relação ao ano passado. Durante as Olimpíadas, em julho e agosto, até um jornal esportivo como o L’Équipe– em situação de monopólio – viu suas vendas caírem.

Na esperança de impedir essa queda, meios com jornalismo de qualidade e crítico se veem obrigados a publicar manchetes que chamem mais atenção, como as que invadem a intimidade das pessoas, e artigos sobre qualquer coisa – inclusive com provocações isoladas de caricaturistas direcionadas a fundamentalistas. São os “anos mais sombrios de nossa história”. Os canais de notícias continuam amplificando estardalhaços. Adivinhar qual excesso mobilizará a atenção da mídia ou ocultar uma informação que exige do leitor um pouco mais que um “curtir” tornou-se uma brincadeira infantil. Assim, continua crescendo a parcela de vulgaridades e catastrofismos em diversos jornais – cujos proprietários acreditam que essas medidas podem atrair a atenção de leitores por algumas horas. Mas, se é assim, como convencer o leitor a pagar por algo que ele pode encontrar – gratuitamente e em profusão – em outras partes?

Em particular na internet. Hoje, aos 35 milhões de franceses que leem um jornal diariamente, somam-se ou se superpõem 25 milhões de internautas que consultam pelo menos um site de imprensa por mês. Mas os internautas foram habituados a acreditar que o reino da sociedade sem dinheiro havia chegado – salvo pelo fato de precisarem comprar, a preços altos, um computador, um smartphoneou um tabletque permitam o acesso à imprensa na rede mundial. A audiência on-line, portanto, não dá muito retorno financeiro aos que pesquisam, editam, corrigem e verificam a informação. Assim, pouco a pouco, constrói-se uma estrutura econômica parasitária que concentra em apenas alguns todos os lucros do comércio – enquanto os outros arcam com os custos da “gratuidade”.2

Um jornal como o The Guardian, por exemplo, tornou-se gratuito graças a seu site na internet, audiência número um no Reino Unido e terceiro no mundo, mas isso não impediu – ao contrário – que perdesse 57 milhões de euros no ano passado e demitisse uma centena de jornalistas. Apesar da necessidade de cada vez mais investimentos no setor, o crescimento dos jornais em versão digital coincide, em geral, com a redução das vendas em bancas. Sem dúvida, cerca de 6 milhões de britânicos leem pelo menos um artigo doGuardian por semana, mas apenas 211 mil o compram cotidianamente. É essa pequena população de compradores, em declínio, que financia a leitura gratuita dos internautas. Um dia, certamente, essa viagem terá de ser interrompida pela falta de combustível.

O páreo perdido dos editores também está relacionado à publicidade. No início, o modelo da “gratuidade” on-line imitava a lógica econômica da rádio comercial, depois, a dos jornais gratuitos distribuídos em estações de metrô por trabalhadores precarizados. No caso de rádios privadas (RTL, Europe 1, NRJ etc.), o retorno vem dos spotspublicitários que martirizam os tímpanos em meio aos programas. Mas, no segundo caso, se Vincent Bolloré e TF1, respectivamente proprietários de Direct Matine Métro, têm como projeto uma sociedade da gratuidade, é com a condição de que esta seja mais lucrativa. Para isso, cobra-se diretamente do anunciante, que, em troca, ganha feixes de leitores e audiência.

Com a informação on-line, o fiasco dessa estrutura tornou-se patente. Por mais que um site de imprensa seja um sucesso de audiência, os recursos advindos da publicidade vêm em conta-gotas, porque o setor tem muito mais interesse em anunciar em mecanismos de busca – que, segundo Marc Feuillée, presidente do Sindicato da Imprensa Cotidiana Nacional, se tornaram “megavitrines publicitárias, engolindo a quase totalidade dos recursos de nossos anunciantes”. Feuillée precisa com números: “Entre 2000 e 2010, os negócios publicitários envolvendo mecanismos de busca cresceram de 0 a 14 bilhões de euros, enquanto na imprensa on-line o crescimento no mesmo período foi de 0 a 250 milhões de euros”.3 Informado com detalhes dos gostos e leituras de cada um de nós, capaz (como Facebook) de vender, assim que possível, essa avalanche de dados pessoais aos publicitários que os utilizarão para “focar” melhor seu público-alvo, o Google também se tornou mestre na arte de fazer “otimização fiscal” na Irlanda e nas Ilhas Bermudas. Gigante, essa multinacional quase não paga impostos.

Se a imprensa está mal, a maior parte dos títulos dissimula essa situação, maquiando seus indicadores. Assim, parte da difusão proclamada paga – mais de 20% no caso de Échos, Libération ou Figaro – é em realidade ofertada em estações, companhias aéreas, armazéns de luxo, hotéis, escolas de comércio, estacionamentos. O número reivindicado de assinantes, por sua vez, seria muito mais baixo se não fossem as técnicas de hard discount, como o exemplo do jovem diretor do Nouvel Observateur, que se já não bastasse propor treze números de sua revista por 15 euros, também agregou ao pacote um “relógio da coleção Lip clássicos”. O dono da L’Expresscom suas echarpes coloridas fez melhor: assinatura de 45 números por 45 euros, que tinha como bônus um “despertador com visor luminoso e sonoro”.

Outras astúcias permitem fortalecer a audiência desses sites. Assim, quando um título da imprensa que pertence a Serge Dassault adquire um site especializado em espetáculos ou meteorologia, aproveita para incluir cada internauta preocupado com o sol em suas férias no grupo de leitores da “marca” Le Figaro.

Sejamos sinceros também sobre a situação da nossa franquia: desde janeiro deste ano, a distribuição do Le Monde Diplomatique caiu 7,2% na França. A falta de tempo e de dinheiro; o desencorajamento diante de uma crise que prevemos bem antes dos outros, mas que não podemos remediar sozinhos; a contestação da ordem econômica e social que raramente encontra eco na política: todos esses fatores contribuem para nosso recuo.

À degradação de nossa situação financeira, soma-se uma nova baixa em nossas receitas publicitárias. Aos nossos numerosos leitores, que em geral não aprovam esse tipo de recurso, prometemos que a publicidade não ultrapassaria o teto de 5% de nossos negócios. Em 2012, contudo, esse número não chegava a 2%. Graças a uma política intransigente sobre a tarifa de nossas assinaturas – não liquidamos nossas publicações nem oferecemos outra coisa além dos jornais encomendados pelos assinantes – e também à campanha de doações que relançamos cada ano na mesma época e que ajuda a financiar nossos projetos de desenvolvimento, nossas perdas permaneceram modestas. Mas, em 2012, este jornal vai terminar em déficit. E nada garante que a tendência será revertida no ano que vem.

Raios de luz

No entanto, alguns raios de luz clareiam a paisagem. Uma nova edição eletrônica será lançada nos próximos meses. Ela permitirá ao leitor passar instantaneamente de um formato que reflete o jornal em papel, com sua sequência e paginação, a outro mais adaptado a todas as telas. Uma edição específica destinada aostablets e outros dispositivos de leitura digital está em preparação. Além disso, observamos que nossos arquivos suscitavam um interesse excepcional – as vendas de nosso último DVD superaram todas as expectativas. Em breve, também proporemos a nossos assinantes, por uma soma módica, o acesso instantâneo a qualquer um de nossos artigos publicados entre o nascimento do Le Monde Diplomatique em maio de 1954 e a edição atual. Finalmente, será possível a todos, assinantes ou não, acessar nossos arquivos de documentos durante alguns dias mediante o pagamento de uma taxa. Essas novas funcionalidades do site, que esperamos inaugurar até o início do próximo ano, demandaram um longo e pesado investimento de nossa parte. Esperamos, agora, a entrada de recursos mais regulares: eles contribuirão para a defesa de nossa independência.

Mas também é preciso, juntos, manter as vendas do jornal. Isso implica, em primeiro lugar, que as pessoas saibam de sua existência. A visibilidade do Le Monde Diplomatique em bancas e livrarias diminui à medida que a rede de distribuição se deteriora. Escravos da profissão situada na ponta da cadeia, submetidos a horários e condições de trabalhos exaustivos, acossados pela concorrência da imprensa chamada “gratuita”, centenas de donos de bancas de jornal e pequenas livrarias de imprensa fecharam as portas nos últimos anos (918 apenas em 2011). Contudo, graças a esses trabalhadores, os leitores estabelecem relações com nosso jornal pela primeira vez. Como fazer chegar nossas publicações em que tal pesquisa, análise ou reportagem foi publicada àqueles que ainda não são assinantes?

Quando se trata do Le Monde Diplomatique, a promoção fraternal e as citações entre os meios de comunicação são simplesmente silenciadas. Assim, entre 19 de março e 20 de abril de 2012, período escolhido ao acaso por um de nossos estagiários, as citações de imprensa de Europe 1, RTL e France Inter evocaram 133 títulos, entre eles Le Figaro(124 vezes), Libération(121 vezes), sem mencionar France FootballePicsou Magazine. O Le Monde Diplomatiquenão foi citado nem sequer uma vez. Difícil ser menos presente que o principal jornal francês publicado no mundo inteiro (51 edições em trinta idiomas).

No fundo, pouco importa: nossa rede social é você. Portanto, contamos com você para encorajar outras pessoas a viverem nossas aventuras intelectuais e compromissos, para tornar este jornal e seus valores mais conhecidos, convencer as pessoas a seu redor que não é urgente nem necessário reagir a todas as “polêmicas”, abraçar o mundo para no fim não ter nada, percorrer todos os caminhos, sem poder se lembrar de todos. E que é bom – por exemplo, uma vez por mês? – abandonar a sala onde pessoas vociferam e decidir parar um pouco para refletir.

Para que pode servir um jornal? Para aprender e compreender. Dar um pouco de coerência a um mundo onde outros empilham informação sem parar. Pensar criticamente em nossas lutas, identificar e tornar conhecidos seus atores. Não continuar solidário a um poder em nome de referências traídas por suas próprias ações. Recusar fundamentalismos identitários que esquecem que a herança do “Ocidente” é o Palácio de Verão, a destruição do meio ambiente, mas também o sindicalismo, a ecologia, o feminismo – a Guerra da Argélia e os “carregadores de bagagem”. E que o “Sul”, os países emergentes que desarticulam a ordem colonial, engloba forças medievais, elites predadoras e movimentos que as combatem – a gigante taiwanesa Foxconn e os trabalhadores de Shenzhen.

Para que pode servir um jornal? Em tempos de recuo e resignação, pode servir para mostrar caminhos de novas relações sociais, econômicas, ecológicas.4 Para provocar e estimular sociais-democratas, sem trégua. Foram eles, por exemplo, que a partir de nossas análises lançaram a ideia de taxar transações financeiras,5 depois a de estabelecer um teto para a renda.6 Os dois temas levantaram polêmicas que ainda persistem, e segundo o relato de vários jornalistas, nosso artigo da edição de fevereiro último inspirou François Hollande a propor a criação de um imposto de 75% para rendas superiores a 1 milhão de euros. Um jornal pode também, portanto, lembrar que a imprensa nem sempre está do lado da indústria ou de empresários contra aqueles que lutam obstinadamente para salvar o planeta e mudar o mundo.

A existência e o desenvolvimento de um jornal com essas características não podem depender apenas do trabalho da equipe reduzida que o produz, por mais entusiasta que seja. Mas sabemos que podemos contar com você. Juntos, tomaremos o tempo necessário.

1 Cf. “La tyrannie de la vitesse” [A tirania da velocidade], Sciences Humaines, jul. 2012.
2 Ler “L’information gratuite n’existe pas” [A informação gratuita não existe]. Disponível em:www.monde-diplomatique.fr/carnet/2010-10-07-information.
3 Correspondance de la presse, Paris, 17 set. 2012.
4 Ler, por exemplo, Bernard Friot, “La cotisation, levier d’émancipation” [A cotização, alavanca da emancipação], Le Monde Diplomatique, fev. 2012; “Le temps des utopies” [O tempo das utopias], Manière de Voir, n.112, ago./set. 2010.
5 Cf. Ibrahim Warde, “Le projet de taxe Tobin, bête noire des spéculateurs, cible des censeurs” [O projeto da taxa Tobin, ameaça aos especuladores, alvo dos censores], e Ignacio Ramonet, “Désarmer.les marchés” [Desarmar os mercados], respectivamente, Le Monde Diplomatique, fev. e dez. 1997.
6 Ler Sam Pizzigati, “Plafonner les revenus, une idée américaine” [Teto para a renda, uma ideia norte-americana], Le Monde Diplomatique, fev. 2012

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